Como mulher, professora, pesquisadora, palestrante, escritora, mãe e outras atribuições, apresento uma breve reflexão que envolve minhas publicações, palestras e preocupações, sobre o mês de Março, que para a mulher é um mês de extrema importância. O que significa ser mulher em uma sociedade que ainda convive com desigualdades profundas e com a persistência da violência de gênero? Tentarei trazer este tema para conversarmos rapidamente.
Ser mulher hoje é viver em um paradoxo, pois ao mesmo tempo que temos avanços importantes, conquistas árduas feitas no decorrer da história, ainda muito é necessário ser feito. Alguns pontos que conseguimos conquistar foram: o reconhecimento jurídico dos direitos das mulheres, a ampliação das políticas públicas de proteção, o aumento progressivo de cargos e reconhecimento no mundo do trabalho e a visibilidade do tema da violência de gênero, dentre outros. Mas a realidade cotidiana ainda revela números alarmantes de violência doméstica, feminicídio, assédio e discriminação.
É necessário perceber que a violência contra a mulher está enraizada em estruturas históricas, patriarcais, machistas e com desigualdades que atravessam relações sociais, culturais e institucionais. Ela se manifesta de forma silenciosa de várias formas, como no poder e controle masculino, na humilhação, na invisibilização das vozes femininas e na naturalização de práticas que diminuem a autonomia das mulheres.
A violência necessita ser reconhecida e enfrentada como um problema coletivo, construído historicamente sob o machismo que afasta as mulheres do amparo e segurança que tanto é necessário. Ainda a sociedade precisa compreender que a violência de gênero não é um problema privado, restrito ao ambiente doméstico, mas uma questão pública que diz respeito aos direitos humanos e à dignidade das pessoas.
Ao longo de minha trajetória como pesquisadora e escritora, tenho defendido que o direito possui um papel fundamental nesse processo. Leis importantes foram criadas, estruturas institucionais foram fortalecidas e redes de proteção foram ampliadas, mas a efetividade dessas conquistas depende da atuação permanente do Estado e da participação ativa da sociedade.
Também depende da coragem das próprias mulheres. Cada mulher que denuncia a violência, que rompe o silêncio ou que ocupa um espaço de liderança contribui para transformar estruturas historicamente marcadas pela desigualdade.
Ser mulher, portanto, é também resistir. É transformar dor em luta, silêncio em voz e invisibilidade em presença.
Quero e irei continuar insistindo que nós mulheres não necessitamos apenas sobreviver à violência em todos os seus vieses, mas temos o direito de viver plenamente, caminhando pelas ruas com segurança, sendo respeitadas no ambiente do trabalho e nos lares, tendo igualdade nas oportunidades e dignidade em todas as esferas da vida.
Esse mês da mulher não deve ser apenas um momento de homenagens simbólicas, mas um tempo de reafirmar compromissos concretos com a construção de uma sociedade mais justa, na qual meninas e mulheres possam crescer sem medo e com liberdade para construir seus próprios caminhos.
Os desafios ainda são enormes, mas precisamos ter esperança. Cada debate que se abre, cada política pública que se fortalece e cada voz feminina que se levanta representam passos importantes na construção de um futuro diferente.
“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas” (Audre Lorde).


