Caminhada do Pertencimento pretende reafirmar a presença das pessoas em sofrimento psíquico nos espaços de convivência da cidade. Crédito: arquivo pessoal/Jônatas Menezes.

A cidade também pertence a quem, por muito tempo, teve sua voz silenciada. É a partir dessa perspectiva que Uruguaiana receberá, no dia 22 de outubro, a 3ª Parada do Orgulho Louco, iniciativa que propõe levar às ruas discussões sobre saúde mental, direitos, liberdade e pertencimento por meio da arte, da cultura e da participação coletiva. 

Promovido pela Associação da Rede de Atenção Psicossocial (AFURP), o movimento reúne pessoas em sofrimento psíquico, familiares, trabalhadores da área da saúde, estudantes, artistas, movimentos sociais e moradores interessados em participar da mobilização. A programação terá início às 14h, com concentração junto ao Mercado Público. 

O secretário da AFURP e um dos organizadores da atividade, Jônatas Menezes, explica que a proposta está diretamente relacionada à luta antimanicomial e à construção de novas formas de compreender a saúde mental. “O Orgulho Louco está relacionado à luta antimanicomial e à construção de uma sociedade que reconheça a diversidade das experiências em saúde mental, questionando práticas de exclusão, estigmatização, silenciamento e violação de direitos”, afirma. 

A partir das 15h, os participantes sairão em caminhada em direção à Praça Barão do Rio Branco. Batizada de Caminhada do Pertencimento, a atividade pretende reforçar a presença das pessoas em sofrimento psíquico nos espaços de convivência da cidade. 

Para os organizadores, ocupar as ruas também representa uma forma de reafirmar cidadania. A ideia é mostrar que os espaços públicos devem ser acessíveis a todos e que viver em sociedade pressupõe convivência com diferentes experiências, trajetórias e formas de existência. “O Orgulho Louco é um momento de encontro, expressão, arte, cultura e luta em defesa do cuidado em liberdade e dos direitos das pessoas em sofrimento psíquico”, destaca Jônatas. 

Segundo ele, a proposta vai além de uma caminhada simbólica. “Mais do que uma caminhada, é uma ocupação dos espaços públicos para afirmar que toda pessoa tem o direito de existir, circular, criar, amar, se expressar e ser cuidada com dignidade, respeito e liberdade”, acrescenta. 

Arte como forma de expressão 

Depois da caminhada, a programação seguirá na Praça Barão do Rio Branco com atividades abertas ao público. Entre as atrações estão exposições, feira de alimentação, produção artesanal e apresentações culturais. 

A programação artística deverá reunir música, poesia, dança, teatro e outras manifestações, transformando a praça em um espaço de convivência e expressão. Também haverá um momento de microfone aberto, destinado a quem quiser cantar, recitar, contar uma experiência, compartilhar uma história ou simplesmente deixar uma mensagem. 

A iniciativa pretende valorizar justamente a possibilidade de falar e ser ouvido, colocando diferentes experiências no centro da atividade. No local, estão previstas atividades culturais, exposição de arteterapia, apresentações artísticas, feira de alimentação e outros momentos de convivência e expressão. 

Uma luta que atravessa gerações 

O movimento do Orgulho Louco possui relação com o Mad Pride, mobilização internacional que surgiu para combater o estigma associado às pessoas que vivenciam sofrimento psíquico e reivindicar o direito à diferença. No Brasil, a pauta também dialoga com a trajetória da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial, que defendem o cuidado em liberdade e a garantia de direitos. 

Em Uruguaiana, a mobilização chega à terceira edição e integra um conjunto de iniciativas que ocorrem durante o mês de outubro em diferentes municípios do Rio Grande do Sul. 

Para Jônatas, fortalecer esse tipo de ação significa ampliar o debate sobre saúde mental para além dos espaços institucionais. “A Parada do Orgulho Louco é, assim, caminhada, encontro, arte, cultura, resistência e pertencimento. É ocupar a cidade para lembrar que não queremos apenas sobreviver: queremos viver com dignidade, autonomia, direitos e liberdade”, ressalta. 

A atividade também conta com a participação da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva e da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). A organização defende que iniciativas desse tipo ajudam a ampliar a discussão sobre inclusão social, cidadania e direitos humanos, fortalecendo uma concepção de saúde mental baseada no cuidado em liberdade e nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).