Realizada há mais de quatro décadas durante a Semana Santa, a Feira do Peixe de Uruguaiana se consolidou como um dos principais espaços de comercialização de pescados da região, reunindo produtores, comerciantes e a comunidade em torno de uma tradição que vai além da venda: envolve cultura, convivência e sustento familiar.
Nesta quarta-feira, 1º/4, primeiro dia da edição de 2026, o CIDADE acompanhou o movimento no Parque Dom Pedro II, o ‘Parcão’, e conversou com feirantes que carregam, em suas trajetórias, a história viva do evento.
Entre eles está a dona Jurema Ibaldi, que participa da feira há cerca de 40 anos. Para ela, o evento é também um espaço de encontro. “A gente vem ‘pra’ cá, se diverte, vê gente. É muito bom”, resume. A tradição segue na família: ao seu lado está a neta, Yasmin, de sete anos, que participa desde bebê e ‘ajuda’ na banca, que vende produtos como lambari, piava (inteira e cortada) e cascudo.
Outra presença marcante é dona Matilde Piedade, com impressionantes 48 anos de participação. Ela relembra que começou ainda com o filho pequeno e nunca mais deixou a feira. Apesar de perceber uma leve redução no movimento ao longo dos anos, mantém o carinho pelo evento. “Eu acho a mesma coisa de sempre. Gosto de participar”, afirma. Atualmente, adaptou o negócio e passou a vender alimentos prontos, como croquetes e pastéis. Sobre as expectativas, acredita que o movimento deve crescer nos próximos dias. “O segundo dia e a sexta-feira são sempre melhores”, projeta.
Mais recente na feira, dona Eliane, da banca Hortifruti, participa há três anos e aposta no otimismo. “A gente sempre trabalha com pensamento positivo. Faz tudo com carinho pro cliente”, destaca. Além de hortifrutigranjeiros, carro-chefe da banca, o espaço oferece produtos artesanais como pães, queijos, salames e geleias, todos produzidos pela própria família. Fora da feira, o grupo também comercializa aos domingos na praça.
Tradição e renda
A realidade observada nas bancas reflete características apontadas no estudo “Vista do Vivendo do Rio: análise do perfil socioeconômico dos pescadores artesanais em Uruguaiana/RS”, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e publicado em 2024 na revista Contribuiciones a Las Ciencias Sociales. A pesquisa mostra que a pesca artesanal no município é, majoritariamente, uma atividade familiar, transmitida entre gerações e fundamental para a renda de muitas famílias .
O estudo também traça um panorama detalhado das condições de vida desses trabalhadores. Entre os principais pontos, destaca-se que boa parte dos pescadores depende diretamente da pesca como principal fonte de renda, embora muitos precisem complementar os ganhos com outras atividades, especialmente em períodos de menor captura ou restrições ambientais . Esse cenário ajuda a explicar a diversificação observada na feira, com a venda de alimentos prontos, produtos coloniais e itens artesanais.
Outro aspecto relevante apontado pela pesquisa é o baixo nível de escolaridade predominante entre os pescadores, além de desafios no acesso a políticas públicas e serviços, como crédito, assistência técnica e previdência. Ainda assim, a atividade se mantém como elemento central na organização social dessas famílias, com forte vínculo cultural e territorial, especialmente ligado ao Rio Uruguai.
O levantamento também reforça a importância de espaços como a Feira do Peixe para a sustentabilidade econômica da categoria. A comercialização direta com o consumidor final permite maior autonomia, melhor margem de lucro e fortalecimento dos laços comunitários, reduzindo a dependência de intermediários.
Nesse contexto, a feira não apenas movimenta a economia local durante a Semana Santa, mas também se consolida como um espaço estratégico de visibilidade e valorização da pesca artesanal, uma atividade que, apesar dos desafios, segue sendo essencial para a identidade e o sustento de muitas famílias em Uruguaiana.
A feira segue durante esta quinta-feira, 2/4, das 8h às 20h e na sexta, 3/4, das 8h às 13h.


