Um levantamento inédito do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que o dia da semana é um fator de risco, que pode deixar as vítimas de violência doméstica ainda mais expostas a agressões. De acordo com o estudo, de todos os registros semanais, 22% se concentram nos domingos. O segundo dia da semana com mais casos é o sábado, com 17%, seguido pela segunda, com 14%. De terça à sexta, o número cai para 12%.
Os dados são referentes ao período de 2015 a 2019 e foram coletados em seis estados de diferentes regiões: Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pará e São Paulo. Embora levantados antes da quarentena, indicam uma tendência que faz parte da rotina do brasileiro.
A explicação para a concentração de casos nos finais de semana se dá, principalmente, pelo maior tempo de convivência entre agressor e vítima dentro de casa. “Junto disso há um combo de fatores que envolvem consumo de álcool e algum tipo de estresse, seja porque o time perdeu, seja porque tem que voltar ao trabalho na segunda”, explica Samira Bueno, diretora executiva do FBSP. “Mas nada disso é justificativa. O homem não bateu na companheira porque bebeu, mas porque é agressivo e encontrou algum momento específico para colocar a raiva para fora partindo para a agressão física.” Samira levanta um ponto importante em relação aos dados: no pico dos casos de agressões é quando há menos lugares abertos para mulheres procurarem ajuda. “Apenas 8% dos municípios brasileiros têm delegacias da mulher, o que já é um problema. E as que existem costumam funcionar de segunda a sexta-feira, em horário comercial”, diz.
A pesquisa do FBSP mostra ainda que 40% dos registros são feitos à noite, sem especificar a diferença entre os dias da semana.
Álcool
O documento Dossiê Mulher 2020, formulado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) traz outro dado interessante: o consumo de álcool é o que mais aparece nos registros de ocorrência. No entanto, a pesquisadora Vanessa Campagnac, que coordenou o estudo, reforça que o álcool “é estopim para uma violência já existente no relacionamento”. “Dificilmente um registro de ocorrência é feito na primeira agressão. E ainda assim, antes do ataque físico, muitas vezes há abusos psicológicos, que não costumam ser vistos como crime”, diz Vanessa.
Ela ainda inclui na lista programas ligados a?futebol, onde também costuma haver consumo de álcool, como outro fator que leva o agressor a ficar com os ânimos exaltados. “E ele mesmo pode usar essa desculpa para tentar se redimir, dizer que agrediu a mulher porque o time perdeu. Depois, volta a tratar bem, até que mais uma vez a tensão aumenta e volta a atacá-la, completando o?ciclo da violência.”
Para a advogada Renata Bravo, especialista em direitos das mulheres e autora do livro “Feminicídio: Tipificação, Poder e Discurso”, o ambiente do futebol é marcado por machismo, agressividade e poder, o que também aparece nos estudos sobre violência doméstica e feminicídio. “A rivalidade, a masculinidade agressiva que o futebol tem, acaba aparecendo em outras atitudes dos homens na sociedade. Não que seja determinante, mas há uma ligação.”
Sentimento de posse sobre a companheira, exigência de submissão feminina por parte do homem e demonstração de poder são algumas das outras explicações que?pesquisadoras apresentam ao falar sobre a alta incidência de casos?de violência doméstica no país. O dado mais recente indica que uma agressão ocorre a cada dois minutos, ou 266 mil por ano.
Com informações da Agência Patrícia Galvão.


