O Brasil enfrenta um cenário alarmante quando o assunto é violência contra a mulher. Dados recentes do Ministério da Justiça revelam que, em 2025, três em cada dez vítimas de feminicídio já haviam procurado ajuda formal antes de serem mortas, um indicativo de que, muitas vezes, os sinais de risco são conhecidos, mas nem sempre interrompidos a tempo.
No mesmo período, o país registrou 1.561 casos de feminicídio, o maior número da última década. A média é de quatro mulheres assassinadas por dia, superando os índices do ano anterior. Entre aquelas que chegaram a denunciar seus agressores, uma parcela significativa acabou morta em um intervalo de até dois anos após o primeiro registro, evidenciando falhas na continuidade da proteção.
Das vítimas que haviam registrado ocorrência, cerca de 30% já tinham denunciado o autor anteriormente. Dentro desse grupo, aproximadamente 20% foram assassinadas em até 24 meses após o primeiro boletim. Os dados, no entanto, não detalharam quantas dessas mulheres chegaram a ter acesso a medidas protetivas.
O perfil das vítimas também ajuda a compreender o cenário. Mulheres pardas representam a maior parte dos casos, seguidas por mulheres brancas. Em relação à idade, a faixa entre 25 e 34 anos concentra o maior número de vítimas, seguida pelo grupo de 35 a 44 anos.
Os dados mostram ainda que a casa da vítima é o local mais frequente dos crimes, seguida por ocorrências em vias públicas. Entre os meios utilizados, predominam armas brancas, enquanto armas de fogo aparecem em menor proporção.
Na maioria das situações, o agressor é alguém próximo. Companheiros e ex-companheiros aparecem entre os principais autores, reforçando o caráter doméstico e relacional da violência. O levantamento também aponta que os domingos concentram o maior número de ocorrências, enquanto o mês de dezembro registra o pico anual.
A coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) de Uruguaiana, Juliana Tietböhl, avalia que os dados revelam uma realidade já conhecida pelos profissionais da área. “O dado de que três em cada dez vítimas de feminicídio já haviam registrado ocorrência escancara uma realidade dura: a violência avisa, e, muitas vezes, não conseguimos interrompê-la a tempo. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma escalada que precisa ser identificada e enfrentada com urgência e articulação”, afirma.
Ela explica que casos com múltiplos registros exigem atenção redobrada. “Quando identificamos uma mulher em situação de violência reiterada, com registros sucessivos, isso acende um alerta máximo. Intensificamos o acompanhamento, avaliamos o risco de forma contínua e atuamos de maneira integrada com a rede para tentar interromper esse ciclo. Cada novo boletim é um sinal de agravamento que precisa ser levado extremamente a sério”, destaca.
Apesar da gravidade, Juliana reforça a importância da denúncia. “Denunciar salva vidas. Quando a mulher registra ocorrência, ela passa a existir para o sistema de proteção. Ela entra no radar da rede, possibilitando o acionamento de medidas protetivas, o encaminhamento para serviços especializados e o acompanhamento mais próximo. Sem essa formalização, a violência muitas vezes permanece invisível, e, portanto, ainda mais perigosa”, pontua.
Ela também chama atenção para a necessidade de respostas mais eficazes. “O que os dados mostram é que não basta a denúncia existir, ela precisa ser acompanhada de uma resposta rápida, eficaz e integrada. A proteção não pode falhar na sequência do atendimento. Ainda enfrentamos no país desafios na conexão entre os órgãos, especialmente na comunicação e no monitoramento do agressor”, observa.
Em Uruguaiana, o enfrentamento à violência contra a mulher envolve uma rede articulada de instituições que atuam de forma contínua. A cidade conta com a Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica (Revid), composta por diferentes órgãos da segurança pública, justiça e assistência social, que trabalham de forma integrada para dar respostas mais rápidas e coordenadas.
Segundo a coordenadora, esse trabalho conjunto é essencial. “Esse trabalho integrado é fundamental para reduzir riscos e salvar vidas. Hoje, quando a mulher registra ocorrência, ela já é orientada sobre os serviços do Cram. No entanto, o vínculo com o atendimento ainda depende, em grande parte, da adesão dela. Seguimos trabalhando para fortalecer essa ponte e garantir que nenhuma mulher enfrente essa situação sozinha”, afirma.
Ela finaliza com um alerta direto: “A violência deixa sinais, e cada pedido de ajuda precisa ser tratado como prioridade absoluta. Interromper esse ciclo é uma responsabilidade coletiva, e o tempo de resposta pode significar a diferença entre a vida e a perda irreparável.”
Mulher Segura
O sistema Mulher Segura é uma iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública voltada ao fortalecimento da prevenção da violência doméstica e do feminicídio no Brasil. A ferramenta integra diferentes bases de dados nacionais, permitindo identificar padrões, fatores de risco e situações de maior vulnerabilidade.


