A força da poesia falada, da memória popular e das vivências periféricas tomou conta de Uruguaiana nesta quinta-feira, 14/5, com a passagem do poeta, compositor e produtor cultural David Biriguy pelo município. Através do projeto Sesc “Arte da Palavra”, o artista apresentou o recital “Quem descobriu o azul anil?” em duas atividades voltadas ao público jovem.
As apresentações ocorreram pela manhã, no Sesc Uruguaiana, reunindo estudantes convidados dos colégios União e Instituto Estadual Elisa Ferrari Valls. Já no período da tarde, o recital foi realizado nas dependências do próprio Elisa Valls, em uma atividade voltada principalmente aos alunos do curso de magistério, além de integrantes da comunidade escolar.
O espetáculo presta homenagem ao poeta pernambucano Miró da Muribeca, referência da poesia urbana brasileira e conhecido por transformar experiências das ruas do Recife em versos carregados de crítica social, lirismo e oralidade. Durante o recital, Biriguy percorre textos marcados por temas como identidade negra, violência urbana, pertencimento e resistência cultural, aproximando os jovens da literatura através da escuta e da performance.
Ao CIDADE, David destacou a recepção dos estudantes uruguaianenses e definiu a experiência na fronteira oeste como “incrível”. “Os estudantes participaram muito, fizeram perguntas, conversaram bastante depois da apresentação. Alguns vieram falar comigo individualmente, contar sonhos, dúvidas, vontades. Isso é muito bonito. Essa troca é uma das melhores partes do recital”, afirmou.
O artista também comentou que esta é sua primeira passagem pelo Rio Grande do Sul e ressaltou a importância do circuito cultural promovido pelo Sesc. “Eu já tinha circulado por outros estados, mas ainda não conhecia o Rio Grande do Sul. Estar aqui em Uruguaiana, conversando com os jovens e levando esse trabalho, está sendo uma experiência muito marcante”, disse.
Literatura, juventude e oralidade
Ao longo da conversa, Biriguy refletiu sobre o papel da oralidade como ponte entre os jovens e a literatura. Segundo ele, a poesia falada dialoga diretamente com os hábitos contemporâneos e cria novos caminhos de acesso ao texto literário. “Hoje muita gente conhece poesia primeiro pelo vídeo, pela performance, pela internet. Às vezes, ouvir alguém declamando é o primeiro contato antes do livro. A oralidade aproxima porque emociona, porque alcança mais pessoas”, observou.
O poeta ainda destacou o caráter democrático da poesia falada, lembrando que a palavra oral ultrapassa barreiras de escolarização e leitura formal. “Uma pessoa pode não saber ler, mas consegue ouvir um poema, sentir o poema. A oralidade tem essa força ancestral”, comentou.
Durante os encontros, os estudantes também questionaram o artista sobre carreira, escrita e os desafios de viver da arte no Brasil. David relatou que compartilhou parte de sua trajetória pessoal, iniciada ainda na adolescência. “Comecei declamando poesia na escola, aos 12 anos. A escrita veio depois, aos 15, em oficinas literárias. Foi um processo muito natural. Eu fui lendo, escrevendo, participando de eventos e entendendo que era isso que queria fazer”, contou.
Além da literatura, Biriguy também integra a banda Virgulados, projeto musical mencionado durante a conversa com os alunos.
Poesia das ruas e crítica social
A obra de Miró da Muribeca, homenageada no recital, surgiu a partir das vivências periféricas do Recife e se tornou símbolo da chamada poesia marginal nordestina. Para David, o grande diferencial do autor está justamente na autenticidade da escrita. “Miró era um poeta das ruas. Ele falava da violência, da periferia, do cotidiano urbano, mas também escrevia sobre amor, sensibilidade e afeto. A poesia dele tem uma força muito verdadeira”, explicou.
O recital percorre justamente essa dualidade: ao mesmo tempo em que denuncia desigualdades sociais e violência policial, também abre espaço para delicadeza, humor e emoção.
Miró da Muribeca faleceu em 2022 e é lembrado como um dos principais nomes da poesia performática brasileira contemporânea. Ao longo da carreira, publicou mais de 15 livros e teve textos traduzidos para outros idiomas.
Arte da Palavra
O “Arte da Palavra” é considerado um dos maiores circuitos literários do país e promove ações de formação, circulação de escritores e incentivo à leitura em diferentes estados brasileiros. O projeto é dividido em eixos voltados à oralidade, criação literária e circulação de autores.
“O Arte da Palavra promove muito mais do que apresentações. Existe uma intenção pedagógica e cultural. As escolas participam porque entendem a relevância desse contato entre estudantes e artistas”, destacou Elke Pedroso, agente de cultura e lazer do Sesc Uruguaiana. Segundo ela, Uruguaiana está entre as poucas cidades gaúchas contempladas pelo circuito neste ano.
Conforme Pedroso, as instituições de ensino interessadas procuram o Sesc em busca de atividades culturais que dialoguem com seus projetos pedagógicos. “Quando trazemos um escritor ou um recital como esse, pensamos também no que pode ser desenvolvido a partir da experiência. É uma troca cultural muito rica para os alunos”, observa.
Elke também destacou que um dos principais objetivos do Sesc é democratizar o acesso ao livro e à literatura, criando pontes entre os escritores e novos leitores. Conforme ela, muitas vezes os jovens não possuem incentivo à leitura dentro de casa, e ações culturais acabam se tornando oportunidades fundamentais de aproximação com o universo literário. “O objetivo do Sesc com a literatura é justamente mediar esse encontro entre a escrita e o leitor. Nem todos tiveram oportunidade de conhecer a poesia ou criar esse hábito de leitura. Por isso a gente leva atividades para as escolas, promove encontros e trabalha com diferentes faixas etárias”, finalizou.


