A enchente histórica que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 ainda não terminou para muitos gaúchos. As águas baixaram, as manchetes diminuíram, aparentemente a rotina retornou, mas os impactos permanecem.
A reconstrução de pontes, estradas, escolas e moradias foi realizada e continua, no entanto os efeitos e sequelas que nem sempre são visíveis, irão permanecer para sempre na população, como a falta de confiança, de segurança e a eterna falta do sentimento de pertencimento de quem tudo.
Mais de um ano após a maior tragédia climática da história do Estado, muitas famílias ainda enfrentam as consequências daquele desastre. Algumas aguardam moradias definitivas; outras recomeçaram, mas carregam traumas profundos. Há quem não consiga dormir durante temporais, quem acompanhe previsões meteorológicas diariamente e quem tenha abandonado bairros inteiros por medo de novas enchentes.
Os investimentos públicos em reconstrução são fundamentais. O governo estadual informou a destinação de mais de R$1,5 bilhão para políticas habitacionais e mais de R$14 bilhões em ações de reconstrução. Essas ações para bens materiais não incluem a situação do impacto nas pessoas. A
enchente de 2024 não destruiu apenas casas, ela destruiu memórias, fotografias, documentos, negócios familiares e projetos de vida, além de vidas humanas e animais. Essa tragédia despertou ainda mais a insegurança e o medo.
Hoje, diante dos alertas sobre novos eventos climáticos extremos e da possibilidade de influência do fenômeno El Niño, o medo ressurge na sociedade gaúcha. E esse medo não é irracional, é resultado de uma experiência vivida pelos milhares de gaúchos que hoje sentem tanto. A tragédia ensinou que o tão
temido pode acontecer.
O evento climático trágico, mas anunciado, previsto pela meteorologia, revelou que reconstruir não basta, porque as políticas públicas não estavam adequadas de forma preventiva e mesmo emergencial para auxiliar a sociedade. É necessário rever o planejamento urbano, dar prioridade para situações de ocupação de áreas de risco, deficiência em sistemas de drenagem, insuficiência de medidas preventivas e dificuldades de coordenação entre diferentes órgãos públicos.
Observamos ao mesmo tempo, a força da solidariedade de todos: voluntários, universidades, organizações sociais, empresas e cidadãos comuns mobilizaram-se para salvar vidas e ajudar famílias atingidas. Quando muitos precisavam de auxílio urgente, a sociedade mostrou sua capacidade de união.
Dessa forma, falar em mudanças climáticas é muito mais que o aspecto ambiental referindo-se a natureza, é entender que se refere a dignidade humana, aos direitos humanos como vida, saúde, moradia e à segurança. Como gaúcha, vivi aqueles dias com angústia, tristeza e solidariedade. Não fui atingida diretamente pelas águas, pois moro em uma região mais alta de Porto Alegre. Ainda assim, faltou água, a rotina foi interrompida e acompanhei de perto o sofrimento de amigos, colegas e conhecidos que perderam suas casas e suas histórias. Procurei ajudar como pude, assim como milhares de pessoas.
Espero que essa catástrofe não se repita. As enchentes de 2024 mostraram que ninguém permanece ileso diante de uma tragédia dessa dimensão: todos fomos marcados, alguns com a perda dos lares, de vidas, outros perderam a sensação de segurança. Esse é o momento de refletir o que está sendo feito para evitar ou diminuir os efeitos caso novos eventos ocorram. Não basta reconstruir casas e outros, são necessárias políticas públicas preventivas efetivas que considerem sempre o ser humano.


