Subnotificação ainda é um dos principais desafios no enfrentamento à violência contra a mulher e destaca a importância da denúncia precoce Foto: Ilustração/Magnific

Helena Biasi

Os indicadores criminais divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) apontam mudanças no cenário da violência contra a mulher em Uruguaiana no comparativo entre junho de 2025 e junho de 2026. Embora alguns crimes tenham apresentado redução, o levantamento revela crescimento em ocorrências de maior gravidade, especialmente nos casos de lesão corporal, além do registro de feminicídio tentado e estupro, inexistentes no mesmo período do ano passado.

 

Entre os dados que mais chamam a atenção está o aumento das ocorrências de lesão corporal. Em junho de 2025 foram registrados quatro casos, enquanto no mesmo mês deste ano o número chegou a 15, representando um crescimento de 275%.

 

Outro indicador que passou a integrar as estatísticas em 2026 foi o feminicídio tentado. Após não registrar nenhuma ocorrência em junho do ano passado, o município contabilizou um caso neste ano. O mesmo cenário foi observado nos registros de estupro, que passaram de zero para uma ocorrência no período analisado.

 

Em contrapartida, os casos de ameaça contra mulher apresentaram retração. O número caiu de 14 registros em junho de 2025 para 11 neste ano, uma redução de 21,4%. Já o feminicídio consumado permaneceu zerado nos dois períodos avaliados.

 

Subnotificação ainda é realidade

 

Em conversa com o CIDADE, a coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram), Juliana Tietböhl, ressalta que os números oficiais representam apenas parte da realidade enfrentada pelas vítimas. “A subnotificação, infelizmente, ainda é uma realidade. Muitas mulheres permanecem em silêncio por medo do agressor, pela dependência econômica ou emocional, preocupação com os filhos, vergonha, culpa ou receio de represálias. Por isso, os dados oficiais representam apenas uma parcela da violência efetivamente vivenciada”, afirma.

 

Para Juliana, o crescimento dos registros de lesão corporal merece atenção, mas deve ser analisado dentro de um contexto mais amplo. “Cada registro de lesão corporal representa uma mulher que sofreu uma agressão física e um alerta de que precisamos avançar ainda mais na prevenção. Nosso compromisso é fazer com que as mulheres conheçam seus direitos, sintam-se acolhidas e procurem ajuda antes que a violência atinja níveis extremos”, destaca.

 

A coordenadora explica, entretanto, que o aumento dos registros não significa, necessariamente, que a violência tenha crescido na mesma proporção. Segundo ela, o cenário também pode refletir o fortalecimento da rede de proteção, a ampliação do acesso aos serviços especializados e o aumento da confiança das mulheres nos órgãos de segurança. Ela atribui esse resultado ao trabalho desenvolvido pelo Cram e pela Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Revid). “Esse cenário também pode refletir o fortalecimento da rede de proteção e o aumento da confiança das mulheres nos órgãos de segurança e acolhimento. Um atendimento humanizado, qualificado e integrado encoraja muitas mulheres a romperem o ciclo do silêncio e formalizarem a denúncia, permitindo que situações antes invisíveis passem a integrar os registros oficiais”, afirma.

 

Ainda conforme Juliana, a lesão corporal representa uma etapa mais grave da violência doméstica, geralmente antecedida por violências psicológica, moral, patrimonial ou sexual, previstas na Lei Maria da Penha. “Por isso, nossa maior luta é para que as mulheres não esperem a violência chegar ao corpo para buscar ajuda. O momento ideal é nos primeiros sinais de controle, ameaças, humilhações, ciúmes excessivos ou violência psicológica. Quanto mais precoce for a intervenção, maiores são as possibilidades de romper o ciclo da violência”, destaca.

 

Apesar do aumento em alguns indicadores, Uruguaiana segue sem registrar feminicídio consumado em 2026. Juliana atribui esse resultado ao trabalho conjunto da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes), Cram, Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), das secretarias municipais de Saúde e Educação, da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Patrulha Maria da Penha, Poder Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e demais instituições que integram a rede de enfrentamento. “Esse resultado demonstra que o fortalecimento da rede, a atuação integrada e a resposta rápida às situações de risco salvam vidas. Mais do que reduzir estatísticas, nosso objetivo é preservar vidas. Cada mulher que rompe o ciclo da violência representa uma vitória da própria mulher, da rede de proteção e de toda a sociedade”, finaliza.

 

Como denunciar

 

Além dos programas municipais citados por Juliana, mulheres em situação de violência podem buscar ajuda por diferentes canais. Em casos de emergência, a orientação é acionar a Brigada Militar pelo telefone 190. Também é possível registrar denúncias e receber orientações pelo Ligue 180, além do Disque 100, do aplicativo Direitos Humanos Brasil, da Delegacia Online da Polícia Civil.

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