Cátia-Liczbinski. Créditos: Arquivo/JC.

Mais um ano de eleições e muitas situações precisam ser analisadas pelo eleitor. É preciso ter cautela ao receber ou assistir, no celular ou nas redes sociais, vídeos com declarações de candidatos, verificando se realmente são verdadeiros antes de repassá-los.

Imagine a seguinte situação: ao abrir o celular, você assiste a um vídeo em que um candidato faz uma declaração ofensiva, anuncia uma proposta absurda ou confessa um crime. Indignado, compartilha o conteúdo com familiares e amigos. Horas depois, descobre que aquele vídeo era falso, criado por Inteligência Artificial, com voz, imagem e falas manipuladas. Parece absurdo, mas isso já aconteceu e pode continuar acontecendo.

Nas eleições de 2026, a Inteligência Artificial será uma grande ferramenta de campanha. Ela é capaz de produzir textos, imagens, vídeos e áudios com impressionante realismo e trazer inúmeros benefícios para a sociedade, mas, também pode ser utilizada para manipular informações, enganar eleitores e comprometer o direito do cidadão de decidir livremente.

Entre os maiores desafios estão os chamados deepfakes, vídeos, fotografias e áudios produzidos por Inteligência Artificial capazes de reproduzir, com fidelidade, a imagem e a voz de uma pessoa. Em poucos minutos, um candidato pode ser mostrado fazendo promessas que nunca fez ou defendendo ideias que jamais sustentou.

Diante dessas situações, é necessário pensar: como eu, eleitor, posso me proteger de informações falsas? Especialistas orientam observar possíveis falhas na sincronização da voz, movimentos artificiais da boca, iluminação incompatível e expressões faciais pouco naturais. Mais importante, porém, é verificar a origem da informação. O vídeo foi divulgado apenas em grupos de mensagens? Está em veículos jornalísticos reconhecidos? Não se pode ter pressa. É preciso conferir antes de compartilhar.

Considero muito importante que o eleitor procure além do vídeo, informações do candidato, conhecendo sua trajetória, seus projetos e seu posicionamento diante de temas relevantes, como educação, saúde, meio ambiente, direitos fundamentais e defesa da Constituição. O processo eleitoral exige conhecimento, responsabilidade e reflexão.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, cerca de 155 milhões de brasileiros estão aptos a votar nas eleições de 2026. Diante do crescimento da desinformação, o TSE ampliou seu Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação e atualizou as regras para exigir transparência
no uso da Inteligência Artificial e proibir deepfakes capazes de influenciar a vontade do eleitor.

A Agência Lupa apontou que aproximadamente 60% das declarações de agentes políticos verificadas apresentaram algum grau de distorção, demonstrando que a desinformação continua presente no debate público. Nunca foi tão fácil produzir e divulgar informações, mas também produzir desinformação. A Inteligência Artificial pode trazer inúmeros benefícios, porém jamais substituirá o discernimento humano. Algoritmos não possuem consciência, ética ou responsabilidade, eles apenas executam comandos. Somos nós que fazemos as escolhas.

Na era da Inteligência Artificial, é preciso proteger a democracia, a verdade e a liberdade de cada um que tem direito ao voto consciente, sem cabrestos ou desinformação. Que todos os cidadãos compreendam que compartilhar informação também é um ato de responsabilidade. Que, se realizado de forma impensada, pode destruir reputações, influenciar escolhas, comprometer eleições e enfraquecer a própria democracia. O maior desafio talvez não seja desenvolver máquinas cada vez mais inteligentes, mas formar pessoas cada vez mais conscientes, críticas e comprometidas com a verdade. Porque a tecnologia pode evoluir sem limites, mas somente a ética, a educação e o discernimento humano serão capazes de preservar aquilo que nenhuma inovação tecnológica poderá substituir: a confiança, a liberdade de escolha e a essência da democracia