A paixão pelo cinema começou cedo para o produtor, roteirista e diretor João Guerra, de 23 anos, ainda que, no início, não tivesse nome nem forma definida. Entre brincadeiras com o celular da tia e vídeos improvisados com primos e irmãos, surgiu o primeiro contato com a produção audiovisual. Anos depois, já adulto e durante o período no quartel, essa vontade reapareceu com força e passou a ser encarada como projeto de vida. “Eu sempre quis produzir. Gosto mais de estar por trás das câmeras do que assistir. Meu lugar é na produção”, resume.
Foi em 2022 que João deu os primeiros passos concretos: comprou uma câmera, escreveu um roteiro e mobilizou cerca de 20 pessoas pelas redes sociais para gravar seu primeiro filme — que acabou não sendo finalizado, mas serviu como ponto de partida. “Foi ali que acendeu a chama”, conta.
Atualmente, João mobiliza a comunidade pelas redes sociais, com a produção de vídeos curtos para as redes sociais. A ideia é mostrar os bastidores da produção de cinema de uma maneira lúdica e criativa e, além disso, atrair público e mais pessoas apaixonadas por fazer cinema.”A galera me chama pelos vídeos, quer participar, alguns são mais dedicados que outros, mas é muito legal perceber como a comunidade se sente encorajada ao se ver como protagonista de uma obra audiovisual, dá poder para elas”, destaca.

crédito: Clarisse Amaral/JC
Cinema no interior e identidade local
Mesmo não sendo natural de Uruguaiana, João passou a investigar a produção audiovisual na cidade e descobriu que, embora ainda incipiente, já existiam iniciativas anteriores. Curtas independentes, oficinas promovidas por profissionais de fora e até produções premiadas mostram que há um histórico, ainda que pouco difundido.
Para ele, o momento atual representa uma virada. Com mais pessoas produzindo e o reconhecimento recente de trabalhos locais, como os de João Chimendes -diretor do curta Trapo que conquistou o prêmio de Melhor Curta Gaúcho no Festival de Cinema de Gramado 2025 – cresce também o interesse do público. “A ideia não é sair daqui para produzir fora. É aprender e continuar fazendo cinema em Uruguaiana. A cidade tem histórias, cultura e cenários únicos”, afirma.
Redes sociais como estratégia
Diante das dificuldades de financiamento e distribuição no cinema independente, João encontrou nas redes sociais uma ferramenta essencial. Seus vídeos no Instagram e TikTok — iniciados com a frase “esse é o dia X montando minha produtora de cinema do zero” — funcionam como vitrine do processo criativo e também como estratégia de marketing. “Hoje, o cineasta precisa divulgar o próprio trabalho. Se eu quero que meus filmes sejam vistos, eu preciso criar um público antes”, explica.
A estratégia tem dado resultado: dezenas de pessoas já demonstraram interesse em colaborar com seus projetos. Ainda assim, ele reconhece o desafio de manter uma equipe engajada de forma contínua.
Entre editais e captação privada
Para viabilizar seus projetos, João aposta em diferentes caminhos. Além de editais públicos, como os da Lei Paulo Gustavo, ele busca apoio por meio da Lei do Audiovisual, que permite a captação de recursos junto a empresas.
Um de seus projetos já foi aprovado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) para captação: um curta-metragem com orçamento estimado em R$ 150 mil, que mistura ação e drama ao abordar a história de um jovem autista que trabalha como fiscal de estacionamento. “É um filme com potencial de festival. Quero qualidade técnica para competir em nível alto”, destaca.
Formação de público e incentivo local
Além das produções, João também idealiza iniciativas para fortalecer o audiovisual na cidade. Um dos projetos é o “Cinema Party”, festival voltado a estudantes, com oficinas de produção usando celulares e exibição dos filmes em telões ou espaços públicos.
A proposta busca estimular desde cedo o interesse pelo cinema e criar uma cultura local de produção audiovisual. “Se a gente formar público agora, no futuro a cidade vai ter uma base forte para o cinema”, avalia.

crédito: reprodução/Acervo Pessoal
Persistência em meio às dificuldades
A trajetória, no entanto, não tem sido linear. Problemas técnicos, como a perda de arquivos importantes, já interromperam projetos e desmotivaram o jovem cineasta por períodos. Ainda assim, ele segue insistindo. “Parece que tudo diz para não fazer, mas eu continuo. Agora começo a ver um pequeno sinal de que pode dar certo”, diz.
Para João, o cenário do cinema brasileiro também contribui como incentivo. O reconhecimento recente de produções nacionais em festivais internacionais reforça a percepção de que há espaço para crescer — inclusive fora dos grandes centros. “Talvez ainda seja só um ponto de luz no fim do túnel, mas ele já existe. E isso faz a gente continuar”, conclui.


