A Secretaria Municipal de Saúde de Uruguaiana, em parceria com o Hospital Moinhos de Vento (HMV), de Porto Alegre, vem desenvolvendo duas pesquisas inéditas voltadas à tuberculose pediátrica, com foco na qualificação do diagnóstico e no fortalecimento das estratégias de enfrentamento da doença no município. As iniciativas integram o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) e contam com financiamento do Ministério da Saúde e são conduzidas pelo Laboratório de Fronteira (Lafron).
Os estudos começaram a ser articulados no início de 2025, quando o HMV apresentou à Secretaria propostas voltadas à investigação da doença em crianças, um público historicamente menos contemplado nas políticas e pesquisas sobre tuberculose. A partir disso, Uruguaiana passou a integrar dois projetos distintos, com metodologias e objetivos complementares: o TB-PED e o GXT.

Crédito: Clarisse Amaral/JC
Sintomáticos
O primeiro deles, o TB-PED (Estudo Epidemiológico sobre a Prevalência Nacional de Agentes Respiratórios em Crianças), foi implementado em julho de 2025 e já está concluído. A pesquisa teve como foco a identificação de tuberculose ativa em crianças com sintomas respiratórios persistentes – sintomáticas- especialmente aquelas atendidas na Policlínica Infantil. O estudo abrangeu pacientes de 6 meses a 15 anos e buscou investigar casos sintomáticos, ou seja, crianças que apresentavam sinais clínicos sugestivos da doença.
A coordenadora do Laboratório de Fronteira (Lafron), Silvia Muller, diz que a proposta foi qualificar o olhar dos profissionais de saúde para esse público, historicamente subdiagnosticado. “A gente procurava sintomatologia em crianças de até 15 anos e agora busca estruturar um fluxo interno para continuar essa investigação no município”, explica.
Ao todo, 25 crianças de Uruguaiana foram incluídas no TB-PED. Durante o estudo, os pacientes tiveram acesso a exames considerados mais sensíveis do que os disponíveis rotineiramente na rede municipal, como testes de biologia molecular mais avançados e cultura de micobactérias em meio líquido, realizados em centros de referência, como o Hospital de Clínicas. Apesar de o município já contar com diagnóstico de alta qualidade, a pesquisa permitiu ampliar ainda mais a precisão das análises.
Embora o estudo já tenha sido encerrado, após atingir o número de amostras previsto nacionalmente, os resultados consolidados ainda estão em fase de análise. Os dados individuais, no entanto, já foram incorporados aos prontuários dos pacientes, contribuindo diretamente para o acompanhamento clínico.
Assintomáticas
O segundo projeto, o GXT, segue em andamento e traz uma abordagem diferente. Trata-se de um estudo internacional que investiga crianças assintomáticas -ou seja, que não apresentam sintomas- mas que tiveram contato próximo com pacientes diagnosticados com tuberculose pulmonar. A pesquisa é conduzida em parceria com a McGill University, do Canadá, com articulação no Brasil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Iniciado no final de 2025, o GXT tem como objetivo comparar três diferentes estratégias de investigação de contatos: o teste tuberculínico (PPD/Mantoux), a radiografia de tórax e o exame molecular GeneXpert. A escolha do método é feita de forma randomizada, por meio de um sistema que define qual protocolo será aplicado a cada criança incluída no estudo.
Segundo Miller, a lógica da pesquisa é entender qual dessas abordagens é mais eficaz e adequada para o diagnóstico em crianças, levando em consideração fatores como tempo de resposta, aceitação do paciente e sensibilidade dos exames. “São três protocolos e a gente sorteia qual será aplicado. Depois, ao final do estudo, será possível avaliar qual estratégia é mais eficiente para essa população”, detalha.
As crianças participantes são acompanhadas por até três meses, período em que passam por avaliações contínuas para identificar se houve infecção pelo bacilo da tuberculose. Em casos necessários, o acompanhamento pode resultar em tratamento preventivo, mesmo na ausência de sintomas.
Atualmente, cerca de 40 crianças estão sendo acompanhadas nos dois estudos em Uruguaiana. A inclusão dos participantes ocorre conforme a identificação de casos que atendam aos critérios das pesquisas, sempre com autorização dos responsáveis legais.
Um dos principais desafios apontados pela equipe de saúde está justamente na adesão ao estudo entre pacientes assintomáticos. De acordo com a enfermeira do Serviço de Assistência Especializada (SAE) e do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), Silvia Madeira, ainda há resistência por parte das famílias em aceitar a investigação e o possível tratamento preventivo. “Muitas vezes as pessoas não entendem por que tratar uma criança que não está doente. Mas é justamente para evitar que ela desenvolva a doença no futuro”, ressalta.
A coordenadora do Lafron complementa que a tuberculose pode permanecer latente no organismo e se manifestar anos depois. “Cerca de 10% das pessoas que entram em contato com o bacilo podem adoecer, muitas vezes até cinco anos depois. Se a gente não interromper essa cadeia, o ciclo de transmissão continua”, afirma.
Nesse sentido, o estudo GXT reforça uma estratégia considerada essencial pela Organização Mundial da Saúde (OMS): atuar não apenas nos casos ativos da doença, mas também na prevenção, identificando e acompanhando contatos próximos antes que desenvolvam sintomas.
Além dos resultados científicos, a participação nas pesquisas já traz impactos práticos para o município. Entre eles estão a capacitação de profissionais, o fortalecimento da vigilância em saúde e a criação de novos fluxos e protocolos de atendimento, especialmente voltados à população infantil.
A expectativa é que ambos os estudos sejam concluídos até julho de 2026. Após esse período, o conhecimento adquirido deverá ser incorporado de forma permanente às práticas da rede municipal de saúde, contribuindo para um enfrentamento mais qualificado da tuberculose em Uruguaiana.

crédito: Clarisse Amaral/JC
Cenário epidemiológico
No Brasil, a tuberculose ainda representa um importante desafio de saúde pública, com maior incidência entre a população adulta. Entre crianças e adolescentes, os casos são proporcionalmente menores, mas considerados subnotificados, justamente pela dificuldade de diagnóstico e pela menor investigação nessa faixa etária. No Rio Grande do Sul, o cenário segue a mesma tendência: embora a incidência em crianças seja mais baixa em comparação aos adultos, especialistas alertam que isso não significa ausência da doença, mas sim a necessidade de ampliar o olhar e as estratégias de detecção precoce nesse público.
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu como meta global a eliminação da tuberculose como problema de saúde pública até 2030, por meio da estratégia End TB. Entre os principais objetivos estão a redução drástica no número de casos e mortes, além da ampliação do diagnóstico precoce e do tratamento, incluindo ações preventivas em pessoas que tiveram contato com o bacilo. Nesse contexto, iniciativas como as desenvolvidas em Uruguaiana reforçam a importância de atuar não apenas nos casos sintomáticos, mas também na prevenção, especialmente entre crianças, contribuindo para interromper a cadeia de transmissão da doença.

