O número de mulheres assassinadas no Brasil apresentou redução em 2024, mas os indicadores ainda revelam um cenário de preocupação, especialmente diante da permanência da violência doméstica e da possibilidade de subnotificação dos casos. As informações constam no Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Conforme o levantamento, 3.642 mulheres foram vítimas de homicídio no país em 2024, o equivalente a uma taxa de 3,4 mortes para cada 100 mil mulheres. O resultado representa uma diminuição de 6,7% em relação ao ano anterior, consolidando uma tendência de queda observada em parte dos estados brasileiros. Apesar desse recuo, o volume absoluto de casos permanece alarmante e evidencia a persistência da violência letal de gênero no país: entre 2014 e 2024, 46.336 mulheres foram assassinadas no Brasil.
Ao longo de 2024, 19 unidades da federação registraram redução nos índices de homicídios femininos, entre elas o Rio Grande do Sul. Em contrapartida, sete estados apresentaram crescimento das taxas, evidenciando que a violência letal ainda se distribui de forma desigual pelo território nacional, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.
Perfil das mulheres vítimas de violência no Estado
No Rio Grande do Sul, os indicadores acompanham a tendência nacional de diminuição da violência letal contra mulheres. Em 2024, foram registrados 201 homicídios femininos, contra 224 no ano anterior, representando redução de 10,3%.
A queda também pode ser observada em períodos mais longos. Em comparação com 2019, quando foram contabilizadas 236 mortes, a diminuição chega a 14,8%. Considerando a série histórica iniciada em 2014, quando o Estado registrou 250 assassinatos de mulheres, a redução acumulada alcança 19,6%.
A taxa estadual fechou 2024 em 3,5 homicídios para cada 100 mil mulheres, índice bastante próximo da média brasileira, de 3,4. O comportamento histórico demonstra uma redução consistente após o pico registrado em 2016, quando a taxa chegou a 5,4 mortes por 100 mil mulheres. Desde então, o indicador vem apresentando retração, atingindo 3,9 em 2023 e 3,5 em 2024, uma diminuição de 20,5% ao longo da década.
Desigualdade racial permanece presente
Embora os indicadores gerais apontem melhora, o Atlas evidencia que a violência letal continua afetando de maneira distinta os diferentes grupos raciais. Entre as mulheres negras, categoria que reúne pretas e pardas, foram registrados 38 homicídios no Rio Grande do Sul em 2024.
A taxa ficou em três mortes por 100 mil mulheres negras, representando uma redução de 21,1% em relação ao ano anterior. Na análise de longo prazo, a queda é ainda mais expressiva. Desde 2019, a taxa diminuiu 33,3%, enquanto na comparação com 2014 a redução chega a 44,4%.
Já entre mulheres não negras, grupo composto por brancas, amarelas e indígenas, foram contabilizados 163 homicídios em 2024. A taxa foi de 2,3 mortes para cada 100 mil mulheres, com redução de 5,8% frente a 2023.
Apesar de o número absoluto de vítimas ser maior entre mulheres não negras, reflexo da composição demográfica gaúcha, o estudo mostra que as mulheres negras continuam apresentando maior risco proporcional de serem vítimas de homicídio. Mesmo com a queda registrada na última década, a taxa de mortalidade entre negras permanece superior à observada entre as demais mulheres.
Violência muda conforme a idade das vítimas
Além dos homicídios, o Atlas analisou as notificações de violência doméstica e intrafamiliar registradas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), revelando que os tipos de violência variam conforme a faixa etária.
As crianças de até nove anos concentram o maior percentual de notificações, respondendo por 16,7% dos registros nacionais. Nessa fase da vida, a negligência aparece como a principal forma de violência, responsável por mais da metade das ocorrências, enquanto a violência sexual ocupa a segunda posição. Já entre adolescentes de 10 a 14 anos, a violência sexual passa a predominar, respondendo por 45,5% dos registros.
A partir dos 15 anos até os 69 anos, a violência física é a forma de agressão mais frequente. O maior percentual ocorre entre mulheres de 20 a 24 anos, faixa em que ela representa 53,2% das notificações. O estudo também aponta que, durante a vida adulta, a violência psicológica permanece presente, variando entre 12% e 19,9% dos casos, além da ocorrência simultânea de diferentes formas de violência.
Entre as mulheres idosas, o cenário volta a mudar. A partir dos 70 anos, a negligência retoma a liderança entre os tipos de violência. Nas vítimas com 80 anos ou mais, ela corresponde a 57,2% das notificações, tornando-se a principal forma de agressão registrada nessa faixa etária.
Feminicídio segue como desafio
Embora os homicídios de mulheres tenham apresentado redução no país, os indicadores mostram que a violência praticada dentro das residências continua sendo um dos principais desafios no enfrentamento ao feminicídio.
De acordo com o Atlas da Violência 2026, 35,2% dos homicídios de mulheres registrados em 2024 ocorreram dentro de residências, mesmo percentual observado em 2023. Na série histórica, o índice cresceu de 26,5% em 2014 para 35,2% em 2024, um aumento de 8,7 pontos percentuais ao longo da década.
O estudo também aponta que a participação dos feminicídios entre o total de homicídios de mulheres registrados pelas estatísticas policiais aumentou de forma contínua nos últimos anos. Em 2015, os feminicídios representavam 9,4% dos homicídios femininos. Esse percentual passou para 21,9% em 2016, 28,3% em 2018, 33,5% em 2019, 37,5% em 2023 e alcançou 40,3% em 2024, o maior índice da série histórica.
Segundo os pesquisadores, como grande parte dos homicídios ocorridos dentro de casa é praticada por companheiros, ex-companheiros ou familiares, a estabilidade desse indicador reforça que a violência doméstica continua sendo um dos principais fatores associados aos casos de feminicídio no Brasil, apesar da redução dos homicídios femininos em geral.
Subnotificação pode esconder dimensão real da violência
Outro aspecto destacado pelo Atlas da Violência é a possibilidade de que os números oficiais ainda estejam abaixo da realidade. Os pesquisadores alertam para a existência dos chamados “homicídios ocultos”, situações em que mortes violentas acabam classificadas como óbitos por causa indeterminada ou sem definição suficiente para serem contabilizadas nas estatísticas oficiais.
Segundo as estimativas apresentadas pelo estudo, enquanto a taxa oficialmente registrada em 2024 foi de 3,4 homicídios por 100 mil mulheres, o índice corrigido pode alcançar 4,4 mortes por 100 mil, indicando que a violência letal contra mulheres pode ser significativamente maior do que os registros disponíveis revelam.
Para os pesquisadores, essa diferença demonstra a necessidade de aprimorar os sistemas de investigação e de registro de óbitos, garantindo maior precisão nas estatísticas utilizadas para orientar políticas públicas.


