Cenário observado no município acompanha tendência nacional. Créditos: Jorge Bernal/AFP.

Os indicadores criminais relacionados à violência contra a mulher em Uruguaiana voltaram a acender o alerta em abril de 2026. Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) mostram aumento em ocorrências consideradas mais graves, como lesão corporal e feminicídio tentado, mesmo diante da redução em alguns outros crimes monitorados.

O levantamento faz parte do acompanhamento mensal realizado pela pasta estadual para medir os índices de criminalidade e orientar ações de enfrentamento à violência doméstica e familiar.

Entre os dados que mais chamam atenção está o registro de um caso de feminicídio tentado neste ano. Em abril de 2025, nenhuma ocorrência desse tipo havia sido contabilizada no município, o que representa aumento de 100%. O feminicídio tentado ocorre quando há intenção de matar uma mulher motivada por questões de gênero, mas a morte não se concretiza por circunstâncias alheias à vontade do agressor.

Outro dado preocupante envolve os casos de lesão corporal. Em abril de 2025, Uruguaiana havia registrado 13 ocorrências. Neste ano, o número subiu para 16, representando aumento de 23,1%.

Já os registros de ameaça apresentaram retração no comparativo anual. Em abril de 2026, foram contabilizados 18 casos, enquanto no mesmo período do ano passado haviam sido 28 ocorrências, uma redução de 35,7%. Os crimes de estupro não tiveram registros neste mês, segundo os dados da SSP. Em abril de 2025, um caso havia sido comunicado às autoridades.

Os indicadores também apontam ausência de feminicídios consumados tanto em 2025 quanto em 2026. O feminicídio consumado é caracterizado pelo assassinato de uma mulher em contexto de violência de gênero, geralmente associado à violência doméstica, familiar ou ao menosprezo à condição feminina.

Subnotificação

Apesar da diminuição observada em parte dos indicadores oficiais, órgãos de proteção alertam que os números podem não representar integralmente a realidade da violência contra a mulher.

A subnotificação segue sendo considerada um dos principais desafios no enfrentamento desse tipo de crime. Muitas vítimas deixam de procurar ajuda ou registrar ocorrência por medo de represálias, dependência emocional e financeira, vergonha ou dificuldades no acesso à rede de proteção. O fenômeno conhecido como “cifra negra” corresponde justamente à diferença entre os casos efetivamente ocorridos e aqueles que chegam ao conhecimento das autoridades.

Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão o receio da revitimização, a descrença no sistema de justiça, a burocracia institucional, a falta de acolhimento adequado e o desconhecimento sobre os mecanismos previstos na Lei Maria da Penha. Além disso, o isolamento social, o julgamento moral e a pressão exercida pelos agressores dificultam que muitas mulheres consigam romper o ciclo de violência.

Realidade nacional

O cenário observado em Uruguaiana acompanha uma realidade enfrentada em diferentes regiões do país. No Rio Grande do Sul, os casos de feminicídio registrados pela SSP tiveram redução de 45%, passando de 11 para seis ocorrências no comparativo recente. Ainda assim, os números seguem elevados. Somente entre janeiro e maio de 2026, o Estado já contabilizou mais feminicídios do que no mesmo período de 2025, quando haviam sido registrados 30 casos.

Em nível nacional, os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam crescimento de 7,5% nos feminicídios no primeiro trimestre de 2026. Conforme o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o Brasil registrou 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março deste ano, em média de um caso a cada 5 horas e 25 minutos.

São Paulo lidera o ranking nacional, com 86 mortes registradas no período. Em seguida aparecem Minas Gerais, com 42 casos; Paraná, com 33; Bahia, com 25; e o Rio Grande do Sul, com 24 feminicídios contabilizados. Os dados também mostram que janeiro foi o mês mais violento para as mulheres no primeiro trimestre de 2026, com 142 vítimas. Fevereiro registrou 123 casos, enquanto março voltou a apresentar crescimento, chegando a 134 feminicídios.

Disque denúncia

A violência contra a mulher pode ocorrer de diferentes formas e nem sempre deixa marcas visíveis. Ameaças, agressões psicológicas, violência física, patrimonial e sexual fazem parte do ciclo enfrentado por milhares de vítimas diariamente.

No Brasil, denúncias podem ser realizadas de forma anônima pela Central de Atendimento à Mulher, por meio do telefone 180, disponível 24 horas por dia. Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Brigada Militar pelo 190. Também é possível buscar apoio pelo Disque 100, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e pelos serviços digitais oferecidos pelas delegacias online.