Entre as espécies catalogadas estão parentes silvestres de cultivos como batata, amendoim, mandioca e batata-doce Fotos: Marcos Nagelstein/MTur Destinos

O Bioma Pampa, que se estende por áreas do Brasil, Argentina e Uruguai, abriga um patrimônio genético considerado estratégico para a segurança alimentar e o futuro da agricultura. É o que aponta um estudo liderado por pesquisadores brasileiros e publicado em abril deste ano no ‘Botanical Journal of the Linnean Society’, de Londres.

A pesquisa identificou 199 espécies nativas de parentes silvestres de plantas cultivadas, organismos que possuem relação genética com culturas agrícolas e que podem fornecer características valiosas para o desenvolvimento de variedades mais produtivas, resistentes a pragas e capazes de suportar condições climáticas extremas.

O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Daiane Rodeghiero Vahl, João Iganci e Gustavo Heiden, vinculados à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e Embrapa Clima Temperado.

Segundo os pesquisadores, os chamados parentes silvestres das culturas agrícolas desempenham papel fundamental no melhoramento genético de plantas destinadas à alimentação. Por compartilharem características evolutivas com espécies cultivadas, eles podem fornecer genes relacionados à tolerância à seca, ao frio, ao calor, a doenças e a diferentes tipos de estresse ambiental.

O levantamento representa o primeiro inventário realizado com foco nos limites ecológicos do Bioma Pampa, e não nas fronteiras políticas dos países que compartilham a região. O estudo destaca que a conservação desses recursos genéticos será cada vez mais importante diante do avanço das mudanças climáticas e do crescimento da demanda mundial por alimentos.

Diversidade expressiva

O inventário catalogou 199 táxons (grupo que reúne espécies e variedades) distribuídos em 10 famílias botânicas e 18 gêneros de plantas. Entre as famílias mais representativas estão a Solanaceae, que inclui espécies relacionadas à batata, tomate e berinjela, com 64 táxons identificados. Em seguida aparecem as Poaceae, grupo das gramíneas, com 49 táxons; as Fabaceae, família das leguminosas, com 33; e as Convolvulaceae, relacionadas à batata-doce, com 29.

Os gêneros mais numerosos foram Solanum, com 62 táxons, e Ipomoea, com 29. As espécies encontradas possuem ligação genética com 32 culturas agrícolas consideradas de importância global. Entre elas estão batata, batata-doce, amendoim, mandioca, cevada, cana-de-açúcar, cenoura, feijões, pimentões, abacaxi e pêssego.

Presença no Sul

Dos 39 táxons que possuem informações genéticas detalhadas sobre o grau de parentesco com culturas agrícolas, 35 ocorrem na Argentina, 30 no Brasil e 23 no Uruguai. O levantamento também identificou quatro táxons exclusivos do Pampa brasileiro, reforçando a importância do Rio Grande do Sul para a conservação desses recursos genéticos.

Os autores destacam que a manutenção dessas espécies exige ações integradas entre os países que compartilham o bioma, uma vez que muitas delas ultrapassam fronteiras nacionais.

Espécies ameaçadas

O estudo também chama atenção para a falta de informações sobre a conservação dessas plantas. Das 199 espécies identificadas, 119 nunca foram avaliadas oficialmente quanto ao risco de extinção.

Entre as espécies já analisadas, os resultados são preocupantes. Na lista da flora ameaçada do Rio Grande do Sul, uma espécie está classificada como extinta, duas como regionalmente extintas, nove como criticamente em perigo e dez como em perigo de extinção.

Um dos exemplos citados pelos pesquisadores é o amendoim-silvestre (Arachis villosa), considerado criticamente ameaçado no Estado e em situação de perigo em âmbito nacional. A espécie possui características importantes de resistência a pragas e adaptação a diferentes condições climáticas.

Outro destaque é Solanum chacoense, parente silvestre da batata utilizado em programas de melhoramento genético devido à sua resistência a doenças bacterianas. A espécie está classificada como ameaçada no Rio Grande do Sul e é considerada prioritária para conservação no Uruguai.

Conservação urgente

Os pesquisadores alertam que a conversão de áreas naturais em monoculturas, a expansão urbana e os efeitos das mudanças climáticas vêm reduzindo rapidamente os habitats naturais do Pampa.

Considerado um dos ambientes menos protegidos da América do Sul, o bioma abriga aproximadamente 4,8 mil espécies de plantas conhecidas. A perda dessas áreas pode significar o desaparecimento de recursos genéticos que poderão ser essenciais para o desenvolvimento de cultivos agrícolas mais resilientes nas próximas décadas.

Diante desse cenário, o estudo reforça a necessidade de ampliar tanto a conservação das espécies em seus ambientes naturais quanto a coleta e preservação de sementes em bancos de germoplasma, estratégia considerada fundamental para garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade da agricultura no futuro.

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