O monólogo estreia no dia 16 de junho, às 20h, no Teatro Municipal Rosalina Pandolfo Lisboa crédito: acervo pessoal

A trajetória de uma das personalidades mais emblemáticas e controversas da história de Uruguaiana ganhará vida nos palcos em junho. A Associação Arte em Movimento e a companhia teatral “Eu Teatro, Tu Teatras” uniram-se para apresentar o espetáculo “Ivo Rodrigues 3×4”, monólogo que estreia no dia 16 de junho, às 20h, no Teatro Municipal Rosalina Pandolfo Lisboa. 

Com texto e direção do professor e diretor teatral Paulo Melo e atuação de Flávio Borges, a peça mergulha na vida de Ivo Rodrigues, personagem que marcou o imaginário popular uruguaianense entre as décadas do século XX. Segundo Paulo Melo, o espetáculo busca apresentar não apenas a figura ligada à prostituição e ao cabaré, mas principalmente o lado humano, cultural e social de Ivo. 

“Não queremos exaltar a sexualidade, a casa de prazeres ou a prostituição, mas sim a irreverência, as boas ações, as doações beneficentes, os carnavais e os cerimoniais no estabelecimento dessa figura marcante que ainda vive no imaginário popular”, destacou o diretor. 

De acordo com Paulo Melo, o espetáculo recebeu o nome “3×4” em referência aos três grandes amores vividos por Ivo Rodrigues e aos quatro diferentes endereços onde funcionou seu famoso estabelecimento em Uruguaiana. A montagem acompanha a trajetória de Ivo desde sua chegada de São Borja até sua morte, ocorrida na rua Benjamin Constant. 

O diretor explicou que a construção dramatúrgica partiu de uma extensa pesquisa histórica e oral realizada junto a dezenas de pessoas que conviveram com Ivo Rodrigues ao longo dos anos. Entre os entrevistados estão antigos funcionários, músicos, motoristas, costureiras, frequentadores do estabelecimento e integrantes de escolas de samba da cidade. 

“Fomos atrás dos acontecimentos reais, dos amores e das histórias verdadeiras. Conversamos com o motorista do Ivo, pessoas que tocaram no cabaré, profissionais da limpeza, costureiras e muitas figuras conhecidas da cidade que tiveram contato direto com ele”, completou Paulo. 

Segundo o diretor, o espetáculo também aborda a forte relação de Ivo Rodrigues com o carnaval e com as escolas de samba de Uruguaiana. Ele relembra que o espaço administrado por Ivo frequentemente servia como ponto de encontro para comemorações de agremiações carnavalescas tradicionais da cidade.

Além da reconstrução histórica, o monólogo aposta em elementos cênicos tecnológicos, figurinos, objetos e forte expressão corporal para narrar a trajetória da personagem. Paulo Melo define a atuação de Flávio Borges como “um monólogo estarrecedor”, capaz de transportar o público para diferentes momentos da vida de Ivo. 

A montagem também busca lançar um novo olhar sobre uma figura frequentemente cercada por preconceitos e narrativas superficiais. Segundo Paulo, o espetáculo procura destacar o legado social deixado por Ivo Rodrigues para a cidade. “Ivo foi uma personalidade extremamente irreverente, que causava discussões, mas também ajudou centenas de pessoas em Uruguaiana. Hoje é importante resgatar esse legado humano e cultural”, ressaltou. 

Com 19 anos de atuação, a companhia “Eu Teatro, Tu Teatras” é dirigida por Paulo Melo. A montagem conta ainda com apoio da Secretaria Municipal de Cultura e da Prefeitura de Uruguaiana. Os ingressos podem ser adquiridos pelo número (55) 991741038. 

 

Quem foi Ivo Rodrigues 

Ivo Rodrigues nasceu em 1908, em São Borja, e ainda jovem mudou-se para Uruguaiana, onde construiu uma trajetória que atravessou décadas e marcou profundamente o imaginário popular da Fronteira Oeste. Ivo é considerado um dos primeiros homossexuais transgênero assumidos do país. Mesmo com o conservadorismo local, Ivo explorava sua personalidade, sexualidade e gênero com coragem e, desde cedo, enfrentou perseguições e violência motivadas por não ter medo de ser quem era. 

Na primeira metade do século XX, passou a trabalhar como “Leão de Chácara” — função semelhante à de segurança — em uma casa de prostituição da cidade. Com porte físico imponente e personalidade firme, rapidamente ganhou respeito no ambiente noturno uruguaianense e tornou-se homem de confiança do estabelecimento. Após a morte da proprietária da boate, herdou o local e assumiu também os cuidados da mãe da antiga dona. 

Com o passar dos anos, o espaço transformou-se na famosa “Casa Rosa”, considerada por muitos um dos mais conhecidos cabarés da metade sul do Rio Grande do Sul entre as décadas de 1950 e 1960. O local recebia políticos, empresários, ruralistas, autoridades brasileiras, argentinas e uruguaias, além de figuras influentes da sociedade regional. Ivo tornou-se conhecido não apenas pela administração do estabelecimento, mas também pela personalidade extravagante, pelas roupas inspiradas na moda francesa e pelo inseparável leque que carregava consigo. 

O conservadorismo 

Em uma sociedade marcada pelo conservadorismo e pelo machismo estrutural, Ivo Rodrigues acabou se tornando referência de acolhimento para mulheres marginalizadas pela sociedade. Muitas jovens expulsas de casa ou abandonadas após gravidez encontravam apoio junto a ele. Algumas trabalhavam na prostituição; outras recebiam funções em serviços internos da casa, como cozinha, limpeza e atendimento. 

Apesar de comandar um ambiente ligado à vida noturna, Ivo também ficou conhecido pelas ações beneficentes realizadas em bairros pobres da cidade. Relatos populares afirmam que ele distribuía alimentos a famílias carentes utilizando uma carruagem vitoriana, que por muitos anos permaneceu exposta no Museu Municipal de Uruguaiana. 

Outra marca registrada era sua forte ligação com o carnaval e com a vida cultural uruguaianense. O estabelecimento de Ivo frequentemente servia como espaço de confraternização de escolas de samba, músicos e artistas locais. Também ficaram famosas as campanhas promocionais realizadas na semana de seu aniversário, quando enviava mensagens pagas às rádios da cidade anunciando a própria comemoração e atraindo grande movimentação para a Casa Rosa. 

Conhecido pela coragem e pela autoridade que exercia dentro e fora do cabaré, Ivo também cultivou fama de homem respeitado e temido. Histórias populares relatam que utilizava um facão para encerrar conflitos e proteger as mulheres que trabalhavam em sua casa. 

Ivo Rodrigues morreu na década de 1970, já afastado do auge financeiro e social que viveu anos antes. Ainda assim, permaneceu como uma figura profundamente presente na memória popular de Uruguaiana. Seu túmulo segue recebendo flores, visitas e pedidos de fiéis e admiradores, transformando-o em uma espécie de personagem lendário da história da cidade. 

Hoje, mais de meio século após sua morte, Ivo Rodrigues continua sendo lembrado como uma personalidade irreverente, contraditória e simbólica da Fronteira Oeste, alguém que enfrentou preconceitos, construiu espaços de acolhimento e desafiou os padrões sociais de sua época.