A busca por voluntários para integrar um dos maiores estudos sobre doenças neurodegenerativas do país já está em andamento em Uruguaiana. O município faz parte da Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas (IB-BioNeuro), pesquisa que pretende validar exames de sangue capazes de auxiliar no diagnóstico e no acompanhamento de doenças como o Alzheimer. A mobilização é voltada para pessoas com 50 anos ou mais, alfabetizadas e que não apresentem problemas de memória.
A pesquisa é coordenada nacionalmente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e, em Uruguaiana, conta com a parceria da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). O estudo será desenvolvido em aproximadamente dez municípios gaúchos e pretende reunir cerca de 3 mil participantes em todo o Estado.
No município, a coordenação regional está sob responsabilidade do professor Dr. Vanderlei Folmer, da Unipampa, enquanto as atividades locais são conduzidas pela biomédica Dra. Kellen Mariane Athaide Rocha.
Neste momento, a equipe concentra esforços na mobilização da comunidade para ampliar o número de participantes. As inscrições e as coletas estão sendo realizadas nas unidades de saúde do município, sem necessidade de um período específico para cadastramento.
A biomédica explica onde os interessados podem procurar atendimento nas Estratégias de Saúde da Família (ESFs) 14 e 19. “Aqui em Uruguaiana as coletas estão acontecendo na ESF 14, do bairro Tabajara Brites, pela parte da manhã e, à tarde, ocasionalmente estou na ESF 19 do bairro São João para receber inscrições de voluntários”, explica.
Kellen também esclarece que não existe um prazo curto para adesão ao estudo. Segundo ela, o processo será contínuo até meados do próximo ano, acompanhando a realização das coletas. “Vale lembrar que não há período de inscrições. Elas serão feitas de forma contínua até metade do ano que vem e acontecerão juntamente com as coletas, pois precisamos de, no mínimo, 300 pessoas por cidade”, destaca.
O principal objetivo da pesquisa é validar biomarcadores sanguíneos para o Alzheimer. Biomarcadores são substâncias presentes na corrente sanguínea que podem indicar alterações relacionadas à doença antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos.
Após a coleta, as amostras de sangue passarão por armazenamento inicial na Secretaria Municipal de Saúde e, posteriormente, serão encaminhadas ao Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia da Ufrgs, em Porto Alegre, onde serão analisadas.
Caso essa tecnologia seja validada, ela poderá contribuir para que médicos tenham uma ferramenta mais acessível para identificar a doença em estágios iniciais, ampliar a precisão dos diagnósticos e facilitar o acesso da população a exames pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Tecnologia de alta sensibilidade
As análises serão realizadas utilizando o equipamento Simoa HD-X, considerado uma das tecnologias mais sensíveis atualmente disponíveis para esse tipo de investigação.
O sistema emprega a técnica conhecida como Single Molecule Array (Simoa), capaz de detectar concentrações extremamente pequenas de proteínas presentes no sangue. Entre elas estão biomarcadores associados ao Alzheimer, como fragmentos da proteína beta-amiloide e diferentes formas da proteína tau, que refletem processos de degeneração das células nervosas.
Essa tecnologia representa um avanço em relação ao método tradicionalmente utilizado em laboratórios, o ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay). Embora também utilize anticorpos para identificar proteínas específicas, o ELISA analisa o conjunto das moléculas presentes na amostra, o que pode dificultar a identificação de biomarcadores quando eles estão em concentrações muito baixas. Já o Simoa HD-X consegue detectar essas proteínas com sensibilidade muito superior, ampliando a precisão dos resultados.
O IB-BioNeuro reúne universidades, hospitais, pesquisadores e unidades de saúde de diferentes regiões do país para padronizar os processos de coleta, armazenamento e análise das amostras, além de reunir informações clínicas dos participantes.
A expectativa é que, após a conclusão da pesquisa e a validação dos resultados, esse novo modelo de exame possa futuramente ser incorporado ao SUS, ampliando o acesso da população ao diagnóstico precoce das doenças neurodegenerativas.


