Profissionais e Irmãs Filhas do Amor Divino constroem diariamente o trabalho da Instituição. Créditos: Helena Biasi/JC.

Há lugares que fazem parte da história de uma cidade não apenas pelo tempo que permanecem de pé, mas pelas vidas que ajudam a transformar. Em Uruguaiana, a Escola de Educação Infantil Nossa Senhora de Lourdes carrega uma dessas histórias. Conhecida também como Lar da Criança e considerada a primeira creche do município, a instituição completa, em 2026, sete décadas dedicadas ao cuidado, à educação e ao acolhimento de crianças.

São 70 anos de portas abertas e mais de 15,7 mil crianças atendidas ao longo dessa trajetória. Por trás desse número, estão histórias de famílias, primeiras amizades, aprendizados, brincadeiras e lembranças que atravessaram gerações. Em uma cidade que também cresceu e se transformou ao longo dessas décadas, a Nossa Senhora de Lourdes permaneceu como um espaço dedicado aos pequenos e às famílias em situação de vulnerabilidade social.

Neste ano especial, a trajetória da instituição também será levada para as ruas. A Escola Nossa Senhora de Lourdes será uma das homenageadas no Desfile da Semana da Pátria 2026, integrando o grupo de instituições que ajudaram a construir a história de Uruguaiana. No desfile, a escola apresentará não apenas seu nome, mas sete décadas de trabalho, dedicação e compromisso com a infância.

O CIDADE esteve na instituição e conheceu de perto parte dessa história. Nos corredores, salas e espaços destinados às crianças, o passado se encontra com o presente. O trabalho que começou há 70 anos continua sendo construído diariamente por profissionais e pelas Irmãs Filhas do Amor Divino, que dedicam seu tempo à missão de manter vivo o propósito da entidade.

Uma dessas histórias é a da irmã Micaela Hermann, de 83 anos. Segunda diretora secretária da instituição, ela está há 57 anos ligada ao Lar da Criança. Praticamente toda uma vida dedicada à casa que ajudou a crescer. “É uma coisa muito importante. Saber que eu ajudei a construir tudo isso daqui. Quando viemos para cá, até fome a gente passava. Antes era, acho que, pior ainda”, relembra Micaela, em entrevista à redação.

A religiosa recorda um período em que a estrutura era mais simples e os recursos, ainda mais escassos. Com o passar dos anos, projetos, parcerias e o esforço coletivo possibilitaram a construção e a ampliação da estrutura que existe atualmente. “Depois, através de projetos, a gente conseguiu construir toda essa parte, junto com essa diretoria que nós temos. A presidente, a vice-presidente, que se unem, que se ajudam para atender melhor as crianças”, acrescenta.

Uma história que começou em 1955

A origem da instituição remonta a 5 de outubro de 1955. Naquele dia, o bispo Dom Luiz Felipe de Nadal convocou os católicos e apresentou um Projeto de Estatuto com o objetivo de conceder personalidade jurídica à entidade. A data passou a ser considerada o marco de fundação da Nossa Senhora de Lourdes.

Desde então, aproximadamente 74 Irmãs e Noviças dedicaram parte de suas vidas à instituição. A presença das Filhas do Amor Divino atravessa as sete décadas e permanece, atualmente, como um dos pilares da organização.

A filosofia educacional da escola está fundamentada nos princípios de Madre Francisca Lechner, fundadora da Congregação das Irmãs Filhas do Amor Divino. A proposta parte da mensagem evangélica do amor e da fraternidade, compreendendo esses valores como elementos fundamentais para a convivência humana.

Na prática, a ideia se traduz em uma educação que busca desenvolver as potencialidades das crianças e prepará-las para a vida, estimulando desde os primeiros anos valores como convivência, respeito, solidariedade e fraternidade. Hoje, o atendimento contempla crianças de quatro meses a cinco anos, distribuídas entre Berçário I e II, Maternal I, II e III, Jardim A e Jardim B.

Um dia inteiro dedicado à infância

A rotina começa às 8h30 e termina às 16h30. Durante esse período, a escola se transforma em um espaço de convivência, aprendizado e descobertas. São nove pedagogas, três monitoras, 21 atendentes, uma psicóloga, uma brinquedista e um servidor geral, além da equipe que integra a diretoria da instituição. Atualmente, a gestão é formada pela diretora-presidente, Maria do Horto S. Bermúdez; pela vice-diretora, Suzana Kotz; pelas secretárias Célia Graziuso e irmã Micaela; e pelas tesoureiras Sandra Duarte e irmã Marlene Pereira.

A rotina das crianças vai muito além da sala de aula. Refeições, brincadeiras, momentos na pracinha, atividades pedagógicas, salas interativas e comemorações de datas especiais fazem parte do cotidiano. Dia das Crianças, Dia dos Pais e Dia das Mães, entre outras ocasiões, também são oportunidades para transformar a escola em um ambiente ainda mais próximo das famílias.

O Lar da Criança também disponibiliza serviços complementares, entre eles atendimentos odontológico e oftalmológico, além de acompanhamento psicológico destinado a pais, crianças e professores. Tudo isso é pensado para que a permanência das crianças durante o dia seja marcada não apenas pela educação, mas pelo cuidado.

A missão de continuar

Manter uma instituição filantrópica funcionando durante sete décadas exige mais do que história. Exige recursos, mobilização e uma rede de pessoas dispostas a colaborar.

A Nossa Senhora de Lourdes recebe mensalmente R$ 239.155,52 por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), conforme convênio firmado entre o Município e a entidade. O acordo foi implementado durante o governo do ex-prefeito José Francisco Sanchotene Felice. O recurso é destinado ao pagamento do quadro de funcionários.

A instituição, entretanto, também precisa buscar outras formas de manutenção. Durante mais de quatro décadas, projetos desenvolvidos com Luxemburgo garantiram recursos que ajudavam a manter as atividades sem a necessidade de cobrança das famílias. Com o encerramento desse apoio, foi necessário encontrar novas alternativas. “Durante 40 e poucos anos, eles sempre nos mandavam dinheiro todo ano. Então, a gente não precisava pedir o auxílio dos pais. Mas quando eles terminaram, começamos a pedir uma colaboração”, explica Micaela.

Segundo ela, a contribuição das famílias começou em R$ 100 e atualmente está em R$ 250 mensais. O valor auxilia na manutenção da estrutura, somado aos recursos públicos e às ações promovidas pela própria instituição. “Eles ficam o dia inteiro aqui, não precisa trazer nada. E a gente, com esse dinheiro e as promoções que estamos fazendo, mantém a creche”, conta.

Entre essas iniciativas está o brechó da instituição, aberto às quartas e sextas-feiras durante o horário de funcionamento da escola. O espaço reúne roupas doadas em bom estado, que vão desde peças para bebês até vestidos de festa, além de calçados, lenços, bolsas, carteiras e joias. Os produtos são comercializados por valores que variam aproximadamente entre R$ 5 e R$ 100.

Outra ação ocorre neste sábado, 15/8, com a realização de uma Feijoada Solidária para arrecadar recursos destinados à manutenção da escola. São iniciativas que podem parecer pequenas diante dos desafios de manter uma instituição por tantos anos, mas que, juntas, ajudam a garantir que as portas continuem abertas.

Sete décadas que cabem em muitas histórias

A própria documentação preservada pela Escola Nossa Senhora de Lourdes ajuda a dimensionar a relação construída com a comunidade. A instituição disponibilizou ao CIDADE um livro que reúne registros de sua trajetória e, entre as páginas, está uma pesquisa realizada em 2010 para avaliar a percepção dos públicos interno e externo sobre o trabalho desenvolvido.

Entre pais, mães e responsáveis por crianças que frequentavam a escola naquele período, 78,8% eram mães, 14% eram pais e 7% correspondiam a outras pessoas responsáveis.

A pesquisa também mostrou como a instituição chegava às famílias. Cerca de 42% dos responsáveis afirmaram ter conhecido a creche por meio de pessoas que tinham ou tiveram filhos matriculados no local. Outros 30% chegaram à escola por indicação de parentes e 22% por vizinhos e conhecidos. O índice de satisfação entre os pais chegou a 99%.

No público externo, 21% disseram conhecer a instituição por meio de vizinhos, enquanto 17% a conheciam por terem filhos ou por conhecerem crianças atendidas no local. O resultado geral também foi expressivo: 99,5% avaliaram positivamente a instituição.

Os números registrados há 16 anos ajudam a contar uma história que não se resume às estatísticas. Afinal, quando uma criança deixa a escola, leva consigo uma experiência. E quando uma família confia à instituição os primeiros anos da vida de um filho, estabelece-se uma relação que vai além do ensino.

Uma casa construída por muitas mãos

Ao longo de 70 anos, a Nossa Senhora de Lourdes foi sendo construída por muitas mãos. Pelas irmãs que dedicaram décadas à missão, pelos profissionais que passaram pela instituição, pelas famílias, pelas pessoas que contribuíram com projetos e doações e, principalmente, pelas milhares de crianças que deram sentido à existência do Lar da Criança.

Para a irmã Micaela, completar sete décadas é também olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido. “É muito grande e emocionante, né? Há tantos anos! Eu faço 57 anos que trabalho aqui nessa entidade. Então, para mim, é uma coisa muito importante”, resume.

A emoção ganha outro significado quando se percebe que a instituição atravessou mais tempo do que muitas das pessoas que hoje fazem parte de sua comunidade. Crianças que passaram por aquelas salas cresceram, constituíram suas próprias famílias e seguiram suas vidas. Algumas talvez hoje levem os próprios filhos ou netos para os mesmos espaços onde um dia aprenderam a brincar, conviver e descobrir o mundo.

É nesse encontro entre memória e presente que os 70 anos da Nossa Senhora de Lourdes ganham significado. A homenagem no Desfile da Semana da Pátria será mais um capítulo dessa trajetória. Entre bandeiras, crianças e celebrações, a escola levará para as ruas uma história que pertence também à cidade.

Porque há instituições que ensinam. Há instituições que acolhem. E há aquelas que fazem as duas coisas por tanto tempo que acabam se tornando parte da própria identidade do lugar onde estão. A Nossa Senhora de Lourdes é uma delas.

Aos 70 anos, o Lar da Criança segue fazendo o que aprendeu a fazer desde 1955: receber os pequenos, cuidar, educar e preparar caminhos. Sete décadas depois, a missão continua sendo escrita todos os dias, uma criança de cada vez.

Como ajudar

Quem quiser contribuir com o trabalho desenvolvido pela Escola de Educação Infantil Nossa Senhora de Lourdes pode entrar em contato pelo telefone (55) 3412-5355. Segundo a direção, toda forma de colaboração é bem-vinda e contribui para a continuidade das atividades da instituição.

  • Aos 83 anos, a irmã Micaela integra a equipe há mais de cinco décadas. Para ela, acompanhar os 70 anos da instituição é motivo de emoção e orgulho. Crédito: Helena Biasi/JC.
    Aos 83 anos, a irmã Micaela integra a equipe há mais de cinco décadas. Para ela, acompanhar os 70 anos da instituição é motivo de emoção e orgulho. Crédito: Helena Biasi/JC.
  • Fundada em 1955, instituição atravessou gerações e mantém, sete décadas depois, a missão de educar, acolher e cuidar da infância.
    Fundada em 1955, instituição atravessou gerações e mantém, sete décadas depois, a missão de educar, acolher e cuidar da infância.
  • Conhecida também como Lar da Criança, instituição filantrópica mantém o atendimento a crianças de quatro meses a cinco anos.
    Conhecida também como Lar da Criança, instituição filantrópica mantém o atendimento a crianças de quatro meses a cinco anos.
  • Helena Biasi/JC.
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  • Helena Biasi/JC.
  • Helena Biasi/JC.
  • Helena Biasi/JC.
  • Helena Biasi/JC.
  • Aos 83 anos, a irmã Micaela integra a equipe há mais de cinco décadas. Para ela, acompanhar os 70 anos da instituição é motivo de emoção e orgulho. Crédito: Helena Biasi/JC.
  • Fundada em 1955, instituição atravessou gerações e mantém, sete décadas depois, a missão de educar, acolher e cuidar da infância.
  • Conhecida também como Lar da Criança, instituição filantrópica mantém o atendimento a crianças de quatro meses a cinco anos.