A discussão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres brasileiras ganhou espaço em um importante evento acadêmico internacional realizado na Argentina. A advogada e coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) de Uruguaiana, Juliana Tietböhl, participou do Seminário Internacional sobre Acesso à Justiça e Transformações no Mundo do Trabalho, promovido pela Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Lomas de Zamora, em Buenos Aires.
O encontro reuniu pesquisadores, profissionais do Direito e representantes institucionais do Brasil e da Argentina para discutir temas relacionados aos direitos humanos, igualdade de gênero, relações de trabalho e acesso à Justiça.
Durante sua participação, Juliana apresentou a palestra intitulada “O peso de ser mulher no Brasil: trabalho, cuidado e violência”, trazendo ao debate internacional reflexões sobre as desigualdades que ainda marcam a realidade feminina no país. Entre os temas abordados estiveram a sobrecarga de funções desempenhadas pelas mulheres, a divisão desigual das responsabilidades familiares e os impactos da violência de gênero na vida cotidiana.
A exposição destacou a chamada dupla e tripla jornada enfrentada por milhões de brasileiras, que conciliam atividades profissionais com tarefas domésticas e cuidados de filhos, idosos e outros familiares. Também foi debatido o chamado trabalho de cuidado não remunerado, considerado essencial para a manutenção da sociedade, mas ainda pouco valorizado do ponto de vista econômico e social.
Dados apresentados durante o seminário apontaram que mulheres brasileiras dedicam significativamente mais horas semanais às atividades domésticas e de cuidado quando comparadas aos homens. A realidade argentina apresenta cenário semelhante, evidenciando que a desigualdade de gênero continua sendo um desafio compartilhado por diversos países da América Latina.
Outro tema de destaque foi o avanço dos casos de violência contra a mulher e feminicídio. O debate abordou os altos índices registrados tanto no Brasil quanto na Argentina, além das dificuldades encontradas por muitas vítimas para romper ciclos de violência, especialmente em situações de dependência financeira, vulnerabilidade social e insuficiência de mecanismos de proteção.
As discussões também incluíram uma análise das políticas públicas implementadas nos dois países. No caso brasileiro, foram abordadas iniciativas como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, os Centros de Referência de Atendimento à Mulher, os serviços de acolhimento e as medidas protetivas de urgência. Já no contexto argentino, foram discutidas legislações de proteção às mulheres e programas de assistência às vítimas, além dos desafios enfrentados pelas políticas de gênero diante das recentes transformações institucionais no país vizinho.
Mais do que apresentar estatísticas, o seminário buscou promover reflexões sobre a realidade vivenciada diariamente por mulheres que sustentam famílias, assumem responsabilidades de cuidado e, muitas vezes, convivem com situações de violência e discriminação.
Em entrevista ao CIDADE, Juliana destacou a importância de levar a pauta para um ambiente internacional de discussão. “Participar deste seminário representou uma oportunidade muito significativa para compartilhar a realidade das mulheres brasileiras em um espaço acadêmico internacional. Foi possível apresentar os desafios relacionados à violência de gênero, à sobrecarga do trabalho de cuidado e às desigualdades que ainda limitam a autonomia e a qualidade de vida de muitas mulheres”, afirmou.
Segundo ela, o intercâmbio de experiências entre especialistas dos dois países permitiu ampliar perspectivas sobre estratégias de enfrentamento à violência e promoção da igualdade de gênero. “A troca de conhecimentos entre pesquisadores, profissionais e estudantes brasileiros e argentinos mostrou que muitos dos desafios enfrentados pelas mulheres ultrapassam fronteiras. São questões que exigem cooperação internacional, fortalecimento das políticas públicas e construção de redes de apoio cada vez mais eficientes”, ressaltou.
Juliana também destacou que a participação no evento contribuiu para fortalecer a cooperação acadêmica e institucional entre Brasil e Argentina. “Levar essa discussão para um cenário internacional foi uma forma de dar visibilidade às conquistas, às lutas e aos desafios enfrentados diariamente por milhões de mulheres. A experiência reforçou a importância da pesquisa, da educação e das políticas públicas como ferramentas fundamentais para promover transformações sociais e construir uma sociedade mais justa e livre de violência”, concluiu.
Além de coordenar o Cram de Uruguaiana, Juliana Tietböhl é presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Uruguaiana, professora da Faculdade de Direito de Uruguaiana e doutoranda em Direito pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí).

