Patrão do Sinuelo do Pago, Ivoné Colpo, destaca mudanças na preparação da entidade para receber novos públicos. Créditos: arquivo pessoal.

A cultura gaúcha, presente nos costumes, na gastronomia, na música, na dança e nas vivências dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), começa a ser trabalhada também como possibilidade de desenvolvimento turístico. Em Uruguaiana, o CTG Sinuelo do Pago integra o Projeto Vivências de Galpão, iniciativa-piloto que busca transformar elementos autênticos do tradicionalismo em experiências capazes de receber visitantes e gerar novas oportunidades para as entidades. 

Desenvolvido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), em parceria com a Secretaria de Estado do Turismo (Sedac), o programa reúne 32 entidades tradicionalistas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. O Sinuelo do Pago é o único representante da Fronteira Oeste e da 4ª Região Tradicionalista. 

Ao longo do projeto, já foram realizadas 120 atividades presenciais e on-line, com a participação de 761 pessoas entre as ações desenvolvidas. O número supera em 88,75% a meta inicialmente estabelecida, de 320 participantes. A programação envolve palestras, seminários, demonstrações, avaliações e outras atividades voltadas à preparação das entidades para trabalhar com o turismo. 

Em contato com o CIDADE, o patrão do CTG Sinuelo do Pago, Ivoné Colpo, explicou que a entidade tomou conhecimento da iniciativa durante a mobilização realizada pelo MTG e pelo Governo do Estado para ampliar a atuação turística dos espaços tradicionalistas. 

Segundo ele, o Sinuelo conta com uma equipe responsável pelo acompanhamento do projeto e precisou apresentar uma série de documentos para participar da seleção. “Imediatamente, nós enviamos tudo o que eles precisavam. Nós montamos um projeto e enviamos toda a documentação: todas as negativas, toda a parte contábil, as prestações de contas. Assim como se fosse uma empresa normal, grande, que solicita algum tipo de auxílio ou financiamento”, relata. 

De acordo com Colpo, a documentação apresentada contribuiu para que a entidade fosse selecionada. “Nós fomos contemplados porque eles acharam que nós ficamos melhor classificados em todos esses pedidos que eles fizeram”, acrescenta. 

Apesar de já estar envolvido nas atividades há mais de dois meses, o projeto ainda está em fase de implementação dentro do Sinuelo. A metodologia é dividida em etapas e inclui capacitações, demonstrações e eventos coordenados pelo MTG e pela equipe responsável pela execução da iniciativa. 

O cronograma também prevê novas atividades. Depois de três palestras já realizadas, uma nova capacitação está prevista para o dia 30 de setembro. “As palestras e seminários quem administra é o MTG junto com a Sedac. Fizemos três e, agora, acabo de receber do projeto que dia 30 de setembro nós temos mais uma palestra. Todas essas palestras são qualificação de turismo para nós operarmos dentro do CTG”, explica o patrão. 

Uma das etapas do Vivências de Galpão prevê que cada entidade participante desenvolva e apresente um produto próprio, baseado nas características culturais de sua região. 

Em Uruguaiana, o Sinuelo do Pago escolheu a gastronomia para apresentar uma experiência ligada à identidade da Fronteira Oeste. No domingo, 13/9, a entidade realizou o jantar “Assado de Fronteira”, atividade que serviu como demonstração do produto elaborado para o projeto. 

A proposta parte de uma preparação diferente do churrasco tradicional, com carne ovina temperada de maneira própria, legumes assados e utilização de trempes, em uma forma de preparo que guarda semelhanças com costumes gastronômicos do Uruguai e da Argentina. “É um assado diferente: ele é feito nas trempes, semelhante aos do Uruguai e da Argentina. A carne ovina é temperada diferente, outros legumes são assados juntos. E um pouco diferente do que churrasco”, detalha Colpo. 

A experiência também passou por avaliação técnica. Conforme o patrão, um profissional acompanhou a atividade e os participantes preencheram formulários utilizados pela organização do projeto para avaliar a experiência apresentada. 

Para Colpo, uma das principais transformações proporcionadas pelo projeto está na possibilidade de o CTG ampliar o público que tradicionalmente frequenta suas atividades. 

Segundo ele, muitos dos eventos realizados pela entidade foram historicamente pensados para os próprios tradicionalistas. Com o Vivências de Galpão, a proposta passa a considerar também visitantes que não possuem ligação direta com o movimento tradicionalista ou que vêm de outras regiões do país. “Nós fizemos tudo direcionado para os nossos tradicionalistas, não para turistas de fora. Isso sempre foi assim e continua sendo assim. As nossas festas campeiras, tudo isso é direcionado para quem participa, tradicionalistas”, afirma. 

Agora, conforme o patrão, a entidade precisa adaptar suas estruturas e formas de atendimento para receber um público diferente. “Agora nós temos um projeto que nos qualifica a receber pessoas de outros segmentos da sociedade. E nem são gaúchos; são pessoas que vêm de fora do Estado do Rio Grande participar de algumas coisas aqui. Então, nós temos que nos adaptar a eles também para bem atendê-los”, completa. 

Quatro etapas orientam o projeto 

O Vivências de Galpão foi criado como um projeto-piloto para identificar as características de cada entidade e desenvolver uma metodologia que possa ser aplicada futuramente em outros espaços tradicionalistas. 

O trabalho é dividido em quatro etapas: descobrir, transformar, formatar e sustentar. 

Na primeira fase, são levantadas as potencialidades culturais de cada entidade. Depois, o trabalho passa por temas como empreendedorismo, planejamento, marketing e gastronomia. Na terceira etapa, as experiências são estruturadas, testadas e avaliadas. Por fim, entram questões relacionadas à elaboração de projetos, captação de recursos e melhorias estruturais. 

Entre as ações previstas na etapa de sustentação está o repasse de R$ 50 mil para infraestrutura das entidades participantes, condicionado ao cumprimento das etapas e exigências estabelecidas pelo regulamento. 

No caso do Sinuelo do Pago, Colpo afirma que o recurso ainda não foi recebido, pois a entidade precisa concluir todas as fases previstas. “Além de nos ensinar e nos dar a oportunidade de receber turistas de fora do movimento, eles ainda nos dão uma verba para manutenção de espaço e algumas coisas mais. Mas não recebemos nada ainda, porque nós temos que completar todas as etapas exigidas no regulamento. Então nós ainda não recebemos dinheiro, estamos trabalhando, nos qualificando”, destaca. 

Identidade própria 

A proposta do projeto parte do entendimento de que o Rio Grande do Sul não precisa criar uma identidade para o turismo. O objetivo é identificar manifestações culturais que já existem e organizá-las para que possam ser vivenciadas por moradores e visitantes. Por isso, as 32 entidades participantes não seguem necessariamente um mesmo modelo de experiência. A metodologia é aplicada de maneira a encontrar aquilo que diferencia cada localidade e cada CTG. 

Entre as possibilidades identificadas estão experiências relacionadas à gastronomia, à história, à música, à dança, à hospitalidade, aos costumes e às formas de viver o tradicionalismo. Durante as atividades, o projeto também identificou uma lacuna no segmento turístico do Estado. A ideia foi sintetizada em uma das imersões realizadas pela iniciativa: “Temos o turismo religioso, o de vinhos, e falta o do gaúcho”. 

A partir dessa perspectiva, o Vivências de Galpão busca aproximar o turismo das manifestações tradicionalistas e estruturar experiências que tenham como base aquilo que já faz parte da identidade das comunidades. 

Além do Sinuelo do Pago, participam do projeto o CTG Família Nativista, de Caçapava do Sul; CTG Lanceiros do Sul, de Cachoeira do Sul; GPF Aldebarã, de Canoas; CTG Negrinho do Pastoreio, de Caxias do Sul; ACTG Portal da Serra, de Dois Irmãos; CTG Dom Feliciano, de Dom Feliciano; GAN Anita Garibaldi, de Encantado; CTG Galpão Campeiro, de Erechim; CTG Aldeia Farroupilha, de Farroupilha; CTG Rancho Feliz, de Feliz; CTG Manotaço, de Gramado; CTG Carreteiros de Horizonte, de Horizontina; Centro de Cultura Nativa Piazito Carreteiro, de Ijuí; CTG Minuano, de Iraí; CTG Alexandre Pato e GF Bombacha Preta, de Lagoa Vermelha; CTG Felipe Portinho, de Marau; GNF Couro Cru, de Nova Esperança do Sul; CTG Querência do Prata, de Nova Prata; CTG Estância da Serra, de Osório; CTG Galpão da Boa Vontade, de Palmeira das Missões; União Gaúcha João Simões Lopes Neto, de Pelotas; 20 de Setembro CTG, de Piratini; CTG Gildo de Freitas, de Porto Alegre; CCN Sentinela do Rio Grande, de Rio Grande; CTG Passo dos Tropeiros, de Rolante; CTG Doze Braças, de Sananduva; CPF Piá do Sul, de Santa Maria; CTG Vinte de Setembro, de Santo Ângelo; DTG Polivalente, de São Jerônimo; e GAN Vaqueanos da Cultura, de Soledade.

  • Vivências de Galpão busca transformar manifestações culturais dos CTGs em experiências para moradores e visitantes. Créditos: divulgação/Projeto Vivências de Galpão.