Insegurança faz brasileiras adotarem diferentes estratégias para reduzir riscos no cotidiano. Crédito: ilustração/Envato.

A violência interfere na forma como as mulheres brasileiras circulam, trabalham, estudam e aproveitam momentos de lazer. A pesquisa nacional realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber, mostra que 94% das mulheres afirmam se sentir inseguras diante da violência no dia a dia. Entre os homens, o índice é de 84%. Quando o recorte considera os deslocamentos pela cidade, 94% das mulheres e 90% dos homens relatam sentir medo. 

O levantamento, intitulado “Segurança das mulheres: percepção da sociedade brasileira sobre a violência”, também mostra que o receio ultrapassa a preocupação com furtos e roubos. Para as entrevistadas, situações de violência sexual, física, psicológica e doméstica também fazem parte do conjunto de ameaças consideradas no cotidiano. 

A percepção de insegurança aparece acompanhada de mudanças concretas na rotina. 98% das brasileiras entrevistadas afirmam adotar pelo menos uma estratégia para diminuir o risco de sofrer violência, enquanto 78% dizem já ter passado por algum tipo de violência. 

Quase oito em cada dez mulheres ouvidas, o equivalente a 78%, afirmam já ter sofrido pelo menos um tipo de violência. Entre as situações investigadas, a violência psicológica aparece como a mais declarada. 

O medo também alcança situações que fazem parte da rotina. Entre as mulheres entrevistadas, 97% dizem ter medo de ter o celular roubado, mesmo percentual registrado para o receio de sofrer um assalto ou roubo violento. Outros 96% temem ter algum objeto roubado e 95% têm medo de ter a residência assaltada. 

A preocupação também se estende a formas de violência direcionadas especificamente às mulheres. 94% relatam medo de sofrer violência sexual, 92% de sofrer uma agressão física, 91% de serem assassinadas e 89% de sofrer violência psicológica. O medo de violência doméstica aparece para 64% das entrevistadas. 

A sensação de vulnerabilidade varia conforme o espaço frequentado. Pontos de ônibus e estações estão entre os locais que geram maior insegurança: 42% das mulheres dizem não se sentir nada seguras nesses ambientes, enquanto 52% se consideram pouco seguras. Em bares, festas e baladas, 41% afirmam não se sentir nada seguras e 53% dizem se sentir pouco seguras. 

No transporte público, 33% afirmam não se sentir nada seguras e 61% se consideram pouco seguras. Já nas áreas centrais das cidades, 29% dizem não se sentir nada seguras e 62% pouco seguras. 

Medo modifica a rotina 

A insegurança não fica restrita à percepção. Segundo a pesquisa, 80% das mulheres já enfrentaram pelo menos uma restrição ou mudança de comportamento em razão do medo da violência. 

Os hábitos de lazer estão entre os mais afetados. 62% afirmam ter mudado seus hábitos de lazer e 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam. Além disso, 56% já escolheram algum meio de transporte em vez de caminhar, mesmo quando o destino era próximo. 

O impacto também chega às decisões profissionais e acadêmicas. 45% das mulheres afirmam ter deixado de aproveitar alguma oportunidade de trabalho ou estudo por causa do medo da violência. Outras 44% já pensaram em mudar de bairro ou cidade para se sentirem mais seguras. 

Para a diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê, o medo interfere na maneira como as mulheres ocupam os espaços urbanos. Segundo ela, a insegurança está relacionada a experiências concretas de violência e acaba influenciando escolhas relacionadas a trajetos, horários, lazer, trabalho e estudo. 

Estratégias de proteção 

Para reduzir os riscos, 98% das entrevistadas afirmam adotar algum tipo de estratégia. Evitar determinados locais é a medida mais citada, mencionada por 90% das mulheres. 

Outras práticas também fazem parte da rotina. 88% evitam compartilhar informações pessoais ou sua localização nas redes sociais; 84% evitam utilizar o celular na rua; 83% avisam alguém sobre seus deslocamentos e horários; e 83% evitam sair à noite. 

A preocupação também interfere na maneira de utilizar serviços financeiros e escolher formas de deslocamento. 80% evitam acessar aplicativos bancários pelo celular quando estão na rua, 77% compartilham a localização com pessoas de confiança, 69% mudam trajetos habituais e 66% chamam carro ou moto por aplicativo para não precisar caminhar. 

O mesmo percentual, 66%, afirma pedir que alguém as acompanhe quando saem de casa. Outras 63% evitam sair com cartão de crédito, enquanto 62% utilizam aplicativos que oferecem recursos de segurança. 

Entre as demais estratégias, 30% afirmam andar com um celular reserva, 27% praticar ou já ter praticado técnicas de defesa pessoal e 26% carregar algum item de proteção pessoal, como alarme ou spray de pimenta. 

A pedagoga Carlise Brondani conta que a principal forma de se sentir segura ao andar pelas ruas é estar acompanhada por uma amiga, familiar ou pelo marido. Segundo ela, a presença de outra pessoa ajuda a diminuir as chances de ser incomodada ou abordada e aumenta a possibilidade de pedir ajuda caso seja necessário. “Eu evito sair muitas vezes de casa, mas claro, quando preciso, eu procuro me cuidar assim, e tentar ir para um lugar que eu me sinta mais seguro, que eu vejo que tem mais pessoas. Me traz uma segurança maior saber que tenho para quem pedir um socorro. Ou saio acompanhada por uma pessoa seja de carro ou de pé”, destaca. 

O relato se relaciona diretamente com os dados da pesquisa sobre as estratégias adotadas pelas mulheres para reduzir riscos. 66% afirmam pedir para alguém acompanhá-las quando saem de casa, enquanto 83% avisam alguém sobre seus deslocamentos e horários. 

A dona de casa Joseane dos Santos relatou a reportagem ter passado recentemente por uma situação de assédio que também modificou a maneira como pensa na própria segurança ao sair de casa. “Um carro com vários meninos dentro, começaram a olhar e fazer comentários sobre mim, algumas cantadas, tentando ter minha atenção. Eu estava com meu filho, totalmente desrespeitoso”, comenta. 

Segundo Joseane, episódios como esse fizeram com que passasse a prestar mais atenção na forma como se veste. Ela afirma que, embora goste de usar roupas curtas, passou a escolher peças que considera mais “recatadas” para se sentir mais segura diante de possíveis abordagens. “Infelizmente, a sociedade ainda é muito machista”, avalia. “A primeira coisa que eu penso de segurança quando eu saio na rua é a roupa que eu vou sair. É vergonhoso falar, mas a roupa também. É uma coisa que eu cuido, eu sei que a roupa, ainda mais eu que gosto de usar roupa curta, eu amo andar com minhas roupas, mas eu sei que infelizmente eu vou ter que escutar alguma coisa”, explica Joseane. 

O depoimento está relacionado ao impacto que o medo provoca nas escolhas cotidianas. Além das mudanças nos hábitos de lazer e nos locais frequentados, a pesquisa aponta que 80% das mulheres adotam medidas de prevenção diante da insegurança. 

Deslocamento noturno 

A empresária Gabriela Martins conta que alguns cuidados já fazem parte da rotina, principalmente quando precisa sair à noite para passear com o cachorro. Moradora de um apartamento na região central, ela procura circular por locais movimentados e evita trechos escuros. “Como fico fora o dia todo, um dos horários que consigo sair é à noite. Alguns cuidados acabam fazendo parte da rotina: tento ficar num trajeto com pessoas circulando, não ando onde está escuro e sempre carrego algo que possa usar para me defender”, relata. 

Segundo ela, um assalto enquanto ia à farmácia há alguns anos reforçou a sensação de insegurança. Mesmo com esses cuidados já levei alguns sustos. Recentemente, achei que seria assaltada por alguém que estava escondido atrás de uma árvore, mas meu cachorro avançou. Acho que ele ser um cão de porte grande ‘ajuda’ um pouco. Muita gente tem receio de se aproximar”, conta. 

Gabriela também menciona situações envolvendo pessoas alcoolizadas nas proximidades de onde mora. “Tem muitas pessoas alcoolizadas circulando. Às vezes não fazem nada violento, mas xingam a gente; abordam pedindo dinheiro. A gente acaba ficando com medo de negar. Especialmente quem já passou por uma situação ruim fica muito desconfortável com isso”, afirma. 

O relato também se aproxima dos dados sobre os locais e horários em que as mulheres se sentem menos seguras. 83% das entrevistadas afirmam evitar sair à noite, enquanto 69% dizem mudar trajetos habituais para reduzir a exposição ao risco. 

Poder público 

A pesquisa também perguntou às mulheres quais instituições deveriam ter maior responsabilidade na prevenção e no enfrentamento da violência cotidiana. As Polícias Militar e Civil aparecem com 73% das menções, seguidas pelo Governo Federal, com 69%, Governo Estadual, também com 69%, e Governo Municipal, com 66%. 

A Polícia Federal e representantes do Legislativo aparecem com 65% cada, assim como o Poder Judiciário, também citado por 65%. As Guardas Municipais foram mencionadas por 57%, enquanto 45% apontaram a própria população e 44% a sociedade civil. 

Ao avaliarem a atuação desses setores, entretanto, as entrevistadas apresentaram índices elevados de avaliação negativa. Entre os grupos analisados, representantes do Legislativo registraram 74% de avaliação negativa, seguidos pelo Governo Estadual, com 72%, Poder Judiciário e Governo Federal, ambos com 71%, e Governo Municipal, com 69%. 

Canais de denúncia 

Entre as medidas consideradas importantes para prevenir e enfrentar a violência, 95% das mulheres apontam a ampliação dos canais de denúncia e apoio às vítimas. A melhoria da infraestrutura das cidades, incluindo transporte público, iluminação e espaços públicos, é considerada importante por 93% das entrevistadas.  

O mesmo percentual atribui importância à criação e ampliação de políticas específicas de proteção às mulheres e às ações de prevenção, como educação e mudança cultural. Já 92% consideram importante reduzir as desigualdades sociais e econômicas como parte das estratégias de enfrentamento da violência. 

Eleições 

A pesquisa também investigou a relação entre segurança das mulheres e decisões eleitorais. O dado divulgado foi que 78% das entrevistadas afirmam que propostas de enfrentamento à violência e ao assédio contra mulheres nas ruas e no transporte público influenciarão sua decisão de voto nas próximas eleições.  

Segundo os Institutos que realizam a pesquisa, este número representa a percepção declarada pelas participantes da pesquisa e não constitui uma projeção de comportamento eleitoral do conjunto do eleitorado.