‘É preciso divulgação, educação e conscientização’, diz médico sobre doação de órgãos

O mês de setembro é destinado a conscientizar a sociedade sobre a importância da doação e, ao mesmo tempo, fazer com que as pessoas conversem com seus familiares e amigos sobre o assunto. Esta terça-feira, 27/9, marca o Dia Nacional da Doação de Órgãos, uma espécie de Dia D da campanha. A data foi instituída pela Lei nº 11 584/2007, com o objetivo de nos fazer pensar na importância deste ato de amor e altruísmo.

Apesar da ampliação da discussão do tema nos últimos anos, se trata ainda de um assunto polêmico e de difícil entendimento, resultando em um alto índice de recusa familiar.

A maior parte dos transplantes são realizados a partir de um doador cadáver, quando este sofre uma morte encefálica, ou morte cerebral. Não há, no Brasil, uma forma legal de se declarar doador ainda em vida para que, em caso de morte cerebral, esta vontade seja respeitada. Atualmente, a legislação brasileira determina que a família será a responsável pela decisão final e vem daí a importância da conversa com os familiares a fim de informá-los a cerca deste desejo.

O Hospital Santa Casa de Uruguaiana é uma das instituições captadoras de órgãos no estado, através da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (Cihdott). O grupo é coordenado pelo médico pneumologista Luiz Fernando Ximenes Cibin.

Em 2022, o HSCU registrou quatro mortes encefálicas, das quais duas resultaram em doação de órgãos. Após cinco anos sem realizar nenhuma captação de órgãos, foram captados, de uma paciente os dois rins e o fígado, e de outro paciente os dois rins. Ambos os procedimentos ocorreram no mês de julho.

Por que o número de doações é tão pequeno

De acordo com a Central Estadual de Transplantes, em 2022 foram realizadas 422 notificações de morte encefálica no Rio Grande do Sul. Deste total apenas 17 resultaram em doação de órgãos, ou seja, em apenas 27,7% dos casos.

Em nível de estado, a negativa familiar aparece como principal causa da não efetivação das doações. Em 133 casos a família optou por não fazer a doação. Este cenário, de acordo com Cibin, é realidade no mundo todo. “A negativa da família é o principal fator no mundo todo. A Espanha é o país que tem a melhor taxa de aceitação da família, um modelo muito conhecido no mundo todo e que se tenta seguir”, explica.

Para ele, a desinformação é o principal motivo que leva os familiares a não aceitarem doar. “O principal fator é a falta de informação. Nossa população, nossas famílias não são informadas a respeito de um quadro de morte cerebral e de que seu familiar pode ajudar outras pessoas através da doação. Existe uma descrença no diagnóstico e uma dificuldade de entender o diagnóstico”, conta. O médico também cita fatores culturais e religiosos. “Há religiões que acreditam que o corpo deve ser enterrado sem nenhum tipo de manipulação. Há fatores culturais, que acabam influenciado”

Outro fator relevante, conforme Cibin, é a demora para conclusão do processo de captação. “Às vezes acontece a desistência por conta da demora. Às vezes a Central de Transplante tem vários processos de captação ao mesmo tempo e não tem equipes suficientes para fazer tudo ao mesmo tempo. A espera longa é bastante desgastante para os familiares e muitos acabam desistindo no meio do processo”, explica.

Para o Médico, essa realidade somente poderá ser alterada com educação e conscientização. “Somente assim as pessoas vão conhecer mais sobre o assunto e, se eventualmente se depararem com um diagnóstico de morte cerebral na família poderão aceitar melhor esse diagnóstico e, quando possível, ter a iniciativa de doar. É preciso divulgação, educação e conscientização”, finalizada o profissional.

O processo de doação de órgãos

O médico explica que o diagnóstico de morte cerebral é feito em três etapas. Nos casos de pacientes com quadro neurológico grave e suspeita de morte cerebral são realizadas duas baterias de exames clínicos, além de um teste de apneia, e ainda um exame confirmatório.

“São dois testes clínicos feitos por dois médicos diferentes e obrigatoriamente um deles precisa ser um neurologista. Depois há ainda o exame confirmatório, que no nosso caso (Santa Casa de Uruguaiana) é o eletroencefalograma”, explica Cibin.

Ele diz que este diagnostico na maioria das vezes é provocado por um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou um trauma de crânio, como por exemplo em razão de um acidente de trânsito. “Uma vez conformada a morte cerebral, é realizada uma entrevista com a família do paciente a fim de saber se eles têm interesse em doar ou não os órgãos”, finaliza.

Cibin explica que, geralmente, o processo de doação de órgãos dura cerca de seis horas. No entanto, Uruguaiana vem tendo uma dificuldade maior. “Os dois testes clínicos têm intervalo de uma hora entre eles, mas é precisamos o exame de eletroencefalograma, ou uma arteriografia ou um ecodopler transcraniano, que são os exames confirmatórios. Isso é o que demora mais aqui em Uruguaiana porque o aparelho vem de Lajeado. São cerca de seis horas até aqui. Então temos essa dificuldade”, explica.

Quem pode doar?

De forma geral, não há um limite de idade para doar órgãos, de acordo com o médico. No entanto, ele diz que alguns órgãos especificamente têm um limite estabelecido de idade.

“Coração e pulmão possuem um limite então eles não são captados. Mas para demais órgãos não há esse limite, como os rins, por exemplo. Uma pessoa de 80 anos pode doar um rim desde que ele esteja funcionando”, exemplifica. Também não há uma mínima. “Um recém-nascido pode doar. É claro que isso é bem menos frequente e por isso não ouvimos falar tanto sobre esses casos”, comenta.

Quando não é possível doar?

Conforme Luiz Fernando Cibin há condições que excluem a possibilidade de uma pessoa ser doadora de órgãos. “Aqui no Brasil ainda não é possível um paciente HIV positivo doar, ou um paciente com tuberculose ativa, hepatite ou câncer. Porém, existe alguns tipos de tumores que não são impeditivos”, explica.

O médico também explica que há situações em que não é possível a captação em razão das condições do corpo do doador. “Há situações, como uma pressão muito baixa por exemplo, que impedem que ele passe pelo procedimento de captação sem que o coração pare. Ou no caso de uma infecção generalizada, por exemplo”.