O Brasil voltou a registrar crescimento nos casos de feminicídio e atingiu um novo recorde no primeiro trimestre de 2026. Conforme dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, 399 mulheres foram vítimas do crime entre janeiro e março deste ano, contra 371 no mesmo período de 2025, um aumento de 7,5%.
Os números representam uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em situações relacionadas à violência doméstica, familiar ou motivadas por discriminação de gênero. O levantamento também aponta que este é o maior índice já registrado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica, há 11 anos.
Ao longo da última década, os dados vêm apresentando crescimento gradual. Em 2016, foram registrados 217 feminicídios nos três primeiros meses do ano. Desde então, os números oscilaram, mas seguiram em patamar elevado, chegando agora ao maior índice já contabilizado: 399 casos em 2026.
Entre os estados, São Paulo lidera em números absolutos, com 86 vítimas, seguido por Minas Gerais, com 42, Paraná, com 33, e Bahia, com 25. O Rio Grande do Sul aparece na quinta posição nacional, com 24 feminicídios registrados no período. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, na maioria dos casos, o agressor tinha vínculo direto com a vítima: 59,4% das mulheres foram assassinadas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-companheiro.
Feminicídio não é um fato isolado
Em entrevista ao CIDADE, a coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) de Uruguaiana, Juliana Tietböhl, analisou os dados nacionais e destacou que o feminicídio deve ser compreendido como o resultado extremo de um ciclo contínuo de violência. “A primeira leitura é de que o feminicídio não pode ser analisado como um fato isolado, mas como o resultado extremo de um ciclo contínuo de violências estruturais contra as mulheres. Quando o Brasil registra uma média de quatro feminicídios por dia, isso demonstra uma grave violação de direitos humanos e evidencia falhas históricas na prevenção, proteção e responsabilização dos agressores”, afirmou.
Segundo ela, embora Uruguaiana não tenha registrado feminicídios consumados até o momento em 2026, a violência doméstica segue sendo uma realidade recorrente no município. “Embora o município não registre, até o presente momento casos de feminicídio consumado, isso não significa ausência de violência contra a mulher. Pelo contrário, ainda existem muitos casos de violência doméstica, ameaças, violência psicológica, lesões corporais e situações de alto risco que demandam atenção constante da rede de proteção”, destacou.
Juliana ressaltou que o fortalecimento da atuação integrada entre segurança pública, assistência social, saúde, educação e Judiciário é fundamental para impedir que os casos avancem para situações fatais.
Conforme a coordenadora, o Cram percebe aumento na busca por atendimento nos últimos anos, além de mudanças no perfil das mulheres que procuram ajuda. “O Cram percebe, sim, um aumento na procura pelos atendimentos e também mudanças importantes no perfil das mulheres que buscam ajuda nos últimos anos. Hoje, observa-se que muitas mulheres estão chegando ao Cram em situação de sofrimento emocional intenso, ansiedade, medo constante e isolamento social”, relatou.
Ela explica que mais mulheres têm conseguido identificar comportamentos abusivos ainda no início do ciclo da violência, antes mesmo de agressões físicas graves acontecerem. “Muitas mulheres hoje conseguem identificar comportamentos abusivos que anteriormente eram naturalizados dentro das relações”, pontuou.
A coordenadora também destacou que a violência doméstica atinge mulheres de diferentes idades, classes sociais e níveis de escolaridade. “Não existe uma única realidade: são mulheres jovens, idosas, com independência financeira ou sem renda própria, mães, profissionais, estudantes e mulheres em extrema vulnerabilidade social. A violência doméstica atravessa todas as classes sociais”, afirmou.
Sinais mais frequentes
Entre os principais sinais observados nos atendimentos realizados pelo Cram estão o controle excessivo da rotina da mulher, ciúme possessivo, isolamento social, monitoramento do celular e das redes sociais, ameaças e violência psicológica. “A maioria das mulheres relatam que, antes da violência física, já viviam situações contínuas de violência psicológica e moral”, explicou Juliana.
Segundo ela, o período de separação ainda é considerado um dos momentos de maior risco dentro do ciclo da violência doméstica. “Na prática dos atendimentos realizados pelo Cram em Uruguaiana, é bastante recorrente que as ameaças, perseguições e comportamentos de controle se intensifiquem justamente quando a mulher decide denunciar, solicitar medida protetiva ou encerrar o relacionamento”, relatou.
Ela ainda reforçou que muitos agressores têm dificuldade em aceitar a autonomia feminina. “Em alguns casos, o agressor interpreta a autonomia feminina como perda de controle e poder, intensificando comportamentos possessivos, ameaças e perseguições”, disse.
Juliana também comentou sobre um dos questionamentos mais recorrentes feitos pela sociedade em casos de violência doméstica. “Muitas vezes a sociedade pergunta ‘por que ela não saiu antes?’, mas essa pergunta desconsidera toda a complexidade envolvida na violência doméstica”, afirmou.
Segundo ela, medo, dependência emocional, dependência financeira e manipulação psicológica fazem parte do contexto vivido por muitas vítimas. “A violência doméstica raramente começa com agressões graves. Normalmente ela se inicia de forma silenciosa, com controle, ciúme excessivo, humilhações, ameaças e afastamento da rede de apoio”, observou.
Para a coordenadora, o enfrentamento à violência contra a mulher depende não apenas da denúncia, mas também do acolhimento e suporte contínuo. “A pergunta não deveria ser ‘por que ela não saiu antes?’, mas sim ‘o que precisamos fazer, enquanto sociedade e rede de proteção, para que essa mulher consiga sair com segurança?’”, enfatizou.
Fonar
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul lançou na segunda-feira, 11/5, uma nova ferramenta de avaliação de risco para casos de violência doméstica. O Formulário Nacional de Avaliação de Risco (Fonar) passa a contar com integração de inteligência artificial dentro do Sistema de Polícia Judiciária (SPJ).
A ferramenta reúne informações sobre fatores de risco relacionados à violência doméstica e familiar, auxiliando no encaminhamento de medidas protetivas e demais ações preventivas.
Para Juliana, o uso da tecnologia pode representar um avanço importante na identificação precoce de mulheres em situação de risco. “Sim. A utilização do Fonar com inteligência artificial pode representar um avanço importante na forma como o Estado identifica mulheres em situação de risco, especialmente porque permite maior agilidade e precisão na análise dos sinais de violência doméstica”, avaliou.
Ela explica que a inteligência artificial poderá auxiliar na identificação de padrões frequentemente observados antes de casos graves. “Na prática, isso pode ajudar o Estado a perceber com maior antecedência sinais que muitas vezes aparecem de forma fragmentada nos atendimentos, como ameaças recorrentes, perseguição após separação, descumprimento de medidas protetivas, histórico de agressões anteriores, controle excessivo e escalada da violência psicológica”, disse.
Apesar disso, Juliana ressalta que a tecnologia não substitui o atendimento humanizado realizado pela rede de proteção. “A inteligência artificial deve funcionar como ferramenta de apoio técnico para fortalecer a atuação dos profissionais, mas o acolhimento, a escuta qualificada e a análise individualizada de cada caso continuam sendo indispensáveis”, concluiu.

