Psicóloga Maria Aparecida Bofill e enfermeira Tanise Jacques explicam que a transmissão vertical é quando a mãe passa o vírus para o filho

O Ministério da Saúde e a Secretaria Estadual de Saúde estarão em Uruguaiana nesta quinta-feira, 5/11, para realizar uma vistoria no setor de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria Municipal de Saúde. Este será o último passo para que o município conquiste um selo inédito, a certificação da eliminação da transmissão vertical de HIV.

A coordenadora do setor, psicóloga Maria Aparecida Bofill, e a enfermeira Tanise Jacques explicam que a transmissão vertical é quando o HIV passa de mãe para filho, seja durante a gestação, no parto ou na amamentação.

“Estamos pleiteando um selo de boas práticas na eliminação da transmissão vertical do HIV. É um reconhecimento de zero transmissão vertical no município. É uma validação, um reconhecimento de que o município atinge essas metas de eliminação da transmissão vertical através de ações de prevenção, de diagnóstico, tratamento, e de todo o seguimento da criança, do acompanhamento do pré-natal. É todo um trabalho em conjunto, tanto com o serviço especializado quanto com a rede da atenção primária à saúde”, explica Tanise.

Um reconhecimento inédito

Aparecida destaca o ineditismo. “Esta será a primeira vez que o município receberá esse reconhecimento. Na verdade, somos o primeiro município da 10ª Coordenadoria Regional de Saúde pleiteando essa certificação”, afirma.

Ela lembra que o processo é longo e difícil. “Primeiro, você tem que ter os indicadores. O estado e o Ministério da Saúde indicam quais municípios podem se candidatar e a quais selos podem concorrer. E aí tem um processo bem longo, com avaliações, vários questionários e vários critérios que o Ministério coloca. Em julho a gente já se candidatou e entramos no processo de levantamento de dados. Isso tudo gera um relatório que é encaminhado ao estado e depois ao Ministério da Saúde, que avalia. E o nosso foi aprovado”, conta.

Aparecida cita também a evolução dos registros. “Há questões de controle social, de testagem, de informação qualificada através dos prontuários eletrônicos, que é uma questão que evoluiu muito. Há alguns anos não conseguimos porque, embora tivéssemos todas essas informações, ela não estava registrada. Então a gente morria na praia quando chegava lá no final.”

O que será avaliado

Segundo Tanise, a visita serve para validar o que já foi enviado. “Como já temos o relatório aprovado, a etapa seguinte é o Ministério fazer uma visita técnica para comprovação desses dados. Essa comissão vem para avaliar se todas as informações que a gente repassou realmente estão ok e confirmar isso.”

Vários eixos são avaliados, entre eles diagnóstico e tratamento, e cada número informado precisa de comprovação. “Se eu digo que tantas gestantes foram testadas durante o pré-natal, tenho que comprovar esse dado. Pode ser um caderno em que a unidade registra o teste das gestantes. Isso é válido, é um documento do que foi feito”, explica a enfermeira. Os avaliadores verificam se o registro realmente acontece e de que forma, e a qualidade do serviço. “Eles também podem fazer apontamentos de melhorias para o município”, acrescenta Aparecida.

A programação começa com uma reunião no Salão Nobre da Prefeitura, onde cada serviço é apresentado à equipe do Ministério. Depois vêm as visitas técnicas, com reunião com toda a rede: serviço especializado, atenção primária, vigilância epidemiológica, laboratórios, maternidade e Consultório na Rua. Este último foi pedido pelos avaliadores por atender gestantes e mulheres em situação de extrema vulnerabilidade. “Eles querem saber como a logística acontece dentro do município, e também a parte de controle social, de direitos dessa população mais vulnerável, com quem o município vem articulando as ações”, conta Maria Aparecida.

Uma das visitas será na Estratégia de Saúde da Família 7, em um bairro grande e de alta vulnerabilidade social. As entrevistas, com profissionais e usuários, são individuais. “Nem nós, nem o pessoal do estado, podemos interferir ou estar ali no momento. É uma avaliação bem criteriosa”, afirma Tanise.

A estrutura por trás do resultado

O cuidado começa no posto de saúde e segue pela rede. “Funciona como uma rede integrada que começa no posto de saúde. É um cuidado compartilhado com o serviço especializado e a atenção primária”, explica Maria Aparecida.

Desde a identificação da gestação, a mulher é acompanhada pelos dois serviços, e depois pela maternidade, no parto. “O registro do tratamento e dos exames da mãe precisa estar disponível no parto, para que se dê seguimento à criança”, diz Aparecida. O bebê sai da maternidade com consulta agendada, como prevê o protocolo ministerial, e segue em acompanhamento até receber alta do serviço.

A testagem é um dos pilares. “O Ministério pede dois exames durante a gestação. No município, pelo protocolo municipal, a gente pede três: primeiro, segundo e último trimestre. E todas fazem de novo no hospital, antes do parto”, detalha. Os testes rápidos detectam HIV, sífilis e hepatites B e C. “Não precisa de pedido médico, basta a pessoa querer fazer o teste”, reforça a psicóloga. Para alcançar quem não chega à rede, os agentes comunitários de saúde fazem busca ativa de mulheres em idade fértil e gestantes.

A fórmula infantil gratuita também integra a estratégia de prevenção: mães com HIV não amamentam, e o serviço fornece o leite até um ano de idade. “Isso é uma estratégia de prevenção, porque não há segurança de que a amamentação não transmita o vírus, mesmo em mulheres com carga viral não detectada”, explica Tanise. Antes da alta, a mulher recebe na maternidade medicação para interromper a produção de leite, distribuída pelo SUS. As crianças são acompanhadas por infectopediatra, e a orientação inclui preparo da fórmula e acompanhamento de peso.

O serviço especializado também sustenta a rede. “Daqui sai a distribuição dos insumos, como testes e leite, para as unidades e o hospital. E também o matriciamento, que é a capacitação dos profissionais. Quando há troca de equipe, a gente capacita a execução dos testes, reforça o sigilo e a ampliação da oferta”, conta Maria Aparecida.

Outra mudança recente foi a chegada de assistentes sociais à atenção primária. “Antes isso não era uma realidade no município, e hoje elas se articulam com a Secretaria de Ação Social”, completa.

Resultados e desafios

“O último caso de transmissão vertical que não foi por amamentação faz nove anos”, afirma Maria Aparecida. Para ela, o avanço é coletivo. “Melhorou muito graças a esse trabalho e a esse olhar, que não é só do serviço especializado, mas de toda a rede, pública e privada.”

Os desafios continuam. “O pré-natal do parceiro ainda é um ponto frágil no município. Não adianta a mulher tratar se o parceiro não tratar”, alerta a profissional. Os diagnósticos tardios também preocupam. “Melhoramos muito os indicadores, mas ainda temos pessoas que descobrem tarde porque, em nenhum momento em que acessaram a rede, foi ofertado o teste”, diz. O estigma pesa: “O resultado positivo gera insegurança em qualquer pessoa. O medo de saber, de preconceito e discriminação, ainda é muito forte”, relata a psicóloga. Por isso o atendimento inclui acompanhamento psicológico.

A mensagem final é de continuidade. “É um trabalho de formiguinha. A gente não pode pensar nisso só no Dia Mundial de Luta contra a Aids, em 1º de dezembro. Tem que pensar todos os dias”, diz Maria Aparecida. A orientação é que toda a população se teste ao menos uma vez por ano, e que mulheres mantenham a testagem durante a gestação e a amamentação.