Os preços dos medicamentos vendidos no Brasil podem sofrer reajuste de até 3,81% a partir desta terça-feira, 31/3, conforme resolução da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed). A medida estabelece três faixas de aumento, de acordo com o nível de concorrência de cada produto: até 3,81% para medicamentos com maior competitividade, 2,47% para os de média concorrência e 1,13% para aqueles com pouca ou nenhuma concorrência. Apesar do teto autorizado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que o reajuste médio permitido será de até 2,47%, o menor dos últimos 20 anos e abaixo da inflação acumulada no período.
Mesmo com a limitação regulatória, o impacto já começa a ser percebido por consumidores em Uruguaiana, especialmente quem precisa de medicamentos de uso contínuo.
A dona de casa Carlise Brondani relata as dificuldades enfrentadas com o tratamento do filho, Pedro, diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Segundo ela, a troca de medicação ao longo do ano evidenciou diferenças expressivas de preços. “No caso da Ritalina, usei tanto a de referência quanto a genérica, e nunca cheguei a pagar mais de R$ 80. Depois passei a comprar o genérico, às vezes até três caixas, e dificilmente ultrapassava de R$ 100. Mesmo quando houve reajuste, não foi algo tão significativo, principalmente porque me cadastrei em programas que oferecem desconto”, explica. No entanto, ao iniciar o uso de um novo medicamento, a realidade mudou. “O Venvanse já passa dos R$ 400. Quando está mais em conta, fica na faixa de R$ 380. Só consegui pagar R$ 150 uma vez por conta de uma promoção com cerca de 50% de desconto. Agora, com esse aumento, fico sem saber se vou conseguir encontrar novamente por um valor mais acessível”, relata.
A estudante Ellen Carpes também sente os efeitos da elevação nos preços. Usuária de medicação para tireoide desde a infância, ela destaca que o custo acompanha o aumento da dosagem ao longo dos anos. “Uso o Synthroid há 16 anos, e conforme as fases do tratamento, a dosagem foi aumentando. Hoje tomo 112 mcg, com caixas de 30 comprimidos que costumavam variar entre R$ 35 e R$ 56”, afirma. Segundo ela, o reajuste recente já impactou. “No começo de março, levei um susto. O remédio que eu pagava R$ 38 no início do ano passou para R$ 46. Pode parecer pouco, mas esses R$ 8 fazem diferença quando somados a outros gastos da farmácia”, destaca. O valor representa 21% de aumento.
Levantamento feito pelo CIDADE em redes de farmácias do município confirma a variação de preços. No caso do Synthroid 112 mcg, o valor varia de R$ 44 a R$ 56, dependendo da rede de farmácia.
A aposentada Carmen Barcellos diz que sentiu a diferença na hora de comprar os medicamentos de uso contínuo para hipertensão. Em fevereiro, o gasto foi de R$ 190 aproximadamente; em março o valor subiu para R$ 251, 35% a mais que no mês anterior. “E nesse valor não está incluindo a Indapamida, que no mês passado a gente pegou uma caixa de 60 comprimidos porque estava em conta, e agora não precisou comprar”, diz. Esta é, aliás, uma das dicas da aposentada para economizar. “Geralmente vale a pena as embalagens de 60 comprimidos ou aquelas promoções em que tu compras mais de uma caixa e o preço reduz”, explica. Outra dica é pesquisar os preços todos os meses, no dia em que for fazer a compra, e observar o laboratório, especialmente quem compra medicação genérica. “Tem muita diferença de valor de laboratório para laboratório e muita promoção também”, finaliza.
Já a publicitária Sarah Martins pagou R$ 67 por uma embalagem de 30 comprimidos do medicamento para epilepsia em fevereiro. “Nesse mês o valor foi para R$ 84 na farmácia mais barata. Acabei pagando R$ 157 na caixa com 60 comprimidos, mas ainda assim senti a diferença, Em dezembro comprei a caixa de 60 por R$ 142”, conta. “Comprei na semana passada e ainda comentei com a moça da farmácia sobre o aumento. Ela me respondeu que os preços ainda estão subindo, e que a tendencia é ficar ainda mais caro”, comenta. Na prática, a embalagem de 30 comprimentos ficou 25% mais cara e a de 60 ficou 10% mais cara.
Como funciona o reajuste
No Brasil, os medicamentos possuem um preço máximo tabelado, conhecido como Preço Máximo ao Consumidor (PMC), que é regulado pelo governo federal. Todos os anos, no dia 1º de abril, a Cmed, órgão ligado à Anvisa, autoriza um reajuste baseado na inflação, produtividade da indústria e concorrência.
A farmácia não pode vender acima do PMC, mas pode vender abaixo, aplicando descontos, o que faz com que os preços variem entre diferentes estabelecimentos. Portanto, embora haja um limite legal superior, não existe um preço único e fixo para todos os remédios, permitindo concorrência e descontos.
A Anvisa destaca que os aumentos não são automáticos e podem variar conforme a estratégia de cada empresa e o nível de concorrência. “Na prática, fabricantes e farmácias podem aplicar reajustes inferiores ou até manter os preços atuais”, informou o órgão. Ainda assim, para quem depende de medicamentos contínuos, qualquer alteração representa um peso adicional no orçamento familiar.
A regulação econômica do setor busca equilibrar a proteção ao consumidor com a sustentabilidade da indústria farmacêutica, garantindo o fornecimento de medicamentos no país. No entanto, na realidade local, o cenário reforça a necessidade de pesquisa de preços e acesso a programas de desconto como alternativas para amenizar os impactos no dia a dia da população.
Menor preço
Não é novidade que a pesquisa de preço ajuda a economizar. Como os medicamentos não possuem preço único, a pesquisa de preços é fundamental. Pesquisas do Procon mostram que o mesmo medicamento pode ter grandes variações de preço, chegando a diferenças superiores a 200% ou até 700% em alguns casos, reforçando a necessidade de pesquisa.
Uma boa maneira é utilizando o aplicativo Menor Preço – Nota Gaúcha. Desenvolvimento pela Receita Estadual do Rio Grande do Sul, ele é integrado ao Programa Nota Fiscal Gaúcha (NFG) e permite ao usuário pesquisar o menor preço de um produto em mais de 300 mil estabelecimentos participantes do Programa NFG. Por meio de consultas às Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e) e às Notas Fiscais de Consumidor Eletrônicas (NFC-e), os preços são atualizados em tempo real, ou seja, assim que a nota fiscal é emitida, o valor do produto é carregado para o Menor Preço.
Para fazer a pesquisa basta selecionar a localização (seja por GPS ou escolhendo a cidade de forma manual) e pesquisar pelo nome do produto.
O app está disponível tanto para Android quanto pra iOS.


