Dados do relatório ‘Violência de gênero contra jornalistas’, lançado em março deste ano, revelam as dificuldades de ser comunicadora no Brasil. O relatório mostra que 127 jornalistas e meios de comunicação foram alvos de 119 casos de violência de gênero, dos quais mulheres jornalistas representam 91,3% das vítimas.
O documento também aponta que 44,3% das jornalistas mulheres são alvos constantes de agressões; 34,4% sofrem restrições na internet; 16,4% são vítimas de discursos estigmatizantes e 4,9% possuem processos judiciais. O levantamento foi realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com apoio do Global Media Defence Fund, da UNESCO.
Segundo o relatório, a região Sul que engloba os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, foi a que apresentou menos episódios de violência, com 3,4%. As regiões que lideraram os números de violência foram a Sudeste – compostas por Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro – com 66,4%, e Nordeste, com 12,6% dos registros.
Em 2021, profissionais da imprensa e veículos foram alvos de 45 ataques direcionados, utilizando gênero, sexualidade ou orientação sexual como argumentos para a agressão. “Discursos estigmatizantes”, narrativas que utilizam agressões verbais com o intuito de hostilizar e descredibilizar jornalistas, representam 75% dos episódios. Já 71,4% dos insultos tiveram origem ou foram repercutidos em ambientes virtuais, como a rede social Twitter. Os principais agressores identificáveis foram homens, correspondendo a 95% dos abusos dentro e fora da internet.
Ataques contra a reputação
A assistente jurídica da Abraji, advogada Letícia Kleim, informou ao Boletim Violência de Gênero em Dados, do Instituto Patrícia Galvão, que a maioria dos casos registrados foi de “ataques contra a reputação e a moral da mulher”. Esses ataques usam aspectos relacionados à aparência, à sexualidade, até questões mais estereotipadas da personalidade, para desqualificar aquela mulher enquanto profissional.
“Então, não é uma simples crítica ao trabalho dela, como acontece no caso de jornalistas homens, por exemplo, ao dizer que ele é parcial, que ele, enfim, tem algum viés político. No caso da mulher, isso ultrapassa uma desqualificação da capacidade dela enquanto jornalista, são questionamentos que se valem desses outros tipos de violência, até narrativas, por exemplo, sobre supostos casos extraconjugais, narrativas sobre a sexualidade”, afirma Letícia.
A advogada atua no monitoramento dos ataques a jornalistas e coordena o Programa de Proteção Legal para Jornalistas. Ela analisou os dados e chamou atenção para a necessidade de se desenvolverem mecanismos de proteção para as comunicadoras e de responsabilização dos agressores.
Boletim Violência de Gênero em Dados
Realizado com apoio do Consulado Geral da Irlanda em São Paulo, o Boletim Violência de Gênero em Dados divulga mensalmente uma seleção de estatísticas e dados de estudos realizados por órgãos governamentais, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil, sobre os diversos tipos e formas de violência contra as mulheres, com curadoria da equipe do Instituto Patrícia Galvão.


