Uruguaiana participa de encontro sobre combate ao HIV
Maria Aparecida Bofill é coordenadora do setor de IST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde Foto: Clarisse Amaral/JC

O município de Uruguaiana esteve representado em um importante encontro estadual voltado ao enfrentamento do HIV. A “Oficina das diretrizes para a eliminação da Aids e da transmissão do HIV como problema de saúde pública no Brasil” foi realizada em Porto Alegre, nos dias 17 e 18, reunindo profissionais e gestores de diversas cidades gaúchas. A participação uruguaianense ocorreu por meio da psicóloga Maria Aparecida Bofill, coordenadora do setor de IST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde.

Promovido pelo Ministério da Saúde, o encontro teve como foco a construção conjunta de estratégias e metas para o enfrentamento do HIV, com ênfase na redução das desigualdades, no fortalecimento das ações de prevenção e na ampliação do acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao CIDADE, Maria Aparecida destacou a relevância do encontro para alinhar ações entre municípios, estado e governo federal. Segundo ela, a oficina integra uma série de encontros realizados em todo o país e teve como objetivo ouvir as realidades locais. “Foi um momento muito importante de escuta e de construção coletiva. O Rio Grande do Sul tem um cenário que preocupa em nível nacional, com índices elevados de incidência e mortalidade, por isso esse olhar mais atento do Ministério da Saúde”, explicou.

A coordenadora ressaltou que o principal objetivo das discussões foi alinhar estratégias até 2030, buscando reduzir indicadores e avançar na eliminação do HIV como problema de saúde pública. Entre as metas, está a chamada estratégia 95-95-95: diagnosticar 95% das pessoas que vivem com HIV, garantir que 95% dessas estejam em tratamento e que 95% alcancem carga viral indetectável, reduzindo a transmissão.

Em Uruguaiana, os dados mais recentes indicam oscilações no número de novos casos de HIV ao longo dos últimos anos. Em 2021, foram registrados 48 casos, número que caiu para 44 em 2022 e 37 em 2023. Já em 2024 houve um aumento, com 57 novos diagnósticos, seguido de uma nova redução em 2025, quando foram contabilizados 31 casos. Os dados refletem tanto os avanços nas estratégias de prevenção e tratamento quanto os desafios ainda existentes, especialmente relacionados à ampliação da testagem e ao diagnóstico precoce, fatores essenciais para o controle da transmissão do vírus.

Maria Aparecida também chamou atenção para a importância da testagem como principal porta de entrada para o cuidado. Em Uruguaiana, segundo ela, o diagnóstico é rápido e acessível, podendo ser realizado em menos de uma hora na rede pública. Apesar disso, um dos principais desafios ainda é ampliar o número de pessoas testadas. “Se a gente não testa, não identifica os casos. E quando o diagnóstico é tardio, aumenta o risco de agravamento e de mortalidade”, alertou.

De acordo com a coordenadora, o município apresentou avanços importantes nos últimos anos, saindo de posições críticas no ranking nacional de incidência para uma colocação mais baixa. No entanto, ainda há preocupação com a mortalidade, que permanece acima da média estadual e nacional, muitas vezes associada a diagnósticos tardios.

Outro ponto que preocupa são os desafios enfrentados nas campanhas de conscientização. De acordo com Maria Aparecida, ainda existe uma barreira cultural que dificulta o acesso da população aos serviços, especialmente em relação à testagem. “Há vergonha, preconceito e até a falsa ideia de que o HIV atinge apenas determinados grupos. Hoje a epidemia é generalizada, precisamos falar com toda a população”, destacou.

Conscientização dos jovens

A coordenadora também destacou o comportamento das populações mais jovens, que não vivenciaram os períodos mais críticos da epidemia e, por isso, muitas vezes não percebem os riscos. “Os jovens convivem com o HIV como uma doença crônica tratável, e isso pode diminuir a percepção de risco. Por isso, é fundamental investir em informação, educação e prevenção desde cedo”, explicou.

Entre as estratégias, a coordenadora reforçou a importância da prevenção combinada, que inclui o uso de preservativos, testagem regular e métodos como a profilaxia pré e pós-exposição (PrEP e PEP). No entanto, ela alerta que ainda há desigualdade no acesso à informação. “A gente percebe que a PrEP, por exemplo, ainda chega mais a um público com maior nível de informação. Precisamos ampliar esse acesso para populações mais vulneráveis”, pontuou.

A importância da testagem

Outro desafio destacado é a redução no número de testagens após a pandemia. Em 2025, cerca de 15 mil pessoas foram testadas no município, número considerado baixo diante da população total. “Nossa maior preocupação hoje é justamente o número de testagens. Isso impacta diretamente no diagnóstico precoce e na redução de óbitos”, reforçou.

Por fim, Maria Aparecida destacou a importância do trabalho integrado entre saúde, educação e assistência social para enfrentar o problema de forma mais ampla. Segundo ela, ações em escolas, campanhas educativas e o fortalecimento da rede de atendimento são fundamentais para mudar o cenário atual. “Qualquer pessoa pode acessar o tratamento e os testes nas unidades de saúde, basta estar com seu documento com foto e o cartão Sus”, completa.

O encontro evidenciou a importância da cooperação entre diferentes esferas de governo e setores da saúde, reunindo representantes da sociedade civil, da coordenação estadual de IST/Aids e de municípios prioritários, além de profissionais da Atenção Primária e Especializada. A expectativa é que, a partir dessas discussões, sejam fortalecidas as estratégias para o enfrentamento do HIV no estado e no país.

Avanço da Sífilis

Outro ponto destacado por Maria Aparecida foi a preocupação com o avanço de outras infecções sexualmente transmissíveis, especialmente a sífilis. Segundo ela, o número de casos segue elevado e exige atenção constante das equipes de saúde. “Todos os dias temos diagnósticos positivos de sífilis nas unidades. É uma doença que tem tratamento e cura, mas ainda enfrentamos dificuldades na adesão ao tratamento e na continuidade do cuidado”, afirmou. A coordenadora também ressaltou a necessidade de ampliar o diagnóstico e garantir que os pacientes completem o tratamento, evitando a transmissão.

O avanço da sífilis no Brasil tem sido consistente na última década e preocupa autoridades de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, o país registrou crescimento contínuo dos casos desde 2010, alcançando mais de 1,5 milhão de notificações de sífilis adquirida no período, com taxa de detecção que chegou a 113,8 casos por 100 mil habitantes em 2023, a maior já registrada. No mesmo cenário, os casos em gestantes e de sífilis congênita também permanecem elevados, evidenciando falhas no diagnóstico precoce e no tratamento adequado.

No Rio Grande do Sul, a situação é ainda mais crítica: o estado apresenta taxas superiores à média nacional, com índices que ultrapassam 150 casos por 100 mil habitantes em alguns levantamentos recentes realizados pela Secretaria de Saúde do Estado, além de alta incidência entre gestantes, o que amplia o risco de transmissão vertical. Especialistas apontam que, apesar de ser uma infecção com diagnóstico simples e tratamento eficaz, a sífilis ainda enfrenta desafios como baixa adesão ao tratamento, diagnóstico tardio e dificuldades na ampliação da testagem, fatores que contribuem para a manutenção dos altos índices no país e no estado.

Em Uruguaiana, os dados dos últimos quatro anos apontam um cenário preocupante em relação à sífilis, com variações e, em alguns casos, crescimento nos indicadores. Em 2021, foram registrados 291 casos de sífilis adquirida, 71 em gestantes e 36 casos congênitos. Já em 2022, houve redução nos casos adquiridos, com 218 registros, além de 63 em gestantes e 50 congênitos. Em 2023, os casos adquiridos continuaram em queda, chegando a 183, porém houve aumento significativo entre gestantes (101) e casos congênitos (52). Em 2024, os números voltaram a subir, com 250 casos adquiridos, 123 em gestantes e 70 congênitos, evidenciando o avanço da doença, especialmente na transmissão vertical.