Comando fala sobre inquérito que apura morte de militar
Tenente coronel Maciel Lopes e major Ribeiro falaram ao CIDADE. Fotos: Helena Biasi/JC

Segue em andamento o Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado pelo Exército Brasileiro para apurar as circunstâncias da morte do cabo Gustavo da Silva Bueno, de 21 anos, encontrado morto na madrugada do dia 19 de janeiro, nas dependências do 8º Regimento de Cavalaria Mecanizado (8º RC Mec). Natural de Uruguaiana, ele integrava o 1º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado e estava no serviço de guarda, como rondista, no momento da morte.

Em entrevista ao CIDADE, o comandante do 8º RC Mec, tenente-coronel Luiz Eduardo Maciel Lopes, contou que a morte ocorreu por volta das 2h40min. Segundo ele, durante a madrugada o serviço de guarda no quartel funciona com escalas alternadas entre militares que realizam a ronda externa e aqueles que permanecem na guarita. “A gente divide os horários justamente para evitar fadiga excessiva. O militar passa um período em ronda, outro em permanência, e depois ocorre a troca, mantendo todos atentos. São duas horas de serviço para cada dupla”, explicou Maciel Lopes. Gustavo estava na função de rondista, e deveria trocar de lugar com outro colega na sequência.

Naquele momento, Maciel Lopes, que entrara em férias dois dias antes, estava fora da cidade, com a unidade aos cuidados do subcomandante, major Krysten Ribeiro Borges, que foi chamado ao quartel por volta de 3h, após o chamado Plano de Defesa ter sido acionado. “O Plano de Defesa foi acionado após um dos sentinelas ouvir um disparo de arma de fogo. Esse é um procedimento padrão sempre que há qualquer indício de anormalidade dentro do quartel”, explica.

Segundo Ribeiro, equipes de prontidão foram mobilizadas imediatamente após o acionamento do Plano de Defesa para verificar se havia tentativa de invasão ou outra situação irregular na unidade. “Foi feita uma varredura inicial, na qual não foi identificado nenhum sinal de violação dos muros ou presença de terceiros”, disse. Já próximo ao término dessa verificação, a ausência de Gustavo foi percebida. “Ele deveria ter rendido um colega no posto de permanência, e não apareceu. A partir disso, as buscas internas foram intensificadas”, relatou o subcomandante. O militar foi localizado já sem vida próximo a cerca de divisa entre o 8º RC MEC e o 22º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado GAC AP).

Investigação

Maciel Lopes explica que todos os protocolos legais foram adotados desde os primeiros instantes após a localização do corpo. “A área foi imediatamente isolada, e mesmo que a Polícia do Exército tivesse condições de realizar as perícias, optamos por acionar o Instituto-Geral de Perícias, para dar transparência ao processo”, afirmou.

Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado e o capitão Rafael Teixeira foi o oficial designado para a apuração. Ele trabalha com as linhas de investigação: suicídio, homicídio e acidente. “Em casos como esse, é obrigação investigar suicídio, homicídio ou acidente, por mais improvável que alguma dessas linhas possa parecer neste momento”, explica Maciel.

O disparo que tirou a vida de Gustavo foi efetuado com a arma que o próprio militar portava durante o serviço, uma pistola Beretta calibre 9 milímetros, calibre padrão do Exército Brasileiro e para qual Gustavo estava devidamente habilitado a fazer uso. A posição do disparo, na região frontal da cabeça, é um dos elementos que estão sendo analisados tecnicamente pelos peritos. A arma foi encontrada ao lado dele, com apenas uma munição deflagrada, e o cartucho da capsula foi encontrado próximo.

Laudos periciais, aos cuidados do IGP, ainda estão sendo aguardados e a conclusão do IPM ocorrerá somente após a conclusão desta e de outras diligências, confirmando as circunstâncias da morte do jovem militar, mas os indícios atualmente apontam para suicídio.

Acompanhamento da família

O Comandante destacou que a família do cabo Gustavo recebeu acompanhamento desde os primeiros momentos após a confirmação da morte. “Nossa equipe de saúde e assistência social permaneceu com a família durante todo o processo. Eu fui conversar com eles, explicar os procedimentos e prestar apoio”, relatou.

Ele reconheceu que o tempo necessário para a conclusão da perícia e a liberação do corpo causou sofrimento adicional. “Sabemos que isso gera angústia, mas tudo foi feito dentro do que determina a legislação”, disse.

Segundo o comandante, o caso surpreendeu tanto a família quanto o comando da unidade. “Eles relataram que ele estava bem, sem sinais aparentes de sofrimento. Para nós também foi um choque. Ele era um jovem de 21 anos, com planos de seguir carreira, inclusive se preparando para o curso de formação de sargento temporário. E era ótimo no trabalho”, afirmou.

Histórico e perfil do militar

À redação, foi repassado o histórico funcional do cabo, no qual consta sua trajetória desde a incorporação, em abril de 2023. Gustavo da Silva Bueno participou de operações relevantes, como a Operação Taquari II, que visou socorrer vítimas da enchente histórica de 2024.

Desde sua incorporação, ele participou de instruções sobre valorização da vida e prevenção ao suicídio, além de atividades voltadas ao bem-estar, como liberações prolongadas, ações comemorativas, práticas esportivas e cursos de capacitação profissional, incluindo formação na área agrícola em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Prevenção ao suicídio no 8º RC Mec

Ao falar sobre as ações preventivas desenvolvidas no regimento, o tenente-coronel destacou que a saúde mental tem sido tratadA como prioridade. “A prevenção começa nas condições básicas. Investimos em reformas nos alojamentos, melhorias no refeitório e em uma alimentação mais equilibrada, porque isso impacta diretamente no bem-estar do militar”, explicou. Atualmente os alojamentos do 1º Esquadrão estão passando por reformas.

Ele adiantou que a unidade trabalha para ampliar esse cuidado e destacou a promoção de atividades de integração, como comemoração para aniversariantes, práticas esportivas e momentos de convivência. “São ações simples, mas que ajudam a criar vínculo e a perceber quando alguém não está bem”, avaliou.

Maciel Lopes também mencionou projetos voltados ao futuro profissional dos militares. “Temos iniciativas, como a Estação Empregar Verde Oliva e o Projeto Agro Verde Oliva, que ajudam esses jovens a enxergar perspectivas além do quartel”, afirmou.

Outra iniciativa citada foi a criação de um canal interno de escuta. “Implantamos uma caixinha de sugestões e reclamações no refeitório. Ali, o militar pode escrever o que não está bom, o que pode melhorar ou até agradecer. Isso nos dá um retorno que muitas vezes não chega pelos meios formais”, explicou.

O comandante também ressaltou a aproximação com as famílias, especialmente de militares vindos de outras cidades. “Manter diálogo com pais e responsáveis é fundamental. Muitas vezes, eles percebem mudanças antes de nós e conseguem nos alertar”, concluiu.

Um problema que extrapola os quartéis

Em setembro de 2025, outro militar foi encontrado morto em uma unidade militar em Uruguaiana. O 2º tenente dentista Felipe Borsa Lago foi encontrado também com um disparo de arma de fogo, no quartel general da 2ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, onde o oficial prestava serviço.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que, em 2024 e 2025, o número de mortes por suicídio entre policiais e militares superou o de óbitos em confrontos armados. Levantamentos apontam que, apenas em 2024, cerca de 126 profissionais de segurança pública morreram por suicídio no Brasil, sendo a maioria composta por soldados, cabos e sargentos, grupos diretamente expostos à rotina operacional e ao uso contínuo de armamento.

Fatores de risco como o estresse crônico, a pressão hierárquica, a exposição constante a situações de tensão, o fácil acesso a armas de fogo e a eventual presença de transtornos psicológicos pré-existentes podem contribuir para o agravamento de quadros de vulnerabilidade. Diante desse cenário, as Forças Armadas e instituições de segurança pública têm reforçado programas internos de prevenção, como o ‘Programa de Valorização da Vida’, além de manuais de orientação aos comandantes e o fortalecimento das redes de assistência social e psicológica dentro das organizações militares.

Busque ajuda

Diante de situações de sofrimento emocional, ideação suicida ou crises psicológicas, militares podem buscar apoio nas Seções de Assistência Social (SAS) e nos serviços de saúde das próprias organizações militares, que são os canais internos responsáveis pelo acompanhamento e encaminhamento adequado.

Fora do ambiente institucional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188, além de chat online, atendendo pessoas em sofrimento psíquico em todo o país. Familiares e colegas também podem procurar ajuda profissional ao perceber sinais de alerta, reforçando que o cuidado com a saúde mental deve ser tratado com a mesma prioridade que a saúde física.