
A violência doméstica e sexual vem sendo cada vez mais reconhecida como um grave problema de saúde pública. Dados recentes mostram que agressões praticadas por parceiros íntimos figuram entre os principais fatores associados à morte precoce e à perda de qualidade de vida de mulheres em idade adulta, superando, em alguns contextos, riscos tradicionalmente ligados à saúde.
Uma pesquisa publicada neste mês na revista científica The Lancet aponta que a violência cometida por parceiros afetivos é hoje o quarto maior fator de risco à morte prematura e à invalidez de mulheres entre 15 e 49 anos no mundo. Logo atrás aparece a violência sexual sofrida na infância, considerada a quinta maior ameaça à saúde feminina nessa faixa etária.
Para a coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram), vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social de Uruguaiana, Juliana Tietböhl, esses números refletem uma realidade cotidiana. Segundo ela, a violência doméstica raramente se limita à agressão física. “Muitas mulheres chegam ao Cram emocionalmente exaustas, fragilizadas e sem acreditar que exista uma saída possível para a situação de violência que vivem”, relata.
O estudo integra o mais recente relatório do Global Burden of Disease (GBD), com dados de 2023. Embora fatores como hipertensão, poluição do ar e tabagismo liderem os riscos globais à saúde, quando o recorte é feito especificamente para mulheres jovens e adultas, a violência assume um peso determinante. De acordo com os pesquisadores, a violência por parceiro íntimo e o abuso sexual na infância têm impacto maior na perda de anos de vida do que diversas doenças amplamente reconhecidas.
Esse impacto aparece, principalmente, na saúde mental. A pesquisa associa a violência doméstica a quadros de depressão, automutilação e infecção por HIV/Aids. Em 2023, cerca de 145 mil mulheres com 15 anos ou mais morreram em decorrência da violência praticada por parceiros íntimos em todo o mundo. O dado mais alarmante é que o suicídio superou o feminicídio como principal causa dessas mortes.
Segundo Tietböhl, esse dado ajuda a compreender o perfil das mulheres atendidas pelo Cram de Uruguaiana. “Muitas chegam com pensamentos suicidas, porque a violência prolongada gera a sensação de aprisionamento, de que não existe alternativa. O atendimento psicológico é fundamental para que elas consigam nomear a violência, compreender que não são culpadas e, aos poucos, reconstruir a autoestima”, explica.
No Brasil, o cenário segue a tendência global. Dados da plataforma GBD indicam que a violência sexual na infância ocupa o segundo lugar entre os principais riscos à saúde de mulheres de 15 a 49 anos, enquanto a violência praticada por parceiros íntimos aparece em terceiro. A obesidade lidera o ranking nacional.
Para Juliana, o enfrentamento desse problema exige acompanhamento contínuo. “Não é um atendimento pontual. O Cram trabalha com processos de cuidado ao longo do tempo, respeitando o ritmo de cada mulher. Esse vínculo reduz a sensação de abandono institucional, que muitas vezes agrava o sofrimento psíquico e o risco de autoagressão”, destaca.
A pesquisa também aponta que a violência sexual sofrida na infância está associada a pelo menos 14 condições de saúde, incluindo transtornos mentais graves, como esquizofrenia e bipolaridade. Globalmente, cerca de 290 mil mortes de pessoas com 15 anos ou mais foram atribuídas a esse tipo de violência, tendo a automutilação como principal causa.
Diante de situações de risco iminente, Juliana explica que o Centro de Referência atua de forma articulada com a rede municipal de enfrentamento à violência doméstica. O serviço mantém diálogo constante com a atenção básica, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços de urgência e emergência e o Hospital Santa Casa de Uruguaiana (HSCU). “A mulher não pode ficar sozinha no momento mais crítico. Nosso papel é garantir encaminhamentos responsáveis e acompanhamento compartilhado”, afirma.
Além do suporte psicológico, o Cram oferece orientação jurídica e social, auxiliando no acesso a medidas protetivas, benefícios sociais e serviços públicos. Para a coordenadora, reduzir a sensação de medo, insegurança e impotência é decisivo para afastar o risco de suicídio e devolver às mulheres a perspectiva de futuro.
“Quando falamos de violência doméstica, falamos de um processo que pode levar à aniquilação emocional da mulher. O Centro de Referência de Atendimento à Mulher existe para interromper esse ciclo, oferecendo cuidado, proteção e caminhos possíveis. Nosso compromisso é garantir que nenhuma mulher veja no suicídio uma saída para a violência que sofre, porque há apoio, há rede e há vida possível além da violência”, conclui Juliana Tietböhl.
Apesar dos avanços, especialistas alertam que o Brasil ainda enfrenta lacunas na estrutura de atendimento às vítimas. Iniciativas como a Casa da Mulher Brasileira representam progresso, mas a inclusão efetiva da violência na agenda da saúde mental ainda é limitada.
Segundo o médico e professor aposentado Rosires Pereira de Andrade, presidente da Comissão Nacional Especializada em Violência Sexual e Interrupção Gestacional da Febrasgo, poucos municípios brasileiros contam com serviços especializados e contínuos para o atendimento de vítimas de violência sexual.








