A violência contra as mulheres permanece como um dos principais desafios sociais do país. Dados do Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em informações referentes a 2024, revelam que 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil. O levantamento também evidencia que milhares de brasileiras continuam sendo vítimas de agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais, muitas delas dentro da própria residência.
A pesquisa reúne informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde, permitindo traçar um panorama da violência letal e não letal sob a perspectiva de gênero, raça, faixa etária e território.
Entre os casos de homicídio registrados no país, as mulheres negras seguem sendo as principais vítimas. Elas representaram 68% dos assassinatos ocorridos em 2024, índice que corresponde a uma taxa de 4,0 mortes para cada 100 mil mulheres. Segundo o estudo, o risco de uma mulher negra ser vítima de homicídio foi 67% superior ao observado entre mulheres não negras, reforçando a desigualdade racial presente nesse cenário.
A taxa nacional de homicídios registrados foi de 3,4 para cada 100 mil mulheres. Quando consideradas estimativas que levam em conta possíveis subnotificações, esse índice sobe para 4,4 por 100 mil.
Violência dentro de casa
O ambiente doméstico continua sendo um dos locais de maior vulnerabilidade para as mulheres brasileiras. Conforme o levantamento, 35% dos homicídios ocorreram dentro das residências das vítimas, evidenciando que grande parte da violência acontece no espaço em que elas deveriam encontrar proteção.
Outro dado que chama atenção é que 40% dos homicídios de mulheres registrados em 2024 foram classificados como feminicídios, crime caracterizado pelo assassinato motivado pela condição de gênero.
Os estados que apresentaram as maiores taxas de homicídios de mulheres no período analisado foram Roraima, Rondônia, Ceará, Pernambuco e Bahia.
Além dos casos fatais
Além dos homicídios, o estudo demonstra que a violência contra a mulher se manifesta de diversas formas e atinge um número muito maior de vítimas. Em 2024, 293.842 mulheres receberam atendimento nos serviços de saúde em decorrência de episódios de violência não letal.
A violência doméstica concentrou a maior parte das notificações, correspondendo a 64% dos registros, o equivalente a 187.958 atendimentos. Na sequência, aparecem os casos de violência comunitária, que representaram 22% das ocorrências, seguidos pela violência mista, com 12%, e pela violência institucional, responsável por 2% dos registros.
O levantamento também revela que a reincidência é frequente. Entre as mulheres atendidas por violência doméstica e intrafamiliar, 66% relataram já terem sofrido agressões anteriormente.
Formas
As agressões físicas permanecem como a forma de violência mais recorrente registrada pelos serviços de saúde. Entretanto, os dados mostram que milhares de mulheres também são vítimas de violência psicológica, sexual, negligência e situações em que diferentes tipos de agressão ocorrem simultaneamente.
A pesquisa ainda aponta que 59% das vítimas de violência doméstica e intrafamiliar eram mulheres negras, enquanto aproximadamente 80% das ocorrências aconteceram dentro da residência da própria vítima, reforçando o caráter repetitivo e silencioso desse tipo de crime.
Idade
O estudo demonstra que as formas de violência variam ao longo da vida das mulheres e meninas. Entre crianças de até nove anos, a negligência representa mais da metade das notificações registradas pelos serviços de saúde.
Na faixa etária entre 10 e 14 anos, a violência sexual passa a ser a principal ocorrência. Já entre adolescentes e mulheres adultas, dos 15 aos 69 anos, predominam os episódios de violência física. Entre as mulheres com 70 anos ou mais, a negligência volta a ocupar o primeiro lugar entre os casos notificados.
Os dados reforçam que a violência de gênero acompanha diferentes fases da vida e exige políticas públicas específicas para cada faixa etária.
Como buscar ajuda
Especialistas destacam que a violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis. Ameaças, humilhações, controle financeiro, agressões psicológicas, violência sexual e patrimonial também configuram violações de direitos e podem anteceder episódios de maior gravidade.
As denúncias podem ser feitas de forma gratuita e sigilosa por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180, disponível 24 horas por dia. Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Brigada Militar pelo telefone 190.
As vítimas também podem procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), registrar ocorrências nas delegacias online e buscar apoio por meio do Disque 100 e da rede de proteção existente em seus municípios.


