Especialista explica impactos do sedentarismo e como mudar a rotina
Atividade física traz ganhos multifatoriais e atinge o corpo de forma sistêmica, aponta especialista Créditos: Ilustração/Freepik

A inatividade física deixou de ser apenas uma questão de estética para se tornar uma crise de saúde pública global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que um terço dos adultos ao redor do globo não se movimenta o suficiente. O resultado dessa conta é drástico: o sedentarismo é responsável pela interrupção de aproximadamente cinco milhões de vidas anualmente. 

O cenário futuro é ainda mais preocupante. Um relatório recente da entidade adverte que, entre 2020 e 2030, quase 500 milhões de indivíduos podem desenvolver patologias cardíacas, obesidade ou outras enfermidades crônicas diretamente ligadas à falta de exercícios. 

No cenário nacional, o Brasil é o país mais sedentário da América Latina e o quinto no ranking mundial. Por aqui, cerca de 300 mil pessoas falecem todos os anos devido a complicações associadas à falta de movimento. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 47% dos adultos brasileiros são inativos. Entre a juventude, o índice é ainda mais grave, atingindo 84% dos jovens. 

Para entender como reverter esse quadro, o CIDADE conversou com educador físico, especialista em Fisiologia do Exercício Físico, Juliani Alves da Silva. Ele reforça que a mudança de hábito é uma necessidade biológica. “Nosso corpo foi projetado para o movimento. A atividade física regular é um dos pilares fundamentais para a saúde, impactando positivamente nossa vitalidade e o bem-estar no dia a dia. Para quem vive uma rotina sedentária, entender essa importância é o primeiro passo para uma grande mudança”, destaca Silva. 

De acordo com o profissional, os ganhos para quem decide abandonar a inércia são multifatoriais e atingem o corpo de forma sistêmica. A prática regular de exercícios físicos funciona, primordialmente, como um escudo biológico contra o surgimento de doenças crônicas, sendo um fator determinante na prevenção de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVC), diabetes tipo 2 e até diversos tipos de câncer. 

Juliani explica que além da proteção imunológica e metabólica, ocorre um significativo fortalecimento estrutural: o estímulo constante amplia a massa muscular e protege diretamente os ossos e as articulações, ao mesmo tempo em que otimiza a circulação sanguínea e a capacidade pulmonar do indivíduo. 

A transformação, entretanto, não se restringe ao aspecto físico, alcançando profundamente a saúde mental. O fisiologista esclarece que, durante o esforço físico, o cérebro é estimulado a liberar neurotransmissores essenciais para o equilíbrio emocional. “O corpo libera endorfina e serotonina, que geram sensação de prazer e bem-estar, combatendo a ansiedade e a depressão”, explica o especialista.  

Somado a esse alívio psicológico, o exercício atua como um regulador do peso e do repouso, auxiliando no controle da gordura corporal e proporcionando um sono muito mais reparador, elemento vital para a plena recuperação cognitiva e física no dia a dia. 

A evolução da sociedade explica parte do problema. Há algumas décadas, o gasto calórico era naturalmente elevado devido ao trabalho manual e a uma dieta menos processada. “Com a Revolução Industrial e, mais recentemente, a revolução tecnológica, o cenário mudou. O trabalho tornou-se mais sedentário, os deslocamentos foram facilitados por veículos e a indústria alimentícia nos trouxe uma abundância de alimentos ultraprocessados”, analisa Juliani. 

Como recomeçar? 

Para quem deseja abandonar a zona de inatividade, a recomendação primordial do especialista é a progressão gradual, focando inicialmente em atividades que gerem satisfação pessoal. “Encontre uma atividade que lhe dê prazer: pode ser uma caminhada no parque, dançar, andar de bicicleta, nadar ou praticar um esporte”, orienta Juliani.  

Além da escolha da modalidade, pequenas adaptações na rotina diária fazem a diferença, como optar pelas escadas em vez do elevador e reduzir o uso de veículos em trajetos curtos para estimular o movimento cotidiano. 

A construção dessa nova rotina deve ser pautada em metas realistas para evitar o desânimo; o ideal é iniciar com sessões de 15 a 20 minutos, três vezes por semana, ampliando o tempo e a intensidade conforme o condicionamento físico evoluir. Outro fator motivacional importante é buscar a companhia de amigos ou familiares para realizar os exercícios em conjunto.  

Ao final, fica claro que a longevidade não depende de fórmulas mágicas, mas do equilíbrio entre uma dieta natural e o movimento constante. “A verdadeira prevenção está em nossas mãos”, conclui o especialista.