Servidores investigados passaram por exame de corpo de delito e foram encaminhados à DPPA de Uruguaiana após o cumprimento dos mandados judiciais Créditos: Helena Biasi/JC.

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por meio do 9º Núcleo Regional – Campanha do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em ação conjunta com a Brigada Militar (BM) e a Polícia Penal, deflagrou na manhã desta quinta-feira, 11/6, a Operação Aliança Velada. A ofensiva colocou Uruguaiana no centro de uma investigação que apura a atuação de uma organização criminosa com forte influência dentro do sistema prisional gaúcho.

Entre os presos em Uruguaiana estão dois policiais penais que atuavam em unidades prisionais do município e foram alvo de prisão preventiva por suspeita de envolvimento no esquema investigado. Os servidores Clederson Lopez Guimarães, de 52 anos, e Valéria Garcia Machado da Costa, de 49, são apontados pelas investigações como integrantes de uma organização criminosa que utilizava o sistema prisional para fortalecer atividades ligadas ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros delitos. Conforme apurado, Clederson atuava no Instituto Penal de Uruguaiana (IPU), enquanto Valéria trabalhava na Penitenciária Modulada Estadual de Uruguaiana (PMEU).

Segundo o Ministério Público, os policiais penais investigados teriam facilitado o ingresso de materiais ilícitos nas unidades prisionais mediante pagamento. Além disso, seriam responsáveis por auxiliar na comunicação e em operações financeiras vinculadas ao grupo criminoso.

Após o cumprimento dos mandados, os dois servidores passaram por exame de corpo de delito na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, posteriormente, foram encaminhados para a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Uruguaiana. O CIDADE apurou que ambos deverão ser transferidos para a Penitenciária Estadual de Canoas (Pecan).

Aliança Velada

A Operação Aliança Velada integra a quarta edição da Operação Convergência Nacional RS, iniciativa do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), e teve como principal objetivo desarticular uma facção que atuava de forma estruturada desde a distribuição de drogas até a lavagem de dinheiro.

Ao todo, foram expedidos 30 mandados de prisão preventiva e 40 mandados de busca e apreensão. Dez das ordens de prisão tiveram como alvo lideranças que, segundo as investigações, continuavam comandando atividades criminosas de dentro de estabelecimentos prisionais. As ações ocorreram em Uruguaiana, Itaqui, São Borja, Charqueadas, Novo Hamburgo, Triunfo, Viamão e Porto Alegre.

O coordenador estadual do Gaeco, promotor de Justiça Rogério Meirelles Caldas, afirmou que a investigação identificou uma organização criminosa considerada extremamente violenta e com atuação consolidada na Fronteira Oeste. “A Operação Aliança Velada investiga uma organização criminosa ultraviolenta que tem sede em Itaqui e Uruguaiana. Essa organização criminosa é responsável por homicídios, tráfico e outros crimes, como lavagem de dinheiro. Tem os seus líderes dentro do sistema prisional”, afirmou.

Ainda segundo o promotor, o grupo seria resultado da união entre uma organização criminosa regional e uma facção de abrangência estadual, ampliando sua capacidade operacional e financeira. “As investigações demonstraram que essa organização era capaz de gerenciar o tráfico e outros crimes na região, além de cooptar agentes públicos da Polícia Penal por meio da corrupção, facilitando a entrada de drogas e valores nas penitenciárias”, acrescentou.

Esquema movimentou mais de R$ 55 milhões

As investigações apontam que a organização criminosa era composta por 43 integrantes distribuídos em quatro núcleos: gerencial, operacional, financeiro e de corrupção estatal. De acordo com o Ministério Público, o grupo movimentou aproximadamente R$ 55,7 milhões em apenas 16 meses. A estrutura financeira servia para sustentar o tráfico de drogas, remunerar integrantes, corromper agentes públicos e ocultar recursos obtidos de forma ilícita.

O CIDADE apurou que parte do esquema de lavagem de dinheiro utilizava uma Organização Não Governamental (ONG) ligada a um projeto social localizado no bairro Cabo Luiz Quevedo, em Uruguaiana. Uma loja também aparece entre os locais relacionados à movimentação financeira investigada.

Segundo a apuração, os recursos circulavam por meio de contas de terceiros, empresas de fachada, aquisição de veículos e imóveis e repasses realizados pela ONG, criando uma rede destinada a dificultar o rastreamento dos valores. Diante das evidências reunidas, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 27,8 milhões, além do sequestro judicial de 30 veículos e três imóveis vinculados aos investigados.

Crimes ordenados da prisão

A investigação teve início após a análise de um aparelho celular apreendido durante a Operação Vis Legis, realizada em julho de 2025. A partir do conteúdo extraído do dispositivo, os investigadores identificaram trocas de mensagens entre integrantes da facção dentro e fora do sistema prisional. As informações revelaram que lideranças encarceradas continuavam exercendo influência direta sobre as atividades criminosas.

Segundo o Ministério Público, a base operacional da organização estava concentrada em unidades prisionais de Uruguaiana, Itaqui e na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Nesses locais, ocorria a entrada irregular de celulares e drogas, além da emissão de ordens para crimes praticados fora dos presídios.

As apurações também apontam que servidores corrompidos atuavam como intermediários entre os líderes presos e os integrantes em liberdade, garantindo a continuidade das atividades da organização. “A investigação revelou um esquema estruturado, com hierarquia definida e dependência da corrupção no sistema prisional, exigindo uma resposta firme para interromper essa atuação criminosa”, destacou Caldas.

Polícia Penal se manifesta

Em nota encaminhada à imprensa, a Polícia Penal confirmou a prisão preventiva e o afastamento dos dois servidores investigados e informou que participou da operação por meio da Corregedoria-Geral da Polícia Penal (CGPP), do Grupo de Ações Especiais (Gaes) e do Departamento de Segurança e Execução Penal.

Além das prisões, a instituição realizou revistas e cumpriu mandados de busca e apreensão na Penitenciária Modulada Estadual de Uruguaiana e no Presídio Estadual de Itaqui. “A Polícia Penal reafirma seu compromisso com a legalidade, a ética e o combate permanente às organizações criminosas. A instituição não compactua com desvios de conduta e adota todas as medidas necessárias para apurar e responsabilizar eventuais irregularidades”, destacou a corporação em nota.

Balanço da operação

Até as 14h30 desta quinta-feira, 11, haviam sido cumpridos 40 mandados de busca e apreensão e efetuadas 24 prisões. Durante a ofensiva, foram apreendidos 62 celulares, 38 notebooks, oito veículos, duas armas de fogo e aproximadamente R$ 17,8 mil em dinheiro.

A operação também determinou a transferência de dois apenados considerados estratégicos para a organização criminosa para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas. Ao todo, 335 agentes participaram da ação integrada entre Ministério Público, Brigada Militar e Polícia Penal.

 

  • Celulares, notebooks, veículos, armas e dinheiro foram apreendidos durante a ofensiva realizada nesta quinta-feira, 11. Créditos das fotos: divulgação/MPRS.
    Celulares, notebooks, veículos, armas e dinheiro foram apreendidos durante a ofensiva realizada nesta quinta-feira, 11. Créditos das fotos: divulgação/MPRS.
  • Celulares, notebooks, veículos, armas e dinheiro foram apreendidos durante a ofensiva realizada nesta quinta-feira, 11. Créditos das fotos: divulgação/MPRS.