Balanço apresentado na Câmara reuniu dados sobre atendimentos, perfil das usuárias e ações realizadas créditos: divulgação/Secom CMU.

O Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) apresentou, nesta quinta-feira, 25/6, durante a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Vereadores, um balanço das ações desenvolvidas ao longo dos seis anos de funcionamento no município. A apresentação destacou os avanços da política de proteção às mulheres em situação de violência, os atendimentos realizados e a importância da atuação integrada entre os serviços da rede de apoio.

Durante a exposição, a coordenadora do Cram, Juliana Tietbohl, ressaltou um dado considerado significativo pela equipe: ao longo dos seis anos de atuação, nenhuma mulher atendida pelo serviço foi vítima de feminicídio. Segundo ela, o resultado demonstra a efetividade do trabalho preventivo, do acompanhamento contínuo e da articulação entre os diferentes órgãos envolvidos na proteção às vítimas. “Isso mostra como uma política bem estruturada, com profissionais capacitados e um olhar integral para a mulher, é capaz de transformar vidas e salvar vidas diariamente”, destacou a coordenadora.

Atendimentos

Conforme o relatório apresentado, somente entre janeiro e junho de 2026, o Cram realizou 966 procedimentos e ações, que resultaram em 300 atendimentos diretos às usuárias.

Entre os tipos de atendimento registrados no período, 58,5% foram retornos de acompanhamento, 20,4% corresponderam a acolhimentos iniciais e 15% foram acolhimentos realizados a partir de encaminhamentos do Fórum. Também foram contabilizadas ações de busca ativa e reingresso de mulheres ao serviço.

Os dados reforçam o caráter contínuo do atendimento oferecido pelo Cram, que acompanha as mulheres não apenas no momento da denúncia, mas também durante o processo de reconstrução da autonomia e rompimento do ciclo da violência.

Perfil das mulheres atendidas

O levantamento apresentado também traçou o perfil das usuárias acompanhadas pelo serviço. A maior parcela das mulheres acolhidas possui entre 30 e 59 anos, representando 60,3% dos atendimentos. Jovens de até 29 anos correspondem a 30,1%, enquanto mulheres com 60 anos ou mais representam 9,6%. Em relação à autodeclaração étnico-racial, 61,1% das usuárias se declararam brancas, 26,3% pardas e 12,6% pretas.

Sobre escolaridade, os maiores índices foram registrados entre mulheres com Ensino Médio Incompleto (34,7%) e aquelas que possuem do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental (25,3%).

Na realidade econômica e profissional, 41,3% informaram não possuir renda e 40,1% declararam exercer atividades do lar. Entre as mulheres inseridas no mercado de trabalho, 23,9% atuam na informalidade e 14,1% possuem vínculo com carteira assinada.

Quanto aos programas de transferência de renda, 48,4% afirmaram não receber nenhum benefício, enquanto 40,9% recebem o Bolsa Família e 10,8% são beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e/ou da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas).

Violência psicológica é a mais relatada

Os dados sobre os tipos de violência sofrida mostram que a agressão psicológica aparece como a forma mais frequente entre os casos acompanhados pelo CRAM. Foram registrados 72 relatos, correspondendo a 80% das ocorrências analisadas.

A violência física e a violência moral aparecem na sequência, ambas com 31 registros, representando 34,4% cada. Também foram identificados casos de violência sexual e patrimonial, com 11 ocorrências cada, equivalentes a 12,2%.

Em relação ao vínculo com o agressor, os maiores índices envolvem ex-cônjuges e cônjuges, ambos com 35,6% dos registros. Namorados aparecem em 14,9% dos casos.

O impacto da violência também alcança o ambiente familiar. Do total de mulheres acolhidas, 77,2% possuem filhos. Entre elas, 32% têm dois filhos e 21,3% têm três. Em 52,1% das situações, os filhos presenciaram episódios de violência.

Denúncias

O relatório aponta que 88,4% das mulheres atendidas registraram boletim de ocorrência. A maioria dos registros foi realizada na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), com 59,3%, enquanto 40,7% ocorreram na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA).

A principal porta de entrada para o CRAM é a DEAM, responsável por 43,6% dos encaminhamentos. Também aparecem os atendimentos procurados espontaneamente pelas mulheres (12,9%) e os encaminhamentos realizados pelo Fórum (10,9%).

Entre os bairros com maior concentração de usuárias estão o Centro, com 11,6%, Cabo Luiz Quevedo, com 10,2%, Bela Vista, com 8,4%, e Cidade Nova I, com 7,1%.

Ações

Além dos atendimentos individuais, a equipe do Cram destacou iniciativas desenvolvidas para ampliar a proteção e fortalecer a independência das mulheres. Entre as ações estão os acolhimentos realizados diretamente no Fórum, a parceria com o Ministério Público para entrega de celulares destinados à proteção de vítimas e projetos voltados à capacitação e inserção das usuárias no mercado de trabalho.

O serviço também promove atividades de conscientização, como o projeto “Cram no Interior”, realizado em São Marcos, e a “BlitzCram”, ação de rua voltada ao combate ao assédio e à violência de gênero.

Durante a apresentação, a equipe também destacou o uso do Indicador de Violência Doméstica, uma ferramenta criada para auxiliar na identificação dos níveis de risco enfrentados pelas mulheres.

O instrumento classifica os sinais de violência em três níveis: “Cuidado”, quando há presença de comportamentos abusivos como humilhações, chantagens e intimidações; “Reaja”, para situações que envolvem controle, agressões físicas e destruição de bens; e “Alerta”, quando há risco à vida, incluindo ameaças de morte, violência sexual, cárcere e tentativa de feminicídio.

Atendimento vai além da questão jurídica

A advogada Carolina Krüger Cardoso destacou que o trabalho desenvolvido pelo CRAM segue uma política nacional de atendimento e possui atuação interdisciplinar, envolvendo diferentes áreas para auxiliar as mulheres no enfrentamento da violência.

Segundo ela, o serviço não se limita aos procedimentos jurídicos, mas busca compreender todas as necessidades da mulher, incluindo aspectos familiares, sociais e emocionais. “O atendimento não é apenas relacionado aos procedimentos jurídicos. Existe um olhar ampliado para todas as necessidades da mulher, considerando seus filhos, sua autonomia e os caminhos possíveis para reconstrução de sua vida”, afirmou.

A apresentação dos dados reforçou que a violência contra a mulher atravessa diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade e condições sociais, evidenciando a necessidade de políticas públicas permanentes de prevenção, acolhimento e proteção.