Município registrou dois casos de feminicídio tentado em maio de 2026; no mesmo período do ano passado não houve ocorrências créditos: ilustração/iStock.

Os indicadores de violência contra a mulher divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) acenderam um sinal de alerta em Uruguaiana. Os dados referentes ao mês de maio de 2026 revelam crescimento em alguns dos principais crimes monitorados, especialmente nos casos de feminicídio tentado e ameaças, quando comparados ao mesmo período do ano passado.

O levantamento integra o acompanhamento mensal realizado pelo Estado para subsidiar ações de prevenção e enfrentamento à violência de gênero. O dado que mais chama atenção é o surgimento de casos de feminicídio tentado em maio deste ano. Em igual período de 2025, nenhuma ocorrência havia sido contabilizada. Já em 2026, dois casos foram registrados.

O feminicídio tentado ocorre quando há a intenção de matar uma mulher em razão de sua condição de gênero ou em contexto de violência doméstica e familiar, mas o crime não se consuma devido a fatores externos, como a intervenção de terceiros ou atendimento médico imediato. Embora o número absoluto seja pequeno, a presença de ocorrências desse tipo representa um agravamento da violência e reforça a necessidade de atenção às situações de risco.

Outro indicador que apresentou elevação foi o de ameaças contra mulheres. Em maio de 2025, foram contabilizados 21 registros. No mesmo mês deste ano, o número subiu para 25 ocorrências, representando aumento de 19,05%.

Os registros de estupro mantiveram-se no mesmo patamar nos dois anos analisados. Tanto em maio de 2025 quanto em maio de 2026, foram notificadas três ocorrências.

Entre os indicadores monitorados, apenas os casos de lesão corporal registraram redução no comparativo anual. Em maio de 2025, o município contabilizou 20 ocorrências desse tipo. Já em maio deste ano, foram 14 registros, o que representa uma diminuição de 30%.

Assim como ocorreu em maio de 2025, Uruguaiana não registrou casos de feminicídio consumado em maio de 2026. O crime é caracterizado pelo assassinato de uma mulher motivado por razões da condição de sexo feminino, geralmente associado à violência doméstica, familiar ou ao menosprezo e discriminação de gênero.

A barreira da subnotificação

Mesmo com os dados oficiais servindo de referência para o monitoramento da violência contra a mulher, especialistas e órgãos de proteção alertam que os números podem não refletir toda a dimensão do problema. A subnotificação continua sendo um dos principais obstáculos para o enfrentamento desse tipo de crime. Muitas vítimas deixam de procurar ajuda por medo de represálias, dependência emocional ou financeira, vergonha, pressão familiar ou dificuldades de acesso aos serviços especializados.

Esse cenário compõe o que especialistas chamam de “cifra oculta” da violência, ou seja, a diferença entre os casos efetivamente ocorridos e aqueles que chegam ao conhecimento das autoridades.

Além disso, fatores como receio de não serem acolhidas adequadamente, medo da exposição, desconhecimento dos direitos garantidos pela Lei Maria da Penha e a própria manipulação exercida pelos agressores contribuem para que muitas mulheres permaneçam em silêncio.

Como denunciar

A denúncia é considerada uma das principais ferramentas para interromper ciclos de violência e ampliar a proteção às vítimas. Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados por meio da Central de Atendimento à Mulher, pelo telefone 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia e permite denúncias anônimas. Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Brigada Militar pelo número 190.

Também é possível buscar atendimento nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam), registrar ocorrência pela Delegacia Online ou procurar os serviços da rede municipal de proteção.

Familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho também podem colaborar ao identificar sinais de violência, incentivando a vítima a procurar ajuda e comunicando situações de risco aos órgãos competentes. O enfrentamento à violência de gênero depende não apenas da atuação das instituições, mas também do envolvimento da sociedade na proteção das mulheres.