O medo da violência tem provocado mudanças na rotina de milhares de mulheres brasileiras. É o que mostra a pesquisa “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, divulgada no início de maio pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Instituto Datafolha. O estudo aponta que 41% das mulheres deixaram de sair à noite nos últimos 12 meses por receio de sofrer algum tipo de violência.
A pesquisa foi realizada entre os dias 9 e 10 de março de 2026, com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 137 municípios brasileiros, incluindo cidades do interior e regiões metropolitanas. O levantamento possui margem de erro de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Entre os principais medos relatados pelas mulheres está o de sofrer golpes financeiros pela internet ou celular, mencionado por 87% das entrevistadas. O mesmo percentual aparece para o temor de ser vítima de roubo à mão armada. Em seguida, aparece o medo de morrer durante um assalto e de ter o celular furtado ou roubado, ambos citados por mais de 80% das participantes.
O levantamento também evidencia o impacto da violência na ocupação dos espaços públicos. Cerca de 57% das mulheres afirmaram sentir medo de caminhar pelo próprio bairro após o anoitecer. Entre os homens, esse índice cai para 37,7%, demonstrando uma diferença significativa na percepção de segurança.
Medo constante
Outro dado que chama atenção é o receio relacionado à violência sexual. Enquanto 48,6% dos homens disseram temer sofrer agressão sexual, entre as mulheres o índice salta para 82,6%, tornando-se uma das maiores preocupações apontadas na pesquisa. O relatório relaciona esse cenário ao fato de que as mulheres representam 87,7% das vítimas de estupro registradas no país.
Além da limitação na circulação, a insegurança também altera comportamentos cotidianos. Segundo a pesquisa, 38% das mulheres mudaram trajetos habituais por medo da violência e o mesmo percentual afirmou evitar sair com o celular na rua para não ser alvo de assaltos. Outras 28% disseram ter deixado de usar alianças ou acessórios pessoais em espaços públicos, enquanto 22% afirmaram desistir de comprar determinados bens por receio de roubos ou furtos.
A pesquisa ainda mostra que o sentimento de vulnerabilidade vai além das ruas e alcança o ambiente doméstico. Quase metade das mulheres entrevistadas, 48,6%, afirmou ter medo de sofrer agressões físicas praticadas por maridos, companheiros ou ex-parceiros.
De acordo com o relatório, o medo da criminalidade no Brasil se tornou um “clima social persistente”, porém atinge as mulheres de forma mais intensa e abrangente. O estudo aponta que, além da preocupação com crimes patrimoniais e violência urbana, elas acumulam receios relacionados à violência sexual e doméstica, afetando diretamente a liberdade, a rotina e a sensação de segurança.
Denuncie!
Casos de violência contra a mulher podem, e devem, ser denunciados por qualquer pessoa. Familiares, vizinhos, amigos, colegas de trabalho ou até desconhecidos que percebam sinais de agressão, ameaças, perseguições, controle excessivo, gritos frequentes ou situações suspeitas dentro de casa ou em espaços públicos podem acionar os órgãos responsáveis. A denúncia é considerada uma ferramenta essencial para interromper ciclos de violência e proteger vítimas em situação de risco.
Em nível nacional, o principal canal é o Ligue 180, serviço gratuito e disponível 24 horas por dia para denúncias, orientações e encaminhamentos relacionados à violência contra a mulher. Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Brigada Militar pelo telefone 190.
As vítimas também podem procurar as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (Deam), além das salas das Margaridas e demais redes de proteção municipais. O estado conta ainda com o serviço da Delegacia Online da Mulher, que permite registrar ocorrências pela internet em casos como ameaça, injúria, perseguição, violência psicológica e descumprimento de medida protetiva.
Além das agressões físicas, comportamentos como isolamento da vítima, controle financeiro, ameaças, humilhações constantes e violência psicológica também precisam ser observados e denunciados.


