Demonstrators shield themselves behind a banner reading "Labor reform kills my freedom" from a water cannon fired by riot police during a protest called by trade unionists against the labor reform debate taking place in the National Congress in Buenos Aires on February 11, 2026. Argentine police fired tear gas and used water cannon on Wednesday to disperse demonstrators, who threw rocks and firebombs outside Congress during a Senate debate over radical labor reforms. (Photo by Luis ROBAYO / AFP)

A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou, na madrugada desta sexta-feira, 20/2,, o texto-base da reforma trabalhista proposta pelo governo do presidente Javier Milei. A votação ocorreu após um dia marcado por greve geral, protestos e forte mobilização sindical nas ruas de Buenos Aires. Foram 135 votos a favor e 115 contrários. 

Como os deputados retiraram do projeto o dispositivo que previa redução de 50% do salário em casos de acidentes ocorridos fora do ambiente de trabalho, o texto precisará retornar ao Senado da Argentina para nova análise. O objetivo do governo é sancionar a lei antes de 1º de março. 

A proposta é uma das principais bandeiras da gestão Milei. Ainda em dezembro de 2023, o presidente incluiu uma reforma trabalhista em um pacote de decretos econômicos, mas a medida foi suspensa pela Justiça no mês seguinte. O projeto atual começou a tramitar no Senado em dezembro passado e, no dia 12 de fevereiro, foi aprovado pelos senadores por 42 votos a 30, após sessão de cerca de 13 horas, sendo então encaminhado à Câmara. 

Greve geral  

A aprovação ocorreu em meio à quarta greve geral enfrentada por Milei em dois anos de governo. A paralisação foi convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) e outras centrais sindicais, que classificam a reforma como um retrocesso nos direitos trabalhistas. 

Desde as primeiras horas do dia, Buenos Aires registrava ruas vazias e comércio fechado. A paralisação atingiu fortemente o setor de transportes. A estatal Aerolíneas Argentinas cancelou 255 voos, afetando mais de 30 mil passageiros. Trens, metrôs e ônibus interromperam totalmente as operações na capital e em grandes centros urbanos. Trabalhadores portuários também aderiram ao movimento, paralisando terminais estratégicos como o de Rosário. 

O governo acionou o chamado “protocolo antipiquetes”, orientando as forças de segurança a garantir a circulação nas vias públicas. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, reforçou o alerta contra bloqueios e o governo chegou a enviar comunicados a jornalistas sobre riscos na cobertura das manifestações. Ao longo do dia, foram registrados episódios de confronto entre policiais e manifestantes. 

Corrientes 

A província de Corrientes voltou a se posicionar majoritariamente a favor do governo de Javier Milei na votação da reforma trabalhista. Na Câmara dos Deputados, os parlamentares correntinos dividiram-se, mas o placar local terminou em 4 votos favoráveis e 3 contrários ao projeto. 

Votaram a favor Virginia Gallardo, Lisandro Almirón e Federico Tournier, todos do mesmo partido de Milei, La Libertad Avanza (LLA) além de  Diógenes Gonzales, da Unión Cívica Radical (UCR).. Já os deputados do Partido Justicialista (PJ) correntino — Rubén Hadad, Nancy Sand e Christian Zulli — manifestaram-se contra a proposta. 

A província, onde está localizada a cidade de Paso de los Libres, reforçou assim apoio parcial à reforma defendida pelo Executivo nacional. Além da votação, a aproximação política pode se consolidar com a possível viagem do governador de Corrientes, Juan Pablo Valdés (UCR), aos Estados Unidos, no dia 9/3, integrando comitiva presidencial para um encontro com investidores em Manhattan, em Nova York. O evento contará com a presença de Milei e de outros governadores argentinos. 

Principais mudanças 

A reforma propõe alterações amplas nas regras trabalhistas argentinas. Entre os pontos centrais estão: 

Férias mais flexíveis, podendo ser fracionadas em períodos mínimos de sete dias e negociadas fora do período tradicional;  

Restrições a greves em setores essenciais, com exigência de manutenção de 50% a 75% dos serviços;

Ampliação do período de experiência para até seis meses, podendo chegar a oito ou 12 em alguns casos, com indenizações reduzidas;

Flexibilização da jornada, permitindo até 12 horas diárias, respeitado o descanso mínimo, com compensação de horas sem pagamento de extras;

Mudanças na negociação coletiva, priorizando acordos locais em relação a convenções nacionais;

Redução no cálculo das indenizações, excluindo 13º salário e férias, além da possibilidade de parcelamento das rescisões;

Alterações na correção de dívidas trabalhistas, que passam a ser atualizadas pela inflação mais 3% de juros anuais;

Novas regras para pagamento de salários, inclusive em moeda estrangeira ou por meio de benefícios como moradia e alimentação;

Combate à informalidade,com eliminação de multas por falta de registro e criação de mecanismos de regularização;

Regulamentação de trabalhadores de aplicativos, com criação da figura do “colaborador independente”, sem vínculo empregatício formal;

Tipificação de bloqueios sindicais como justa causa, permitindo demissão de quem participar de bloqueios em empresas.