Jovem é morto durante ação policial no Cabo Luiz Quevedo
A morte de Guilherme Moisés Oliveira de Jesus, de 24 anos, é investigada pela Polícia Civil

Um jovem de 26 anos morreu durante uma ação policial conduzida na última sexta-feira, por policiais lotados no 6º Batalhão de Polícia de Choque (6º BPChoque). A ação ocorreu por volta de 21h, na casa onde o jovem Guilherme Moisés Oliveira de Jesus vivia com a mãe, Sandra Helena Oliveira de Jesus, na rua Marechal Floriano, bairro Cabo Luiz Quevedo. Família e vizinhos dizem que o jovem foi atacado dentro de casa, e assassinado pelos policiais. 

Em entrevista ao CIDADE, Sandra contou foi avisada pelos vizinhos que algo acontecia no local, pois o filho pedia socorro e chamava por ela, que não estava. Quando chegou, acompanhada da filha e de um irmão, Guilherme não estava mais lá – já tinha sido levado para o pronto socorro. Conforme ela, os vizinhos relataram que a movimentação na casa envolveu mais de uma viatura e vários agentes. Enquanto seis policiais forçavam as grades, outros dois pularam o portão e entraram na casa, momento a partir do qual gritos de socorro vindos do interior do imóvel passaram a ser escutados. 

Ainda segundo a mãe, vizinhos testemunharam o momento em que Guilherme foi retirado do local, já sem vida. “Deixaram-no no Pronto Socorro, dizendo que tinha passado mal. Meu filho saiu morto de casa, arrastado”, declarou. Guilherme deu entrada por volta de 22h, horário que consta como hora do óbito na certidão. A morte foi atestada pelo médico João Hallex Har Rolim como “CAUSA INDETERMINADA; AGUARDO EXAMES. Tipo de morte: violenta.”. O corpo foi encaminhado para exame de necropsia e os laudos periciais ainda não foram concluídos. 

 O local do crime 

Chaves da casa, telefone celular e documentos de Guilherme ainda não foram encontrados. Mesmo sem conseguir acessar a casa, Sandra teve acesso a vídeos produzidos a partir das janelas do imóvel que, para ela, mostram sinais de que alguns cômodos passaram por uma limpeza, o que pode ter comprometido a preservação de vestígios relevantes para a apuração dos fatos. A cama dele também desapareceu da casa. Além disso, em pelo menos cinco ocasiões policiais militares foram vistos rondando o local. 

 Declarações inconsistentes 

A família aponta inconsistências nas declarações dos policiais, que apresentaram três versões diferentes ao longo da noite de sexta-feira. “Quando cheguei lá, fui perguntando para todo mundo o que estava acontecendo, enquanto meu irmão foi falar com os policiais que estavam na casa. Disseram para ele que meu filho tinha passado mal e que os policiais tinham sido chamados para socorrê-lo – essa foi a primeira versão que eles deram”, conta. “Depois disseram que meu filho estava na rua, que viu a viatura e fugiu para casa, e que tinha uma arma na cintura. Depois eles mudaram de versão novamente, e disseram que o Guilherme estava no pátio de casa portando uma arma, e que correu para dentro quando viu a viatura. Ele estava dentro de casa, falando com a minha filha pelo WhatsApp e preparando o jantar”, conta. Vizinhos confirmaram que o rapaz estava dentro da casa quando os policiais chegaram. 

Medo e aproximação 

Ela também afirma que o filho tinha medo da polícia em razão de uma abordagem sofrida ainda na adolescência e que, independentemente de qualquer suspeita, não havia justificativa para a morte. “Mesmo que houvesse alguma acusação, ele deveria ter sido levado para a delegacia, não ser torturado e assassinado dentro de casa”, afirmou. 

Sandra também conta que o filho mantinha contato recorrente com um policial militar do Batalhão de Choque há cerca de três meses. “Ele queria ser policial, e dizia que ia entrar para o Choque. Agora estão dizendo que meu filho era bandido e tinha vários antecedentes. Qualquer um vai lá na Delegacia, e vai ver que não era não. E essa arma e essa droga que dizem que acharam na minha casa, isso foi plantado”, desabafa. 

Conforme a advogada da família, Franciele Botelho, o único registro é de lesão corporal quando Guilherme ainda era adolescente. 

 O “Choque”? 

O comandante em exercício do 6º Batalhão de Polícia de Choque, capitão William Scramin, disse em nota que os policiais estavam em patrulhamento tático motorizado, quando “visualizaram um homem em atitude suspeita que, ao perceber a aproximação da viatura, correu para o interior de uma residência, desobedecendo à ordem de parada”. Ainda conforme Scramin, o homem portava na cintura um objeto com características semelhantes a uma arma de fogo e, durante a abordagem, “ofereceu resistência ativa, não acatando comandos verbais e investido fisicamente contra os policiais, o que exigiu o uso progressivo da força para a contenção”. “Guilherme teve um mal súbito, perdeu a consciência e recebeu atendimento pré-hospitalar no local, com manobras de reanimação cardiopulmonar. Em seguida, foi encaminhado ao pronto-socorro da Santa Casa.” 

Scarmin também disse que Guilherme possuía antecedente criminal, e no local foram apreendidos uma arma de fogo, três munições e uma porção de substância com características semelhantes à cocaína. 

A Nota finaliza dizendo que os policiais foram realocados preventivamente, e instaurada sindicância para apuração da conduta dos agentes, além do encaminhamento da ocorrência à autoridade policial competente. 

 A autoridade competente 

Ao receber a ocorrência, a autoridade policial competente, delegado Vinícius Seolin, instaurou um Inquérito Policial junto a 1ª Delegacia de Polícia de Uruguaiana (1ª DP), para apurar as circunstâncias da morte de Guilherme Moisés Oliveira de Jesus. Também em Nota, Seolin disse que já foram realizadas perícias, diligências seguem em andamento, e testemunhas ainda serão ouvidas, complementando que as “medidas legais e cabíveis estão sendo adotadas com prioridade e cautela”, com o objetivo de esclarecer os fatos no menor tempo possível. 

O CIDADE apurou também que uma perícia complementar no imóvel estava agendada para o início da noite desta segunda-feira, e deveria contar com a presença da mãe e da advogada da família. 

Um dia antes, em Pelotas…

A ação do 6º Batalhão de Choque na casa de Guilherme ocorreu menos de 24 horas depois de um agricultor ser morto a tiros por policiais militares, no interior de Pelotas, na região Sul do estado, durante a madrugada da última quinta-feira, 15/1. 

Marcos Nörnberg, 48 anos, foi morto dentro da própria casa. De acordo com a mulher dele, o casal estava dormindo quando percebeu movimentação no pátio da propriedade. Ele saiu da cama para verificar e, em seguida, ela ouviu gritos e disparos. O homem morreu no local. 

A BM afirmou que Marco atirou contra os agentes, mas a esposa discorda. “Em nenhum momento ele saiu de dentro da nossa casa. Ele foi alvejado dentro da nossa casa”. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios de Pelotas. 

Neste caso, houve manifestação do comandante-geral da Brigada Militar, Cláudio Feoli, que admitiu que houve um “grande equívoco” na ação. Ele disse que os 18 policiais militares envolvidos foram afastados e as armas utilizadas na ação foram apreendidas. A Corregedoria-Geral da BM instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o caso. 

Paralelamente, a Polícia Civil também abriu um inquérito, que é conduzido pelo delegado César Nogueira, que classificou o número de policiais e viaturas como “incomum”. Segundo ele, a PC não tinha conhecimento prévio da ação da BM. Testemunhas, incluindo a viúva e familiares da vítima, começaram a ser ouvidas, também nesta segunda-feira.