Uruguaiana integra o grupo de cerca de dez cidades gaúchas que participam da Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas (IB-BioNeuro), um estudo que tem como objetivo analisar exames de sangue que podem auxiliar no diagnóstico e no monitoramento de doenças neurológicas, como é o caso do Alzheimer. A pesquisa é desenvolvida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com parceria, no município, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Ao todo, o estudo irá avaliar cerca de 3 mil participantes das seguintes cidades: Bento Gonçalves, Lajeado, Osório, Passo Fundo, Pelotas, Porto Alegre, Santa Maria, Santo Ângelo, Uruguaiana e Veranópolis. No município, o coordenador regional da pesquisa é o professor Dr. Vanderlei Folmer, da Unipampa. Já o estudo é conduzido pela biomédica Dra. Kellen Mariane Athaide Rocha, responsável pelo desenvolvimento das atividades de pesquisa nesta localidade.
Em entrevista ao CIDADE, Kellen revelou que o objetivo do estudo é validar os biomarcadores sanguíneos, substâncias identificadas na corrente sanguínea que, dependendo da sua concentração, podem indicar alterações ligadas ao Alzheimer. “As análises serão realizadas com um equipamento de alta sensibilidade chamado Simoa HD-X. Essa tecnologia utiliza um tipo de imunoensaio chamado Single Molecule Array (Simoa), que permite detectar quantidades extremamente pequenas de proteínas no sangue. Isso possibilita identificar biomarcadores relacionados ao Alzheimer de forma muito mais sensível”, explicou a pesquisadora.
O projeto reúne cientistas, universidades, hospitais e Unidades Básicas de Saúde para padronizar métodos de coleta e análise de exames de sangue, além de reunir dados clínicos e biológicos de participantes. A intenção, conforme o Ministério da Saúde, é que, a partir dos resultados da pesquisa, esse novo tipo de análise seja incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e substitua o método Elisa, popularmente utilizado em laboratórios de análise.
Kellen ressalta que a pesquisa visa, sobretudo, aumentar a acessibilidade de mecanismos que auxiliam na identificação da doença. “O diagnóstico ocorre muito mais por aspectos clínicos quando o Alzheimer já está avançado e por técnicas de imagem bastante inacessíveis pelos valores. Então desenvolver esse método não só possibilita facilitar o diagnóstico por meio de uma amostra menos invasiva, como também o diagnóstico precoce da doença. Pois as alterações cerebrais começam a ocorrer pelo menos 15 anos antes do surgimento dos sintomas”.
Como funciona o Simoa HD-X

O Simoa HD-X, é um equipamento de laboratório de alta sensibilidade utilizado em pesquisas biomédicas para detectar proteínas associadas a doenças neurológicas no sangue ou em outros fluidos do corpo. A tecnologia permite encontrar quantidades extremamente pequenas dessas proteínas, conhecidas como biomarcadores, que indicam alterações no cérebro relacionadas à doença.
O equipamento utiliza uma técnica conhecida como Simoa (Single Molecule Array), ou “arranjo de molécula única”. Essa tecnologia foi desenvolvida inicialmente em pesquisas conduzidas na Tufts University, nos Estados Unidos, e posteriormente comercializada pela empresa de biotecnologia Quanterix Corporation, fundada em 2007 no estado de Massachusetts. O primeiro equipamento baseado nessa tecnologia foi lançado em 2014, e a versão mais moderna, o Simoa HD-X, chegou ao mercado em 2019 com melhorias de desempenho e automação para análise de biomarcadores em pesquisas médicas.
Na prática, o funcionamento do exame começa com a coleta de uma pequena amostra de sangue ou de outro fluido biológico. Essa amostra é analisada para identificar proteínas relacionadas ao Alzheimer, como fragmentos da proteína beta-amiloide ou diferentes formas da proteína tau. Essas moléculas são importantes porque podem refletir processos de degeneração das células nervosas no cérebro, muitas vezes antes mesmo de surgirem os primeiros sintomas clínicos da doença.
Para encontrar essas proteínas, o sistema utiliza microesferas magnéticas revestidas com anticorpos específicos que “capturam” os biomarcadores presentes na amostra. Cada microesfera é então isolada em milhares de micropoços microscópicos, onde ocorre uma reação química que produz um sinal fluorescente caso a proteína esteja presente. Como cada poço pode conter apenas uma molécula, o equipamento consegue identificar a presença de biomarcadores individuais e contabilizar quantas moléculas existem na amostra.
Esse método digital permite detectar proteínas em concentrações extremamente baixas – cerca de mil vezes menores do que aquelas identificadas pelos métodos tradicionais de laboratório. Isso acontece porque o sistema consegue isolar e analisar moléculas individualmente, algo que não era possível em tecnologias anteriores. Esse avanço tornou possível medir biomarcadores em níveis tão pequenos que muitas vezes passam despercebidos em exames convencionais.
Método Tradicional
O método mais tradicional utilizado em laboratórios para esse tipo de análise é o Elisa (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay), que também utiliza anticorpos para identificar proteínas específicas. No entanto, nesse teste o sinal detectado representa a média de todas as moléculas presentes no poço de reação. Por isso, quando as proteínas estão em quantidades muito pequenas, como ocorre nos biomarcadores do Alzheimer no sangue, o ELISA pode não ser sensível o suficiente para detectá-las com precisão.
Já o Simoa funciona como uma espécie de “contagem digital” de moléculas, permitindo que cientistas detectem biomarcadores extremamente raros e estudem doenças neurológicas de forma mais detalhada. Por essa razão, a tecnologia tem sido amplamente utilizada em pesquisas sobre Alzheimer, Parkinson e outras doenças neurodegenerativas, ajudando cientistas a desenvolver exames menos invasivos e potencialmente capazes de identificar a doença anos antes do aparecimento dos sintomas.
Participantes
Neste momento, o estudo inicia a fase de divulgação e mobilização da comunidade para o engajamento de voluntários interessados em participar da pesquisa, que é voltada ao público com mais de 50 anos, alfabetizados e que não tenham problema de memória. Os interessados devem entrar em contato com a pesquisadora executante, Kellen, pelo número de WhatsApp (55) 99677-7748.
O bairro Cabo Luiz Quevedo foi selecionado como ponto inicial de referência do estudo por apresentar características demográficas representativas e infraestrutura adequada na Rede de Saúde para apoiar o projeto. Quando a pesquisa entrar na fase presencial, a coleta de amostras de sangue será realizada em espaço cedido pela Estratégia da Saúde da Família (ESF 14), no bairro Tabajaras. O material coletado passará por armazenamento inicial na SMS e, posteriormente, será encaminhado para análise no Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia da Ufrgs, em Porto Alegre.

