Apesar da queda geral nas mortes violentas registrada nos últimos anos no país, os avanços não têm alcançado homens e mulheres da mesma forma. Um levantamento divulgado na quinta edição do estudo Pela Vida das Mulheres: o Papel da Arma de Fogo na Violência de Gênero, elaborado pelo Instituto Sou da Paz, indica que a redução nos homicídios foi significativamente menor entre vítimas do sexo feminino, e que as armas de fogo continuam sendo o instrumento mais frequente nas mortes de mulheres.
De acordo com a pesquisa, em 2024 quase metade dos homicídios femininos foi cometida com armas de fogo. O dado confirma que esse tipo de armamento permanece como o principal meio utilizado nas mortes violentas contra mulheres no país.
Entre 2020 e 2024, os assassinatos de homens apresentaram redução de 15%. No caso das mulheres, a queda foi bem mais discreta: apenas 5% no mesmo período. Quando analisados apenas os homicídios femininos cometidos com arma de fogo, a diminuição foi de 12%, ainda insuficiente para alterar o papel central desse tipo de arma na dinâmica da violência letal contra mulheres.
Os dados revelam que, mesmo com a redução geral das mortes violentas, o impacto positivo das políticas de segurança pública não tem ocorrido de forma igual entre os gêneros.
Feminicídios aumentam
Enquanto os homicídios totais apresentam tendência de queda, os casos classificados como feminicídio seguiram trajetória oposta. O levantamento aponta crescimento de cerca de 10% nesse tipo de crime no período analisado.
O aumento reforça a preocupação de especialistas com a persistência da violência de gênero no Brasil e evidencia a necessidade de ampliar medidas de proteção às mulheres, além de fortalecer respostas institucionais da segurança pública e do sistema de justiça.
Armas ampliam risco de morte
Outro ponto destacado pela pesquisa é a diferença entre ocorrências violentas letais e não letais envolvendo mulheres. Enquanto 47% dos homicídios foram cometidos com armas de fogo, esse tipo de armamento aparece em apenas 1,3% das agressões que não resultaram em morte.
A discrepância demonstra o aumento significativo da gravidade quando uma arma está disponível ao agressor.
Jovens concentram maior risco de morte
A distribuição das mortes também varia de acordo com a idade das vítimas. O maior percentual de homicídios femininos cometidos com arma de fogo ocorre entre jovens de 18 a 24 anos, faixa etária que concentra cerca de 22% dessas mortes.
Após esse pico, os índices diminuem gradualmente nas faixas seguintes, mas permanecem relativamente elevados até o início dos 40 anos. Já os feminicídios apresentam um comportamento diferente: a incidência se mantém mais distribuída entre mulheres adultas, com destaque para o grupo de 35 a 39 anos. Entre crianças e idosas, as mortes por outros meios aparecem com maior frequência do que aquelas provocadas por armas de fogo.
Desigualdades raciais e regionais
O estudo também aponta disparidades relevantes quando se considera a raça e localização geográfica. No conjunto do país, a taxa de homicídios de mulheres negras por arma de fogo é mais que o dobro da observada entre mulheres não negras.
As diferenças ficam ainda mais evidentes em algumas regiões. No Nordeste, por exemplo, a taxa de mortes de mulheres negras por arma de fogo é quatro vezes maior que a registrada para mulheres não negras.
O Sudeste apresenta as menores taxas de homicídios femininos com arma de fogo entre todas as regiões, enquanto o Sul registra índices mais equilibrados entre mulheres negras e não negras.
Estados com maior proporção
Quando analisada a participação das armas de fogo no total de homicídios femininos, alguns estados apresentam proporções bastante elevadas. No Ceará, quase oito em cada dez assassinatos de mulheres ocorreram com esse tipo de arma em 2024, a maior proporção do país. No outro extremo, o Acre registra o menor índice nacional.
O Rio Grande do Sul chama atenção. Mais da metade dos homicídios de mulheres registrados no estado, cerca de 55%, envolveu armas de fogo, percentual muito superior ao observado em Santa Catarina e no Paraná.
O dado coloca o estado em um patamar de letalidade mais próximo de unidades federativas do Norte e do Nordeste do que de seus vizinhos da região Sul, reforçando a relevância do debate sobre controle de armas e proteção às mulheres no cenário local.

