O Dia Mundial da Poliomielite, celebrado neste sábado, 24/10, reforça a importância da vacinação para prevenir a doença e evitar o retorno da circulação do poliovírus. Apesar de o Brasil estar livre do poliovírus selvagem há décadas, a baixa cobertura vacinal representa um fator de preocupação para as autoridades de saúde, já que a infecção pode provocar paralisia permanente, deixar sequelas incapacitantes e, em casos graves, levar à morte.
Em Uruguaiana, os índices de imunização permanecem abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde (MS). Em contato com o CIDADE, a coordenadora de Vigilância Epidemiológica e Imunizações da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), enfermeira Eduarda Oliveira, informou que a cobertura vacinal é de 79,02% entre crianças menores de um ano e de 69,29% para a dose de reforço.
A vacina contra a poliomielite integra o Calendário Nacional de Vacinação e é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme a SMS, o esquema de imunização prevê três doses da vacina inativada contra a poliomielite (VIP), aplicadas aos dois, quatro e seis meses de idade, além de dois reforços, aos 15 meses e aos quatro anos.
A vacinação pode ser realizada nas Estratégias Saúde da Família (ESFs) do município. Na maioria das unidades, o atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30, embora alguns locais tenham horários próprios. A Sala de Vacinas do Posto Central também oferece o imunizante, das 8h às 12h e das 13h às 17h30.
Sequelas permanentes
A poliomielite, também conhecida como pólio ou paralisia infantil, é uma doença infecciosa provocada pelo poliovírus. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, além do contato com secreções de pessoas infectadas.
Na maioria dos casos, a infecção não apresenta sintomas ou provoca manifestações leves e inespecíficas, o que pode dificultar a identificação da circulação do vírus. Em uma parcela menor dos pacientes, porém, o agente infeccioso atinge o sistema nervoso central e pode comprometer a força muscular, causando paralisias irreversíveis e danos aos músculos responsáveis pela respiração.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças menores de cinco anos estão entre as mais afetadas pela doença. Embora os esforços internacionais tenham reduzido significativamente a circulação do poliovírus, a erradicação mundial ainda não foi alcançada.
Atualmente, Afeganistão e Paquistão são os únicos países onde a transmissão endêmica do poliovírus selvagem permanece. Enquanto houver circulação do agente infeccioso em alguma região, existe a possibilidade de reintrodução em outros territórios, especialmente naqueles com índices insuficientes de imunização.
Vacinação mudou o cenário no Brasil
A trajetória de enfrentamento à poliomielite no país foi marcada pela ampliação das campanhas de imunização. Em 1961, começou a vacinação em massa com o imunizante oral, popularmente conhecido como “gotinha”. Posteriormente, em 1980, foi criado o Dia Nacional de Vacinação contra a Poliomielite, ampliando a mobilização para proteger as crianças.
Em 1986, o personagem Zé Gotinha passou a integrar as campanhas brasileiras, tornando-se um dos principais símbolos da vacinação no país.
No Rio Grande do Sul, surtos da doença eram registrados com frequência, sobretudo nas décadas de 1950, 1960 e 1970. A intensificação das campanhas contribuiu para interromper a circulação do poliovírus selvagem. O último caso registrado no Estado ocorreu em 1983, em Santa Maria. No Brasil, a última confirmação foi em 1989, no município de Sousa, na Paraíba. Nas Américas, o último caso ocorreu em 1992, no Peru.
Em 1994, o Brasil recebeu a certificação de território livre da circulação do poliovírus selvagem. Desde então, a manutenção dessa condição depende da continuidade das ações de vigilância epidemiológica e, principalmente, da vacinação da população.
Esquema vacinal
Ao longo dos anos, o programa brasileiro de imunização passou por mudanças na estratégia de proteção contra a pólio. A vacina oral, conhecida como “gotinha”, foi substituída no esquema de rotina pela vacina inativada contra a poliomielite (VIP), administrada por injeção.
Atualmente, o calendário prevê cinco doses, incluindo o segundo reforço aos quatro anos de idade, introduzido em agosto de 2026. O esquema é composto por três aplicações iniciais e duas doses de reforço, conforme as seguintes idades:
O esquema vacinal é composto por três doses iniciais, aplicadas aos dois, quatro e seis meses de idade, e dois reforços, administrados aos 15 meses e aos quatro anos. Os imunizantes são oferecidos gratuitamente pelo SUS nas unidades de saúde. A atualização da caderneta vacinal é uma das principais medidas para ampliar a proteção individual e coletiva contra a doença.
Cobertura vacinal no Estado
O Ministério da Saúde estabelece como objetivo alcançar pelo menos 95% de cobertura vacinal contra a poliomielite. Entretanto, o Rio Grande do Sul não atinge esse patamar há mais de uma década.
Conforme dados divulgados pela Secretaria Estadual da Saúde (SES), os índices apresentaram oscilações ao longo dos últimos anos. Houve queda expressiva durante a pandemia de covid-19, seguida de recuperação parcial, mas os percentuais continuam inferiores ao recomendado.
A cobertura vacinal contra a poliomielite no Rio Grande do Sul foi de 88,47% em 2026, considerando os dados parciais, e de 91,51% em 2025. Em 2024, o índice chegou a 93,49%, enquanto em 2023 ficou em 88,68%. Nos anos anteriores, os percentuais foram de 78,80% em 2022, 76,35% em 2021, 85,14% em 2020, 85,09% em 2019, 85,70% em 2018, 85,73% em 2017 e 85,46% em 2016.
Reintrodução do vírus
O Ministério da Saúde e as secretarias estaduais realizam anualmente avaliações para identificar o risco de reintrodução do poliovírus no território brasileiro. A análise considera fatores como a cobertura vacinal, a atuação da vigilância epidemiológica, as condições de acesso ao saneamento básico e a ocorrência de casos e surtos de outras doenças que podem ser prevenidas por vacinas.
De acordo com a avaliação referente a 2025, o Brasil está classificado em situação de alto risco para a reintrodução do poliovírus. No Rio Grande do Sul, mais de 70% dos municípios apresentam risco alto ou muito alto. Entre os fatores que contribuem para esse cenário está a dificuldade de alcançar os índices de imunização recomendados nos últimos anos.
Diante desse contexto, as autoridades sanitárias reforçam que manter a vacinação em dia é essencial para proteger as crianças e impedir que uma doença eliminada do território brasileiro volte a circular. A disponibilidade gratuita das doses nas unidades de saúde permite que pais e responsáveis procurem os serviços para verificar a caderneta vacinal e atualizar o esquema de imunização.


