O feminicídio também atinge meninas e adolescentes no Brasil. Em 2025, 69 pessoas com menos de 18 anos foram vítimas desse tipo de crime, segundo dados do Centro Integrado Mulher Segura (CIMS), iniciativa vinculada ao Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). O número representa cerca de 4% dos 1.561 feminicídios registrados no país durante o ano. Na prática, uma criança ou adolescente foi assassinada em razão da violência de gênero, em média, a cada seis dias.
Embora as menores de idade não estejam entre as faixas etárias com maior número de ocorrências, os dados mostram que a violência letal contra mulheres começa ainda na infância e na adolescência. Entre todas as vítimas contabilizadas em 2025, o grupo de 25 a 34 anos concentrou 463 casos, seguido pelas mulheres de 35 a 44 anos, com 398 registros. Juntas, essas duas faixas representam 56% dos feminicídios cuja idade foi identificada.
Na sequência aparecem as mulheres de 45 a 54 anos, com 247 vítimas; aquelas entre 18 e 24 anos, com 208; e as pessoas com 55 anos ou mais, que somaram 157 ocorrências. Em 19 registros, a idade da vítima não foi informada.
Perfil das mulheres
O recorte racial evidencia outra desigualdade. Das 69 meninas e adolescentes vítimas de feminicídio em 2025, 29 eram negras, sendo 26 pardas e três pretas. Elas correspondem a aproximadamente 42% do total de vítimas menores de idade. Outras 18 eram brancas, enquanto uma vítima era indígena. Em 21 casos, a raça ou cor não foi identificada.
A desigualdade também aparece entre as mulheres adultas. Considerando todas as faixas etárias, 53% das vítimas de feminicídio eram negras, de acordo com a base do CIMS. O percentual permanece superior ao de mulheres brancas na maioria das faixas etárias analisadas, chegando a 60% entre as vítimas de 18 a 24 anos.
Entre as mulheres de 25 a 34 anos, as negras representam 55% das vítimas. Na faixa etária de 35 a 44 anos, são 56%, enquanto entre 45 e 54 anos correspondem a 48%. Já entre as mulheres com 55 anos ou mais, a diferença diminui: 41% das vítimas eram negras e 40%, brancas.
Relação com o autor
Outro aspecto destacado pelo levantamento é a dificuldade de identificar a relação entre a vítima e o autor do crime. Entre os 69 feminicídios de meninas e adolescentes registrados em 2025, em 38 casos, cerca de 55%, essa informação não estava disponível.
Quando o vínculo foi registrado, aparecem diferentes tipos de relação. Companheiros foram apontados em oito casos envolvendo menores de idade, enquanto cinco ocorrências tiveram namorados como autores. Pais ou padrastos aparecem em sete registros. Também foram identificados casos envolvendo parentes, amigos ou conhecidos, ex-companheiros e ex-namorados.
A ausência de informações sobre o vínculo entre vítima e agressor representa uma limitação para a compreensão do fenômeno e para o planejamento de políticas públicas de prevenção. O levantamento considera, entre outras categorias, companheiros, ex-companheiros, namorados, familiares, pais e padrastos, além de outras relações de convivência ou proximidade.
Violência começa dentro de casa
Os dados de violência contra crianças e adolescentes também apontam para a residência como um dos principais espaços onde as agressões acontecem. Segundo registros utilizados pelo levantamento, 55% dos atendimentos relacionados à violência física contra vítimas de até 19 anos ocorreram em casa. No caso da violência sexual, o percentual chega a 63%.
A relação familiar também aparece com frequência entre os autores registrados. Pais, mães, padrastos e madrastas, somados, foram apontados como responsáveis por 45% dos registros de violência física e 38% dos casos de violência sexual envolvendo vítimas de até 19 anos. Os dados têm como fonte o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
Ameaças e lesões
Além dos casos de feminicídio, os indicadores nacionais mostram redução nos registros de alguns crimes de violência contra as mulheres nos últimos anos. Em 2023, foram contabilizados 514.422 registros de ameaça e 262.647 ocorrências de lesão corporal. No ano seguinte, os números caíram para 509.938 e 254.262, respectivamente.
Em 2025, foram registrados 292.270 casos de ameaça e 153.233 de lesão corporal. Segundo a base utilizada no levantamento, esses foram os menores números para os dois crimes desde 2020. Os dados são provenientes da Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO) e do Validador de Dados Estatísticos (VDE), integrantes do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública.
Apesar da redução nesses registros, os números de feminicídio demonstram que a violência de gênero continua produzindo mortes em diferentes etapas da vida. Ao todo, a base contabilizou 1.561 feminicídios em 2025, incluindo 69 vítimas menores de 18 anos.
Até 7 de maio de 2026, o CIMS já contabilizava 384 feminicídios no país. Desse total, 16 vítimas eram crianças ou adolescentes, indicando que a violência letal contra menores continua presente entre os registros deste ano.
O feminicídio é caracterizado como o assassinato de uma mulher motivado por razões relacionadas à condição do sexo feminino, geralmente associado a contextos de violência doméstica e familiar ou ao menosprezo e à discriminação contra a mulher. A análise dos dados reforça que o enfrentamento desse tipo de crime exige atenção às diferentes formas de violência que podem atingir meninas e mulheres ao longo da vida.


