A Polícia Civil deflagrou, na segunda-feira, 29/6, a Operação Placebo, uma ofensiva coordenada pela Delegacia de Polícia de São Gabriel para desarticular uma organização criminosa suspeita de atuar em fraudes envolvendo a aquisição e o fornecimento de medicamentos de alto custo destinados ao tratamento de pacientes com câncer, financiados pelo poder público.
Ao todo, foram cumpridos 57 mandados de busca e apreensão em municípios do Rio Grande do Sul, entre eles São Gabriel, Rosário do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Sapiranga, Campo Bom, Canoas, Taquara, Porto Alegre, Gravataí e Tramandaí. As diligências também se estenderam aos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.
Durante a operação, um dos principais alvos da investigação foi preso em flagrante. Conforme a Polícia Civil, os agentes encontraram, na residência do suspeito, diversas caixas de medicamentos que apresentavam indícios de adulteração e possível falsificação. Além das apreensões realizadas em São Gabriel, equipes localizaram medicamentos e outros materiais considerados relevantes para as investigações em cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre.
As investigações apontam que o grupo teria estruturado um esquema para obter lucro ilícito por meio da manipulação de ações judiciais voltadas à compra de medicamentos de alto valor.
Segundo o delegado Daniel Severo, as evidências indicam que empresas ligadas entre si eram utilizadas para criar uma falsa concorrência durante a apresentação de orçamentos à Justiça, direcionando as contratações e elevando artificialmente os valores pagos pelo poder público. “Segundo os elementos colhidos até o momento, o grupo utilizaria empresas vinculadas entre si para simular concorrência em orçamentos apresentados ao Poder Judiciário, direcionando contratações e elevando artificialmente os valores pagos com recursos públicos”, explicou o delegado.
As apurações também identificaram indícios da existência de empresas de fachada e da circulação de medicamentos com suspeita de adulteração ou falsificação. O caso começou a ser investigado após um profissional da área farmacêutica perceber irregularidades em um medicamento utilizado no tratamento de câncer, observando diferenças nas embalagens e características incompatíveis com os produtos originais.
De acordo com a Polícia Civil, o esquema contaria com diferentes núcleos de atuação, responsáveis pela captação de pacientes, encaminhamento para processos judiciais e comercialização dos medicamentos, demonstrando uma estrutura organizada voltada ao desvio de recursos destinados à saúde pública.
Por decisão judicial, foi determinado o bloqueio de aproximadamente R$ 2,5 milhões em bens e valores dos investigados, medida que busca assegurar eventual ressarcimento aos cofres públicos em caso de condenação.
Até o momento, os investigadores identificaram 39 possíveis vítimas da fraude. Parte dessas pessoas morreu durante o tratamento, circunstância que, segundo a polícia, aumenta a gravidade das suspeitas e seguirá sendo analisada ao longo da investigação.
O titular da Polícia Civil de São Gabriel destacou a complexidade do caso e os impactos das irregularidades investigadas. “Estamos diante de uma investigação extremamente sensível, que envolve recursos públicos destinados ao tratamento de pessoas em situação de elevada vulnerabilidade. As evidências reunidas apontam para uma estrutura organizada que, em tese, teria transformado a judicialização da saúde em um mecanismo de obtenção de lucro ilícito. A suspeita de comercialização de medicamentos adulterados ou falsificados torna os fatos ainda mais graves, pois ultrapassa a questão patrimonial e alcança diretamente a saúde e a vida dos pacientes”, afirmou Severo.
Como as ordens judiciais foram executadas simultaneamente em 11 municípios gaúchos e em outros quatro estados, a Polícia Civil informou que o levantamento completo dos materiais apreendidos ainda está em andamento. A expectativa é que medicamentos, documentos, bens e valores recolhidos sejam submetidos a uma análise detalhada nos próximos dias.
As investigações prosseguem, e a corporação não descarta o surgimento de novos suspeitos, a identificação de outras vítimas e a descoberta de novas frentes de atuação da organização criminosa.


