Há menos de um mês, o médico cardiologista José Luiz Saldanha assumiu o comando da Secretaria Municipal de Saúde. Ele substituiu a médica Ane Caroline Barreto, que estava no cargo desde o ano passado, e pediu demissão para de dedicar a outros projetos.
Saldanha já teve passagens anteriores na gestão da Secretaria e acumula 40 anos na saúde pública no município. talvez este seja o seu grande diferencial. Além da experiência acumulada ao longo de mais de quatro décadas, ainda atuar diretamente como médico, em atividade tanto na rede básica quanto no Hospital Santa Casa de Uruguaiana, o que lhe traz conhecimento técnico e vivência prática da rotina do sistema, e permite uma visão realista dos desafios e das necessidades da área. É justamente sobre esses desafios e necessidades que Saldanha conversou com o CIDADE em uma entrevista exclusiva.
Atendimento vs falta de médicos
Considerando que as demandas na área da saúde são bastante dinâmicas, o Secretário elencou como grande prioridade a ampliação do atendimento nos postos de saúde. “Nós queremos que as Estratégias de Saúde da Família, nos bairros, se complementam e consigam que os habitantes daquele bairro, daquela região, sejam atendidos plenamente lá. esse é também um desejo do prefeito Carlos Delgado e vai ser nossa prioridade”, diz.
Nesse sentido, Saldanha é enfático. “Não aceito que as pessoas precisem se programar para adoecer porque quando chega na unidade de saúde, só tem consulta para daqui a 20 dias. Isso está mal. A gente sabe que os médicos estão sobrecarregados, que falta médicos, e vai levar um tempo, mas vamos resolver”, diz.
Ele ressalta que a principal dificuldade é justamente a falta de médicos, mas ressalta que novas contratações já estão ocorrendo. “Nós estamos recebendo agora nove médicos – quatro pelo processo seletivo de 40 horas, que ficarão 8 horas dentro da unidade, manhã e tarde; e mais cinco do projeto Mais Médicos. Eles chegam em boa hora e vamos avançar nesse objetivo”, comemora.
Conforme ele, já foram definidos alguns lugares que têm mais carência. “O Posto 7, por exemplo, temos uma médica em licença e outro que foi embora para cursar residência, e ficamos com uma médica que está sobrecarregada. Mesma coisa no Posto 22, que atende quase 9,5 mil pessoas cadastradas lá e temos um horário de reforço médico, mas precisamos de mais médicos. Também vamos reajustar e talvez deslocar profissionais que estejam em áreas com menor demanda”, explica.
Outra estratégia que deve ser adotada é o que o médico chama de margem para a demanda do dia. “Uma pessoa que chega na ESF e precisa de uma consulta naquele dia precisa ser atendida naquele dia. Tu imaginas a pessoa chegar com uma crise hipertensiva, uma crise de asma, uma criança num quadro de bronquiolite. A unidade tem condições de atender ali”, diz.
O médico reconhece que há casos em que o atendimento demandará especialistas, como oftalmologistas, traumatologia, além de cirurgias, mas o objetivo, segundo ele, é diminuir a chegada de pessoas para serem atendidas na UPA e no Pronto Socorro da Santa Casa.
Mutirões
Outro ponto são os mutirões que, segundo o Secretário, terão continuidade. “Ações como o mutirão de oftalmologia e de cirurgia geral. Acho um absurdo a gente deslocar paciente de Uruguaiana para operar vesícula e, Itaqui, em Alegrete. Então conversamos com dois colegas cirurgiões, que já tinham feito um mutirão, e se prontificaram a continuar”, explica.
A previsão do Secretário é de que, nos próximos dias, os procedimentos cirúrgicos já tenham início, considerando a realização de mutirão na semana passada.
Saldanha diz que o trabalho para diminuir a procura pelo Tratamento Fora do Domicílio (TFD), porém, não impedirá investimentos no setor, já que algumas demandas não podem ser resolvidas no município. “Tudo que for possível fazer ‘em casa’, vamos fazer em casa. É claro que há demandas que precisam de deslocamentos, e essas receberão todo o suporte necessário: veículos, motoristas, enfim”, frisa.
Além da praticidade de estar perto de casa, Saldanha ressalta a qualidade e humanidade do trabalho quando feito no posto de saúde. “O que a gente precisa é da atenção básica nos postos. É aquele atendimento em que tu chegas no posto hoje, e quando tu retornas, daqui 15 dias, um mês, eu sei quem tu és, e tu sabes quem eu sou. Essa é a ideia, a relação médico-paciente. E com isso não falo somente o médico, mas toda a equipe multiprofissional”, explica.
José Luiz Saldanha destaca ainda uma outra questão que terá sua especial atenção. “Temos 791 servidores na Secretaria de Saúde. Nós também temos que dar uma atenção para esse pessoal todo, que é quem faz a engrenagem girar. Estamos fazendo isso também. Isso é muito importante porque tu não fazes nada sozinho. É uma equipe”, completa.
Em time que está ganhando…
O médico explica que está dando seguimento ao trabalho que vinha feito por sua antecessora e equipe “Nós mantivemos alguns pilares da equipe dela, algumas coordenações, como as coordenações das ESFs, dos projetos dos agentes comunitários de saúde e das endemias. Tudo isso são coisas que estavam andando bem e que tem que continuar”, diz.
Ele também destacou projetos que terão continuidade, como o Saúde no bairro, que será mantido, inclusive no interior do município. “Vamos manter um sábado por mês. O próximo vamos fazer novamente no 5º Distrito, onde foi realizada a última edição”, conta. “O projeto lá foi um sucesso, mas se detectou algumas carências. Então vamos retornar para que a comunidade tenha uma resposta”, complementa.
Entre os avanços, ele também citou o destaque do município na disponibilização e aplicação do Implanon, medicamento contraceptivo de longa duração e alta eficácia, que é aplicado por meio de implante subdérmico. “Hoje somos líderes na região, já foram 607 implantes”, orgulha-se.
Jovens
O médico aproveita para falar sobre um projeto que deverá sair do papel em breve, focado na população jovem. “Quando falamos nos jovens, temos dois grandes desafios que precisam ser encarados: a inserção dos métodos anticonceptivo e o HPV (papilomavírus humano). E a gente já começou, estamos trabalhando em um modelo de projeto para atacar com mais presença a questão do HPV, especialmente em meninas, e também da gestação na adolescência.
Vacinação
Outro ponto de preocupação é a vacinação. Embora a cobertura vacinal no município venha evoluindo, Saldanha reconhece que há desafios.
“Esse ano tivemos uma adesão bem maior que o ano passado. A gente está melhorando, mas ainda encontra muita resistência. Obvio que isso tudo foi pós-covid, com toda aquela situação levantada de que vacina é ruim. Mas com respeito às crianças, às vacinas de primeiro mês, de dois meses, até os seis anos de idade, os pais têm conduzido as crianças para fazer. São vacinas que eu, tu, todos nós quando pequenos fizemos, e estamos aqui. a vacina favorece muito no momento que há exposição à doença. Teu organismo já sabe como se defender porque reconhece a doença e sabe como produzir os anticorpos, defende.


