Uma operação coordenada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) revelou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas, que utilizava a comercialização fictícia de bovinos para ocultar recursos ilícitos. A ofensiva, denominada Operação Boi Fantasma, foi deflagrada nesta terça-feira, 9/6, e teve desdobramentos em Uruguaiana, incluindo o cumprimento de mandados na Penitenciária Modulada Estadual.
A ação foi conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio da Brigada Militar e da Polícia Penal, e integra a terceira fase da Operação Convergência Nacional RS. O objetivo foi desmontar uma estrutura criminosa que simulava atividades agropecuárias para dar aparência legal a valores provenientes do tráfico de drogas.
Conforme informações obtidas pelo CIDADE junto ao Ministério Público, houve o cumprimento de mandados de busca e prisão na Modulada de Uruguaiana. Segundo o órgão, o principal investigado, apontado como líder da organização, estava recolhido na unidade prisional e deverá ser transferido para o módulo de segurança máxima da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC).
Investigação durou dez meses
As apurações começaram após relatórios técnicos produzidos pela Brigada Militar indicarem movimentações financeiras incompatíveis com a atividade rural declarada pelos envolvidos. A partir dessas informações, equipes de investigação passaram a monitorar propriedades rurais localizadas em Alegrete, utilizando inclusive drones para verificar a existência dos rebanhos registrados em documentos oficiais.
Durante o trabalho, os investigadores constataram que, apesar da emissão de notas fiscais e Guias de Trânsito Animal (GTAs), não havia qualquer criação de gado nas áreas utilizadas pelo grupo. A descoberta levou à identificação do chamado “boi fantasma”, expressão utilizada para definir animais que existiam apenas nos registros documentais.
Segundo o Ministério Público, a organização criminosa teria utilizado duas propriedades rurais arrendadas para simular operações de compra e venda de bovinos inexistentes. Para viabilizar o esquema, eram empregados terceiros e familiares que atuavam na emissão de documentos, movimentação financeira e ocultação de patrimônio.
Movimentação milionária
A investigação aponta que a rede criminosa movimentou aproximadamente R$100 milhões por meio de uma complexa cadeia de transações financeiras. Apenas cinco integrantes do núcleo central do esquema teriam movimentado cerca de R$24,8 milhões nos últimos dois anos.
Ainda de acordo com o MPRS, parte dos recursos era direcionada para plataformas de apostas e outras operações financeiras, mecanismo utilizado para dificultar o rastreamento da origem ilícita dos valores.
As análises também identificaram indícios de falsidade ideológica, negociações simuladas entre integrantes do grupo e movimentações bancárias incompatíveis com os rendimentos declarados pelos investigados.
Demais cidades
A ofensiva resultou no cumprimento de oito mandados de prisão preventiva e 35 mandados de busca e apreensão em municípios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, além de ações em três estabelecimentos prisionais gaúchos.
Até a tarde desta terça-feira, nove pessoas haviam sido presas, uma delas em flagrante. Também foram apreendidos 46 celulares, notebooks e outros equipamentos eletrônicos, duas armas de fogo, dois veículos e aproximadamente R$37 mil em dinheiro.
A Justiça ainda determinou o bloqueio de R$100,7 milhões em ativos financeiros, além do sequestro de 15 veículos e de um imóvel ligados aos investigados.
O Ministério Público informou que a contabilização total dos recursos movimentados pela organização ainda está em andamento e que as investigações prosseguem para identificar a extensão da rede criminosa e o destino final dos valores.


