O ano de 2025 terminou sem permitir celebrações quando o tema é violência de gênero. Apesar de avanços normativos, campanhas institucionais e maior visibilidade do debate público, os dados revelam uma realidade persistente e alarmante: mulheres continuam sendo violentadas, mortas e silenciadas em ritmo incompatível com qualquer discurso de progresso social.

No Brasil, os registros de feminicídio, violência doméstica e sexual mantiveram-se elevados em 2025. A cada dia, mulheres eram agredidas dentro de casa, no espaço de proteção, e no trabalho e digitais. A violência psicológica é a principal que anuncia as agressões físicas e mortes. O sistema de justiça, ainda enfrenta dificuldades estruturais para garantir prevenção, proteção efetiva e resposta rápida às vítimas.

A situação é mais grave quando se analisa os recortes de raça, classe, deficiência e território. Mulheres negras, periféricas, indígenas, com deficiência e em vulnerabilidade social continuam sendo as mais expostas à violência e as menos alcançadas por políticas públicas eficazes.

Foi possível perceber que, em 2025, se ampliou a violência em situações como os desastres climáticos, a insegurança alimentar, o desemprego e a precarização das políticas sociais. A violência de gênero não ocorre isoladamente: ela se intensifica em contextos de instabilidade, quando o Estado falha em garantir direitos básicos.

O Brasil apesar de possuir um aparato legal com a Lei Maria da Penha e a do Feminicídio, continua enfrentando o distanciamento entre a proteção legal e a realidade cotidiana. Medidas protetivas seguem sendo descumpridas, delegacias especializadas são insuficientes, e a responsabilização dos agressores ainda é lenta.

Tentar reduzir o ciclo persistente da violência de gênero exige mais que campanhas ocasionais ou discursos desprovidos de ação. Em 2025, o Brasil registrou 718 feminicídios apenas no primeiro semestre, uma média de cerca de quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero, e quase 34.000 estupros no mesmo período, cerca de 187 por dia, números que expõem uma crise contínua de segurança para mulheres em todo o país. Dados do Ligue 180 mostram que, de janeiro a julho de 2025, foram realizados mais de 594.000 atendimentos e 86.025 denúncias de violência contra mulheres, um aumento de quase 3 % em relação ao ano anterior e mais da metade dos casos envolvia parceiros ou ex-parceiros. (Serviços e Informações do Brasil)

Esses números representam vidas interrompidas, famílias dilaceradas, e um testemunho da necessidade urgente de ação. Romper esse ciclo exige compromisso político permanente, financiamento compatível com a gravidade do problema e a compreensão inequívoca de que a vida das mulheres não pode continuar sendo tratada como balanço anual.

Se 2026 pretende ser um ano de avanço real, então que 2025 seja lembrado não como mais um ano de tolerância à violência, mas como o ponto em que a sociedade decidiu enfrentar de forma inegociável a violência de gênero, com políticas públicas efetivas, mecanismos de proteção robustos e uma cultura que diga, alto e claro, que ninguém mais morrerá por ser mulher.