Pesquisa integra relatório da FAO que reúne evidências científicas para orientar políticas públicas e estratégias voltadas ao uso responsável de antimicrobianos na pecuária. Créditos: divulgação/IFFar.

A professora Kátia Maria Cardinal, do Instituto Federal Farroupilha (IFFar), campus Alegrete, é uma das autoras de um capítulo publicado em um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) que aborda o uso de antibióticos na produção animal e seus impactos para a saúde e a economia. O estudo que embasa a publicação também foi divulgado na revista científica Preventive Veterinary Medicine.

O documento, intitulado The Future of Antimicrobial Use in Livestock: The Economic Cost of Action or Inaction, reúne pesquisas sobre os efeitos da utilização de antimicrobianos na pecuária, avaliando as consequências econômicas e sanitárias da adoção, ou da ausência, de medidas para controlar seu uso. A publicação busca oferecer subsídios para políticas públicas e estratégias do setor produtivo.

Conforme destaca o relatório, “os antibióticos têm tido um importante papel na proteção da saúde dos animais de produção, no seu bem-estar e na produtividade. No entanto, o uso excessivo ou incorreto pode acelerar a resistência antimicrobiana (RA), diminuindo a efetividade de medicamentos importantes para a saúde animal e humana”.

O tema também ganhou repercussão internacional após ser abordado pelo jornal britânico The Guardian, que ressaltou a possibilidade de aumento de aproximadamente um terço no consumo de antibióticos na pecuária ao longo dos próximos 15 anos, caso não sejam implementadas mudanças nos sistemas produtivos e nas regulamentações. A reportagem ainda chama atenção para os reflexos que o uso inadequado desses medicamentos pode provocar na resistência bacteriana em humanos.

A contribuição da professora do Campus Alegrete está no capítulo Global Impact of Antimicrobial Growth Promoters on Livestock Productivity, elaborado em parceria com pesquisadores ligados à FAO. O trabalho tem como base a tese de doutorado desenvolvida por Kátia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), considerada uma das mais amplas pesquisas sobre os impactos da retirada dos antibióticos promotores de crescimento (AGPs) na criação de frangos e suínos. “A minha tese de doutorado, realizada na UFRGS, foi uma das maiores pesquisas sobre os impactos da retirada dos antibióticos produtores de crescimento (AGPs, na sigla em inglês) da produção de frangos e suínos e é utilizada como base para outras pesquisas”, afirma a pesquisadora.

A investigação reúne uma revisão sistemática e uma meta-análise de alcance global, contemplando diferentes espécies animais e variados sistemas de produção. O objetivo foi ampliar as evidências científicas sobre os efeitos dos AGPs na produtividade da pecuária.

Resistência antimicrobiana

Os antibióticos promotores de crescimento são administrados em baixas doses aos animais para favorecer o desempenho produtivo, como o ganho de peso e a eficiência alimentar. Entretanto, o uso inadequado ou excessivo pode contribuir para o desenvolvimento da resistência antimicrobiana, reduzindo a eficácia de medicamentos importantes para a medicina veterinária e humana.

Segundo Kátia Cardinal, esse processo não ocorre pelo consumo da carne produzida. “O impacto não é direto e não está relacionado ao consumo da carne”, explica. “As bactérias resistentes podem sair do intestino pelas fezes do animal e chegar ao ambiente (solo, água, outros animais, insetos, e até em alimentos).”

O relatório reforça que o desafio está relacionado ao aumento de bactérias resistentes, o que pode comprometer a eficiência dos antibióticos utilizados no tratamento de infecções. Para a pesquisadora, o foco deve ser o uso responsável dos medicamentos. “A utilização correta e responsável dos AGPs é considerada segura. O problema não é o uso em si, mas o uso indiscriminado”, ressalta.

Alternativas para reduzir o uso

A pesquisa analisou 95 estudos publicados entre os anos de 2000 e 2023, reunindo informações de diferentes regiões do mundo, espécies e modelos de produção animal. Os resultados indicam que os efeitos da retirada dos AGPs variam conforme fatores como nível tecnológico das propriedades, condições sanitárias e medidas de biossegurança.

Em sistemas produtivos mais estruturados, como os encontrados no Rio Grande do Sul, a dependência desses antimicrobianos tende a ser menor devido à adoção de práticas como vacinação, manejo sanitário, nutrição adequada e melhoria do bem-estar animal.

O estudo também aponta que a redução do uso dos AGPs depende de investimentos em prevenção, incluindo ações voltadas à biossegurança, programas de vacinação, manejo eficiente e alimentação balanceada. “A retirada dos AGPs pode causar perdas produtivas temporárias, principalmente em sistemas com menor nível tecnológico, mas essas perdas tendem a diminuir à medida que os produtores adotam alternativas”, destaca Kátia.

A pesquisadora acrescenta que as conclusões do trabalho podem auxiliar produtores, médicos-veterinários, empresas e gestores públicos na definição de estratégias que conciliem produtividade e preservação da eficácia dos antibióticos.

Para a professora, a participação em uma publicação da FAO demonstra a capacidade dos Institutos Federais de desenvolver pesquisas de alcance internacional. Ela observa, no entanto, que o avanço científico na área ainda depende de investimentos para manutenção de laboratórios e estruturas experimentais. “Existe incentivo e a vontade de que os professores façam pesquisas. Porém a limitação orçamentária e a falta de manutenção de muitas instalações acabam prejudicando o desenvolvimento de boas pesquisas na área de produção animal”, conclui.